quarta-feira, 28 de abril de 2010

A Esquerda Radical

A Esquerda Radical por Miguel Cardina


Pequeno opúsculo sobre a origem da esquerda radical em Portugal, a génese dos grupos das duas correntes principais a marxista-leninista e a trotskista. Um trabalho no âmbito de uma tese de doutoramento sobre o maoismo na contestação ao Estado Novo.

Uma esquerda que se queria mais revolucionária e combativa que o PCP mas que não resistiu aos primeiros refluxos sociais depois do 25 de Abril. Por ironia do destino parte desta esquerda tinha como farol a China de Mao. Hoje é o PCP que representa esta sensibilidade em Portugal.

Muito interessante. Escrito por um jovem que não tem obviamente contas a ajustar com o passado.

domingo, 18 de abril de 2010

Correios

Correios
Charles Bukowski


Cheguei a Charles Bukowski quando lendo Pedro Juan Gutierrez me apercebi que este era um exemplar serôdio da corrente literária do realismo sórdido iniciada por Bukowski.

Correios, publicado em 1971 chega agora, quase 40 anos depois, ao leitor de português.

Trata-se de um livro de carácter autobiográfico que conta os 11 anos que o personagem trabalhou para os Correios dos EUA, primeiro como carteiro e, depois, como separador de cartas. A dureza do trabalho, a desumanidade dos capatazes, as manhas e artimanhas necessárias para lhes escapar e a vida privada dissoluta e dissolvida em álcool enchem as páginas deste romance que se lê num ápice. Comprei ontem.

Como sempre o original é muito melhor do que a cópia.


segunda-feira, 12 de abril de 2010

La logique du Social

La logique du Social
Raymond Boudon


La logique du social foi publicada em 1979 e foi um dos primeiros trabalhos de Raymond Boudon. No entanto encontramos aqui as ideias mestras da sua teoria sociológica, inserida na corrente de pensamento dita do individualismo metodológico, termo cunhado em 1092 pelo economista Joseph Schumpeter.

Para Boudon o fenómeno social explica-se a dois níveis: o nível micro pela acção intencional dos indivíduos e a nível macro pela agregação destas acções individuais. Mas a agregação não é uma simples adição. Dela emergem efeitos de composição que fazem com que o resultado final das acções individuais não seja exactamente aquilo que os indivíduos esperariam.

Boudon tem uma grande vantagem em relação a outros sociólogos franceses. Escreve claro e perceptível, não se perdendo na verborreia intlectualoide, mas vazia de sentido, tão cara a tantos cientistas sociais franceses.

Um livro muito interessante.

domingo, 11 de abril de 2010

A Ilha maldita


A ilha maldita
Jacques Martin
Jacques Martin morreu em Janeiro deste ano de 2010. Foi um dos nomes maiores da Banda desenhada europeia. Começou como colaborador de Hergé, o genial criador de Tintin, mas depois afirmou-se como criador original.

A sua obra principal espraia-se pela vasta colecção das aventuras de Alix. O rigor histórico, a intrepidez do romano, a fragilidade do seu amigo egípcio, a intriga sempre interessante, o desenho rigoroso e pormenorizado, fazem desta série um clássico da Banda desenhada.

IRS All Watcher - La Nébuleuse Roxana


IRS All Watcher - La Nébuleuse Roxana
Koller (Desenhos) e Desberg (argumento)
Acabado de sair (Fevereiro de 2010).

O agente do IRS continua a perseguição do misterioso e perigoso All Watcher, o homem que no coração do sistema financeiro mundial tudo parece controlar. Este é o segundo tomo desta série de IRS.

Insípido.

domingo, 14 de março de 2010

A sociedade de consumo

A Sociedade de Consumo de Jean Baudrillard

Um livro datado. Escrito numa época (1970, agora traduzido) onde alguns albergavam a miragem que a sociedade estava a entrar num época de abundância, em que as desigualdades sociais seriam mais do tipo simbólico e de status do que de rendimentos e de bem-estar. Baudrillard toma uma posição ambígua ao longo do livro. Crítica os que pensam que a era da abundância veio trazer a justiça social, mas não escapa a acreditar que a abundância está a chegar para todos. Chega a antecipar a igualdade de rendimentos “Em tais condições, importa pouco que todos os rendimentos sejam, no limite, iguais, podendo até o sistema dar-se ao luxo de avançar a passo largo nessa direcção, porque não se encontra aí a determinação fundamental da «desigualdade»". Um falhanço completo da percepção do sentido em que se encaminhava já a sociedade francesa e europeia.

Sobre o consumo propriamente dito a sua tese radica na contradição entre a necessidade crescente da diferenciação (as elites pretendem sempre distinguir-se dos demais através de um consumo que se revela não utilitário mas simbólico, sinal de status social) e as capacidades de produção assentes nos meios técnicos.


Ética, Estado e Economia

Ética, Estado e Economia de Luís de Sousa (organizador)

Em países em que a confiança entre as pessoas é reduzida, em que a participação cívica é diminuta, a pertença a associações, sindicatos, clubes é pequena o capital social à disposição dos actores sociais é baixo. Portugal é um dos países europeus em que o capital social é menor e o que mais existe é do tipo negativo.

O sociólogo norte-americano Robert Putman escreveu referindo-se à Itália, mas com algumas adaptações, o mesmo se poderia dizer de Portugal: “Sem normas de reciprocidade nem redes de participação cívica, é mais provável o resultado ... familismo amoral, clientelismo, desprezo pela lei, governo inefectivo e estagnação económica”.

Este livro analisa em profundidade a relação entre o capital social, a corrupção e o desenvolvimento económico, dum ponto de vista científico. Indispensável para quem queira perceber o atoleiro que impede a sociedade portuguesa de se aproximar dos padrões médios europeus.

domingo, 7 de março de 2010

A cidadela branca


A cidadela branca de Ohran Pamuk


Um livro sobre a identidade. O que faz de mim eu?

A minha cultura? E se me aculturar aos costumes de outro país, deixarei de ser Eu? Passarei a ser outro? Serei um estrangeiro para o meu anterior Eu?

As minhas memórias e recordações? Poderei troca-las com as de terceiros? Poderei então sonhar os seus sonhos, pensar o que pensão?

O meu corpo? Mas se ele é tão parecido com outro que todos nos confundem?

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Kikia Matcho

Kikia Matcho de Filinto de Barros


Kikia Matcho é mais uma discrição antropológica e sociologia da multiplicidade cultural guineense. Por aqui desfilam as múltiplas tribos, religiões, crenças, etnias que transformam a sociedade deste pequeno estado africano num autêntico melting pot, rico, diversificado e exuberante.

A Luta dividiu os guineenses, muitos citadinos juntaram-se no mato à guerrilha, mas outros foram alistados no exército colonial português e obrigados a combater os seus compatriotas. Outros ainda, desiludidos desertaram do PAIGC.

A desilusão com a Independência, o abandono a que foram votados os Combatentes da Luta pela Independência, o contraste entre uma liderança capaz de lançar uma guerra vitoriosa mas incapaz de desenvolver o País.

A diáspora emigrada em Portugal: um retrato terrível e verdadeiro sobre a forma racista como estes emigrantes são recebidos e de como a sua vontade de integração na sociedade portuguesa é cerceada e dificultada. “O racismo, sobretudo o desprezo, fazia-a ficar tensa. Queria ser como eles, dizer-lhes que ela era igual, que era também portuguesa como eles, que estava disposta a a cantar o Heróis do Mar, enfim, queria que Portugal fosse aquilo que sempre lhe ensinaram na escola primária: a Mãe Pátria.” Mas anos de barracas e discriminação, naturalmente eliminam esses sentimentos e os sentimentos de revolta brotam.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

A espuma dos dias

A Espuma dos Dias , Boris Vian

Uma profusão de temas condensados num drama humano de amor, doença e morte que se desenrola num cenário surreal.

O trabalho visto como desumanizante, a igreja e os seus ministros como interesseiros e materialistas, a medicina como fria e impotente, a filosofia e a literatura como alienantes, viciantes. O Jazz sempre presente.

O tempo e o espaço acompanham o ritmo vital de Chloé, vibrantes e alegres no início, lúgrebes, acanhados à medida que a doença progride. A morte elimina o tempo e o espaço na casa de Chloé, como se morressem com ela e não apenas para ela.

Fica na minha lista dos melhores livros que li.