domingo, 4 de julho de 2010

Bartleby


Bartleby por Herman Melville

O estranho comportamento de Bartleby o novo escrivão do escritório de advocacia é surpreendente. Primeiro recusa-se a conferir os documentos e depois, pouco a pouco, todo e qualquer trabalho. Vemos a solidão e o abandono crescer em torno de Bartleby enquanto o seu comportamento se torna cada vez mais passivo. Dorme e come no escritório que se recusa a abandonar e, no final, tem de ser o escritório a mudar-se para se ver livre dele.

O absurdo, a doença mental, o mistério do comportamento humano - “Ah, Bartleby! Ah, humanidade!” - num pequeno conto do autor de Moby Dick.

O conto foi já transcrito para o cinema várias vezes e tem dado origem a múltiplas e variadas interpretações.

domingo, 27 de junho de 2010

A Science Fiction Omnibus

A Science Fiction Omnibus editado por Brian Aldiss

Um livro de contos organizado por um dos grandes autores de ficção científica de sempre, Brian Aldiss. Entre os mais de trinta autores representados estão também outros monstros sagrados deste género literário como A.E. van Vogt, Isaac Asimov mas também de outras famílias como John Steinbeck.

Tem textos admiráveis. Numa única página Frederic Brown conta-nos Answer, a surpreendente e definitiva resposta que o Homem obteve do mais potente processador, uma máquina que acabava de ligar todos os computadores existentes no universo. A pergunta é simples e, apesar do enredo se passar num futuro distante quando o Ser Humano tiver colonizado as galáxias mais longínquas, reflecte uma velha e intemporal dúvida: “Deus existe?”

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Jerusalém



Jerusalém por Gonçalo M. Tavares


Quando as frases se repetem ipsis verbis estaremos perante um erro desastrado ou uma técnica inovadora? Quando a loucura é tal impõe-se reflectir se Pessoa não teria razão ao dizer que o “poeta é fingidor/ finge tão completamente / que chega fingir que é dor / a dor que deveras sente”.

Este livro tem uma moral prática. Diz-nos que é perigoso deixar os loucos sem vigilância e sem tratamento. Que a sua condição de doentes os leva a irreflectidamente e sem malícia a cometer os mais variados crimes e as mais abomináveis maldades. Diz-nos o que acontece quando “os loucos tomam conta do manicómio”.

Uma escrita linear, repetitiva, enfadonha, sem floreados mas também sem sal, uma estrutura narrativa gasta de tanto uso, um enredo linear e previsível.

Gonçalo M. Tavares inclui esta obra num conjunto que denomina de livros negros. Tem razão. Um livro negro, no sentido de que quando fazemos asneira, algo que nos envergonha, sentimos que devemos pintar a cara de ... preto.

sábado, 19 de junho de 2010

O Dilúvio


O Dilúvio de Henryk Sienkiewicz

O Dilúvio é uma história de um amor em tempo de guerra. A época da invasão sueca da Polónia em meados do século XVII é conhecida, tal a destruição, tal o barbarismo dos nórdicos, por Dilúvio.

Esta é uma obra-prima da literatura mundial, um épico que nos revela o melhor e o pior da alma humana, muitas vezes reunidos num só indivíduo. A heróica defesa, a traição de nobres, a deserção de soldados, a fidelidade do povo, a grandeza da alma polaca.

A tradução de L. Costa é péssima, a edição da Portugal Press deficiente, o exemplar que comprei tinha duas folhas em branco, e descuidada, as gralhas abundam. Um mau serviço a um dos maiores escritores de sempre e que ainda em vida viu o seu talento reconhecido tendo recebido o Prémio Nobel em 1905.

domingo, 13 de junho de 2010

Bowling Alone


Bowling Alone de Robert D. Putnam

Para além do capital que conhecemos, acumulação de trabalho na forma de capital físico ou financeiro, existe também o capital humano, os conhecimentos e os saberes que cada indivíduo possui e o capital social, o conjunto de ligações que cada um de nós tem com outros - as redes sociais e as normas de reciprocidade e de confiança que delas emergem.

Robert D. Putman na esteira de James S. Coleman é o grande teorizador do capital social.

Nesta obra Putnam defende, apoiado numa bateria impressionante de dados de diferentes fontes, que o capital social está a diminuir na América – declínio da participação política, retrocesso no envolvimento cívico, afastamento das práticas religiosas, desfiliação sindical, abrandamento do voluntariado, contracção da filantropia e mesmo regressão nas formas mais elementares de interacção social, como os jantares de amigos, os jogos de bowling e os pic-nics. Simultaneamente a confiança dos americanos uns nos outros e a honestidade está igualmente a definhar.

Contra a corrente de retracção social Putnam identifica o crescimento dos pequenos grupos, como os de leitura, os movimentos sociais, por exemplo o Greenpeace, e as redes sociais baseadas na internet. Infelizmente muitos dos novos movimentos sociais, são organizações do tipo “terciário” com um pequeno núcleo de profissionais sedeados em Washington, onde fazem lobby junto dos políticos, apoiados por um conjunto de pessoas cuja intervenção se resume às contribuições monetárias e que se não conhecem mutuamente. Este tipo de organização, naturalmente, não contribui para o capital social.

Putnam procura num segundo momento identificar as causas da redução do capital social e encontra várias: i) a televisão contribui com a maior fatia (50%) para a redução do capital social (o tempo que as pessoas ocupavam a participar em organizações cívicas, em voluntariado, no activismo sindical ou político, é agora ocupado em frente do televisão), ii) o espraiar espacial, os americanos vivem num local, trabalham noutro, fazem as suas compras num terceiro, o que implica maiores tempos em deslocações e maior anonimato nos contactos, iii) o trabalho feminino por necessidades económicas, interessantemente as mulheres que trabalham porque querem mostram em geral um maior envolvimento social do que as que não trabalham e finalmente iv) as dificuldades económicas que a precarização e a globalização introduziram. Estas causas tendo emergido ao longo da segunda metade do século XX afectaram de forma desigual as diferentes gerações. Assim as geração mais velha, nascida na primeira metade do século (antes da TV) mostra hábitos gregários mais fortes, enquanto as gerações seguintes evidenciam índices cada vez mais fracos.

Num terceiro momento Putnam pergunta porque devemos preocupar-nos com o declínio do capital social. A sua resosta é porque o capital social é de importância crucial para: i) a educação das crianças, II) a saúde, estudos revelam que é equivalente para a saúde deixar de fumar ou aderir a uma organização que reúna pelo menos uma vez em cada 15 dias, investigações também demonstraram que quem adere a uma organização reduz o perigo de morte no ano seguinte em 50%, iii) a felicidade, varias autores defendem que a felicidade depende da forma de integração social e que os isolados são muito mais propensos à depressão e ao suicídio, iv) o progresso económico, o capital social propícia o crescimento económico, v) a democracia, sem participação dos cidadãos é difícil imaginar uma democracia.

Num último momento Putnam reflectindo sobre a História americana, aponta algumas pistas para o revigorar do capital social na América.

Um livro, não traduzido em português, mas que seria bom que os políticos, os líderes económicos e sociais o lessem, porque ajuda a perceber as causas do atraso português.

domingo, 23 de maio de 2010

A Ciência como Profissão







A Ciência como Profissão de Max Weber



Max Weber aborda a questão da Ciência, do contributo que esta pode dar mas também sobre o que ela não pode nem deve oferecer. Procurarei reter as ideias principais em 10 tópicos:

1. “As condições exteriores da profissão académica”. Compara aqui os sistemas de ensino universitário alemão e norte-americano.



2. A ciência e a arte. A ciência como conhecimento efémero, porque em constante progresso, em que cada avanço é logo ultrapassado por novos saberes. A arte como eterna, cada obra “plena” não podendo nunca ser suplantada.



3. Os ingredientes básicos da ciência. O “Conceito” que surge na antiguidade grega, e a “Experimentação”, filha do Renascimento.



4. O sentido da Ciência ao longo do tempo. “... Uma vez que se afundaram todas as anteriores ilusões: «caminho para o verdadeiro ser», «caminho para a verdadeira arte», «caminho para a verdadeira Natureza», «caminho para o verdadeiro Deus», «caminho para a verdadeira felicidade»...”.



5. A Ciência não tem sentido. “ A resposta mais simples, deu-a Toslstoi com as seguintes palavras «Ela [a Ciência] não tem sentido, pois não dá resposta à pergunta que é a única importante para nós: Que havemos de fazer? Como havemos de viver?». Que ela não dá essa resposta é um facto, pura e simplesmente, indiscutível.”



6. Pressupostos da Ciência. Todas as Ciências assentam em pressupostos indemonstráveis. “Portanto a Estética não procura saber se deve haver obras de arte”



7. O político, o religioso e o cientista são actividades distintas que não devem ser misturadas. O professor não deve em circunstancia alguma fazer passar as suas convicções políticas ou religiosas aos alunos sob a capa de conhecimento científico.



8. Não o deve fazer porque a ciência desencantou o mundo. No mundo moderno vários sistemas de valores conflituam, sem que nenhum valor se sobreponha aos restantes. As escolhas são pessoais e a Ciência nada consegue dizer sobre os valores. “Quem se atreverá a «refutar cientificamente do Sermão da Montanha, por exemplo, a norma de «não resistir ao mal» ou a parábola que manda oferecer a outra face?”.


9. Os quatro contributos da Ciência:
a) “Proporciona, evidentemente, conhecimentos sobre a técnica que permite, através do cálculo, dominar a vida, tanto as coisas materiais como até o comportamento humano
b) “Proporcionar métodos de pensamento, o apetrechamento e a formação para esse efeito
c) “ Ajuda a alcançar uma terceira coisa: a lucidez
d) Mostrar as consequências da acção. ” obrigar o individuo – ou, pelo menos, ajudá-lo nisso – a prestar contas a si próprio sobre o sentido último do seu procedimento



10. A crença acrítica não tem lugar na ciência. “O «sacrifício do intelecto» só é efectuado legitimamente, pelo discípulo perante o profeta, pelo crente perante a Igreja”.

A invenção do dia claro


A invenção do dia claro de Almada Negreiros


Um jovem parte à descoberta do sentido da vida, do lugar do Homem no Universo. A viagem é longa, cheia de experiências amargas e dolorosas, mas, no final, reveladora.

Não foi, portanto, sem orgulho que constatei que era precisamente por causa de cada um de nós que havia o universo.” O universo surge, assim, como construção humana, não como algo exterior, real, material, mas como fruto da mente por trás dos olhos que o perscrutam. Uma posição metafísica, idealista, surpreendente, no mau sentido, e dificilmente compreensível num pensador do século XX.

O estilo é rebuscado, num misto de futurismo surrealista e romântico lamechas. Algumas frases preciosas, muitas das quais sem conexão directa com a lógica do texto. “A rosa encarnada cheira a branco”.

A mensagem do dia claro, pelo contrário, sabe a mofo.


domingo, 9 de maio de 2010

Making Democracy Work

Making Democracy Work de Robert D.Putnam


No inicio dos anos 70 a Itália abandonou o sistema político centralizado adoptando uma extensa regionalização. Robert D. Putnam acompanhou de perto durante duas décadas a institucionalização dos novos poderes regionais.

Algumas regiões mostraram ser muito mais bem sucedidas do que outras. Particularmente as regiões geridas pelo, hoje defunto, partido comunista italiano, revelaram maior dinamismo, crescimento e maior satisfação dos eleitores com as políticas seguidas. Porque aconteceria tal fenómeno? Porque é que instituições criadas simultaneamente tinham tão grande disparidade de desempenhos?

A resposta, segundo Putnam, encontra-se no capital social, na forma como as pessoas se relacionam entre si. Nas regiões bem sucedidas existe um forte capital social, as pessoas pertencem a várias associações e redes de intervenção social e cívica, confiam umas nas outras e procuram contribuir para a resolução dos problemas, a igualdade social e política é muito maior. Nas regiões com pior desempenho a corrupção alastra, o clientelismo impera, o capital social é baixo, as pessoas estão atomizadas e não confiam nas que não pertencem ao seu núcleo familiar.

Um livro extraordinário. Importante para a reflexão sobre o nosso país.


Sobre o suícidio


Sobre o Suicídio - Jacques Peuchet com introdução de Karl Marx

Marx apresenta um texto de Jacques Peuchet sobre o suicídio. O que interessa a Marx neste texto é dar um exemplo da superioridade de análise da crítica social francesa relativamente à inglesa e à alemã. Marx aqui não subscreve nem antagoniza, porque nem sequer comenta, as teses Peuchet.

O livro devia ser apresentado como um texto de Peuchet com uma breve introdução de Marx e não como se fosse uma obra de Marx. A apresentação que Marx faz do texto e do autor ocupa apenas uma folha numa obra de cerca de 50 páginas.


sábado, 1 de maio de 2010

Contos de Poe


Contos de Poe
adaptação de Denise Despeyroux e desenhos de Miquel Serratosa


Este livro de Banda Desenhada consegue recrear de forma magnífica o ambiente sombrio, misterioso e tétrico em que se desenrolam três contos de Egar Alan Põe, O Escaravelho de Ouro, o Método do Dr. Alcatrão e do Professor Pena e A queda da Casa de Usher.

Miquel Serratosa é um jovem artista catalão, ainda há pouco saído da Universidade. Vamos seguramente ouvir falar dele.