domingo, 28 de fevereiro de 2010

Kikia Matcho

Kikia Matcho de Filinto de Barros


Kikia Matcho é mais uma discrição antropológica e sociologia da multiplicidade cultural guineense. Por aqui desfilam as múltiplas tribos, religiões, crenças, etnias que transformam a sociedade deste pequeno estado africano num autêntico melting pot, rico, diversificado e exuberante.

A Luta dividiu os guineenses, muitos citadinos juntaram-se no mato à guerrilha, mas outros foram alistados no exército colonial português e obrigados a combater os seus compatriotas. Outros ainda, desiludidos desertaram do PAIGC.

A desilusão com a Independência, o abandono a que foram votados os Combatentes da Luta pela Independência, o contraste entre uma liderança capaz de lançar uma guerra vitoriosa mas incapaz de desenvolver o País.

A diáspora emigrada em Portugal: um retrato terrível e verdadeiro sobre a forma racista como estes emigrantes são recebidos e de como a sua vontade de integração na sociedade portuguesa é cerceada e dificultada. “O racismo, sobretudo o desprezo, fazia-a ficar tensa. Queria ser como eles, dizer-lhes que ela era igual, que era também portuguesa como eles, que estava disposta a a cantar o Heróis do Mar, enfim, queria que Portugal fosse aquilo que sempre lhe ensinaram na escola primária: a Mãe Pátria.” Mas anos de barracas e discriminação, naturalmente eliminam esses sentimentos e os sentimentos de revolta brotam.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

A espuma dos dias

A Espuma dos Dias , Boris Vian

Uma profusão de temas condensados num drama humano de amor, doença e morte que se desenrola num cenário surreal.

O trabalho visto como desumanizante, a igreja e os seus ministros como interesseiros e materialistas, a medicina como fria e impotente, a filosofia e a literatura como alienantes, viciantes. O Jazz sempre presente.

O tempo e o espaço acompanham o ritmo vital de Chloé, vibrantes e alegres no início, lúgrebes, acanhados à medida que a doença progride. A morte elimina o tempo e o espaço na casa de Chloé, como se morressem com ela e não apenas para ela.

Fica na minha lista dos melhores livros que li.

sábado, 23 de janeiro de 2010

O Deus das Pequenas Coisas


O Deus das Pequenas Coisas de Arundhati Roy



O que os adultos podem fazer às crianças indefesas. Etha e Rahel têm sete anosmas são forçados a carregar a pesada culpa de toda a injustiça de um sistema de castas iníquo, que ergue muros mortíferos entre as pessoas. Este peso, naturalmente, revela-se excessivo.

O mundo infantil, inocente de dois gémeos é desfeito por adultos que face a uma sucessão de acidentes fortuitos, alguns dramáticos, respondem com o enquadramento mental, de que não têm consciência e de que não podem libertar-se, de uma sociedade preconceituosa, conservadora e violenta, que classifica as pessoas à nascença em Tocáveis e Intocáveis.

Este peso da tradição, da casta, do preconceito, infecta todos os intervenientes, desde o líder comunista local, ao intelectual formado em Oxford em Inglaterra.
Um facto que pode ser surpreendente para muitos: Em Kerala vive desde há muito uma numerosa comunidade cristã de rito sírio, integrada na Igreja Católica. Esta comunidade é muito anterior à chegada de Vasco da Gama à India. Os cristãos sírios são uma das castas superiores na Índia.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Simón Bolívar


O herói, o grande libertador das Américas, posto a nu pela pena buliçosa de Karl Marx. Este texto que embaraçou muitas gerações de marxistas nacionalistas sul-americanos, retrata Bolívar como um cobarde, um ambicioso que para alcançar os seus fins mesquinhos não hesita em recorrer à traição e ao assassinato dos seus rivais.

Bolívar é descrito como “avesso a qualquer esforço prolongado, e a sua ditadura não tardou a degenerar numa anarquia militar, na qual os assuntos mais importantes eram deixados nas mãos de favoritos, que arruinavam as finanças públicas e depois recorriam a meios odiosos para reorganizá-las.”

As suas aptidões militares são ridicularizadas e as suas retiradas ridicularizadas “Ali, para coonestrar a sua fuga, divulgaram um manifesto justificatório, redigido numa fraseologia pomposa.”

O texto está lá e dispensa leituras pseudo históricas e pseudo sofisticadas que nos digam que a sua intenção era dizer o contrário do que escreveu de facto.

Wayne Shelton Intégrale


As aventuras de Wayne Shelton nos confins do Khalakjistan algures perto do fim do mundo. O novo far west sem lei fica hoje em dia a Leste.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Uma noite não são dias



Uma historia de um trio que se transforma num quarteto. O roubo misterioso da coroa de Dona Matilde, Rainha infeliz.

Uma literatura leve (diz-se light em português?), bem humorada e com um toque de critica de costumes.

Um final surpreendente.

sábado, 26 de dezembro de 2009

O 18 do brumário de Louis Bonaparte




Quem com ferro mata com ferro morre


Muitos críticos de Marx acusam-no de na sociedade capitalista ver sempre presente a terrível luta de classes entre a burguesia e o proletariado. Na verdade nada mais longe do seu pensamento.

Neste livro Marx descreve, com toda a nitidez, a história do período que levou ao golpe de Estado de Dezembro de 1851 levado a cabo por Louis Bonaparte. Trata-se, sem dúvida, de uma luta de classes. Mas uma luta de classes em que o proletariado não é um actor presente. Uma luta de classes, sem tréguas e no final sangrenta, que envolve apenas várias facções da burguesia.

Este livros está cheio de surpresas para aqueles que têm de Marx uma visão estereotipada e errada. Este excerto sobre o Estado pode ser uma dessas surpresas:
Este poder executivo com a sua enorme organização burocrática e militar, possuidor dum aparelho estadual complexo e artificial, dum exército de funcionários de cerca de meio milhão de homens e de seu outro exército de meio milhão de soldados, horrendo corpo parasita, que envolve como uma membrana o corpo da sociedade francesa e sufoca todos os seus poros, constitui-se na época da monarquia absoluta, na fase de declínio do feudalismo que ajudou a derrubar” (p. 140)


terça-feira, 22 de dezembro de 2009

O Símbolo perdido


Uma longa / curta noite é o tempo que o Professor dispõe para desvendar o mistério da pirâmide e salvar o seu amigo e a Maçonaria.

A trama: um homem que quer ofercer o supremo sacrifício a fim de ascender em apoteose ao mundo dos demónios.

O cenário: Washington e a sua arquitectura repleta de construções e símbolos esotéricos.

Dan Brown escreve com o ritmo e o estilo certo.

A maldição dos trinta denários


Judas traiu Jesus por trinta moedas. Eram essas moedas denários como alguns defendem ou siclos como outros mantêm? Algures na Grécia um jovem pastor acaba de resolver o mistério ao encontrar um antigo refúgio de cristãos contemporâneos de Judas.

Uma interessante aventura de Black e Mortimer mas que está longe das assinadas por Edgar P. Jacobs.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Um discurso sobre as ciências

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Boaventura Sousa Santos, o decano da Sociologia crítica portuguesa, escreveu este pequeno mas denso texto já lá vão mais de 20 anos. Num discurso polémico e envolvente, defende que a ciência atravessa um fase de transição, estando prestes a abandonar o actual paradigma dominante e a abraçar um novo paradigma pós-modermo que estaria a emergir do actual.

O novo paradigma cientifico estaria ancorado em quatro vectores essenciais: i) Todo o conhecimento científico-natural é científico-social (diluição das fronteiras entre as ciências naturais e as ciências sociais e fusão destas duas áreas do conhecimento) ii) Todo o conhecimento é local e total (deixando de se organizar por disciplinas e passando a fragmentar-se por temáticas transversais e pluridisciplinares – por exemplo: “fazer baixar a taxa de mortalidade infantil, inventar um novo instrumento musical, erradicar uma doença, etc.") iii) Todo o conhecimento é autoconhecimento (fundido sujeito e objecto) iv) Todo o conhecimento científico visa constituir-se em senso comum (incorporando as virtude do senso comum na utensilhagem científica).

Uma mistura de ideias sensatas e outras que à primeira vista surgem estranhas como disparates mesmo. Dois exemplos destes últimos: i) A próposito da aproximação entre ciências naturais e ciências sociais escreve que “caberá especular se é possível, por exemplo, fazer análise filológica de um traçado urbano, entrevistar um pássaro ou fazer observação participante entre computadores”. Ii) A sua proposta de reintrodução da metafisica e da religião no seio da ciência, de onde foram há muito afastadas: “A ciência moderna não é a única explicação possível da realidade e não há sequer qualquer razão científica para a considerar melhor que as explicações alternativas da metafísica, da astrologia, da religião, da arte ou da poesia”. Eu, por meu lado, encontro várias razões para tendo o meu carro avariado colocá-lo nas mãos de um mecanico treinado, mesmo que pouco, numa tradição científica, do que leva-lo a arranjar a um grande curandeiro animista poeta.

Trata-se de um livro de ficção-científica epistemológica, i.e. as reflexões de BSS condesam mais uma antecipação do que ele espera e deseja que seja o futuro do que prescrevem, ou mesmo descrevem, regras de actuação científica no mundo actual.