terça-feira, 24 de agosto de 2010

Três contos da ìndia


Três contos da Índia por Rudyard Kipling
Rudyard Kipling deixou páginas admiráveis e o celebrado Livro da Selva, mas também foi um colonialista empedrenido.

Nestes contos a Índia é apresentada no seu pior: o sistema de castas, o vício do ópio, o ódio e a violência entre comunidades religiosas. Realidades duras mas, sem dúvida, amargas e duras para quem as vive, mas que não autorizam as conclusões que Kipling delas retira, nomeadamente que a Índia “Nunca há-de governar-se sozinha” (pp. 53).

O papel dos ingleses nesta colónia é empolado de forma exagerada. “E, todos os anos, o trabalho de conseguir que o país viva em boas condições prossegue. Se consegue algum progresso, todo o crédito é dado aos nativos, enquanto os ingleses recuam e limpam o suor da testa. Mas, se ocorrem falhas, os ingleses dão um passo em frente e ficam com as culpas.” (pp.54).

Pena que esta atitude colonialista manche uma excelente obra literária.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

As aventuras do Valente Soldado Svejk

As aventuras do Valente Soldado Svejk de Jaroslaw Hasek

Fragmentos de três textos diferentes todos no estilo sagaz de critica social que caracteriza Jaroslaw Hasek. Algumas historias extraídas das Aventuras do valente soldado Svejk, mas também excertos da História do Partido do Progresso Moderado dentro dos limites da Lei e de O Comissário Vermelho.

Delirante, bem humorado. Um livro divertido.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

O americano tranquilo



O americano tranquilo de Graham Green

Um livro que exemplifica magnificamente o ditado popular que nos ensina que de boas intenções e saber livresco está o inferno cheio. Que nos relembra que “vemos, ouvimos e lemos” e que, por muito que tentemos, chega um momento que não podemos mais ignorar e temos de fazer opções, tomar partido, actuar.

Uma passagem fala de Portugal e da sua influência no Vietname colonial. Ei-la: “O Bispo de Phat Diem visitara em tempos passados a Europa e adquirira certa devoção por Nossa Senhora de Fátima que aparecera, segundo crêem os católicos, a um grupo de crianças em Portugal. Quando regressou ao seu país construiu em sua honra uma gruta nos terrenos da catedral, e celebrava o seu dia todos os anos com uma procissão “.

Um livro notável.

sábado, 14 de agosto de 2010

Antigone


Antigone e Les mariés de la Tour Eiffel por Jean Cocteau


Versão da Antigona de Sófocles em linguagem mais simplificada, contemporânea e coloquial, mas sem sopro de inspiração nem de originalidade. Elimina todas as referências à mitologia grega e substitui mesmo Zeus por Júpiter – que segundo o autor é palavra mais fácil de pronunciar em francês. O resultado final é muito mais pobre que o original.

O livro inclui também a peça Les mariés de la tour Eiffel um texto muito interessante de sabor surrealista.


sábado, 7 de agosto de 2010

Le Châtiment


Le Châtiment por Patrick Delperdange, André Taymans e Raphael Schierer


Lefranc, o herói criado por Jacques Martin que faleceu em Janeiro último, continua vivo, activo, a desvendar mistérios e a evitar tragédias.

Agora com o argumento de Patrick Delperdange e os desenhos de André Taymans e Raphael Schierer, que captaram a essência do personagem e fazem aqui um bom álbum de continuação desta série de banda desenhada.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Lord Beresford e a intervenção britânica em Portugal 1807 - 1820





Aspectos e episódios menos conhecidos da vida de Beresford em Portugal. Quem sabe ou lembra que no final do ano de 1807 um frota inglesa comandada pelo Almirante Samuel Hood ocupou a ilha da Madeira.


A ilha foi declarada colónia britânica e os funcionários portugueses obrigados a juramento de fidelidade ao monarca da Grã-bretanha. Beresford foi o Governador nomeado para dirigir a Madeira. Esteve no cargo poucos meses mas introduziu várias reformas.


Interessante a sua opinião sobre a magistratura portuguesa: "na verdade os salários são tão insuficientes para prover às despesas das pessoas que os auferem que a intensão quase parece ser - e seguramente assim é interpretada - levá-las a remunerarem-se de outras formas" (pp. 58).


O livro também nos dá conta da forma como Beresford conduziu a batalha da Albuera contra os franceses e de como o seu conflito com os Regentes levou ao trágico desenlace do caso Gomes Freire de Andrade.Um livro de História bem argumentado e bem assente em documentos da época.

sexta-feira, 30 de julho de 2010


Social Capital por John Field


Um resumo sério e muito completo do conceito de capital social. John Field é um académico mas o livro é acessível a leigos.

Altamente recomendável.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Portugal, Povo de Suicidas

Portugal, Povo de Suicidas por Miguel Unamuno

Unamuno era um profundo conhecedor de Portugal, da língua e da literatura portuguesa e dos seus mais destacados intelectuais. Foi amigo e correspondente de figuras como Guerra Junqueiro e Teixeira de Pascoaes entre outros.

Do seu posto de reitor da Universidade de Salamanca procurou em várias intervenções académicas e jornalísticas levar o conhecimento dos autores portugueses ao público espanhol.

A visão que desenvolveu dos escritores e intelectuais portugueses levou-o a escrever que: “Os poetas portugueses são geralmente pouco eruditos, mesmo em matéria de letras. As suas leituras não são muitas nem muito variadas e a sua cultura é muito mais vernácula do que eles próprios crêem” (pp. 33).

A par com esta ignorância das elites intelectuais, Unamuno detecta nestas duas outras tendências vincadas: i) o culto da dor – “O culto da dor parece ser um dos sentimentos mais característico deste melancólico e saudoso Portugal” (pp. 25) e, ii) a prática do suicídio – “ Portugal é um povo de suicidas, talvez um povo suicida” (pp. 73).

Este é um livro que mostra as elites intelectuais portuguesas e o seu pensamento vistos pelos olhos de quem os conhecia bem.

sábado, 24 de julho de 2010

Amar de Novo

Amar de Novo de Doris Lessing

Este é um livro complexo, denso, extenso.

Num primeiro momento diremos que versa os amores impossíveis. E estes são vários: o de Julie Vairon, a bela e culta mulata da Martinica enamorada sucessivamente de dois nobres franceses, o do aristocrata inglês por Julie já morta e enterrada noutro século e noutro lugar, os de Sarah por membros da companhia de teatro que dirige e finalmente o de Andrew um actor texano por Sarah. Mas também o amor conjugal e filial falhado do irmão de Sarah. E o de Susan, a actriz que personifica Julie e Stephan. Muitos amores infelizes. Cada um à sua maneira.

Por isso numa segunda aproximação diremos estarmos na presença de um longo e minucioso catálogo dos obstáculos que tornam a felicidade impossível. Entre Julie e os seus amantes ergue-se, intransponível, a barreira da classe e do racismo, entre Stephan e Julie interpõe-se a morte, que transforma este amor numa impossibilidade absoluta, entre Sarah e Bill e Henry existe a diferença de idades, esse terrível preconceito social e o amor de Andrew por Sarah não é correspondido. Obstáculos insuperáveis, monstruosos que acabam por destruir os amantes menos avisados.

A cada obstáculo corresponde o seu desenlace natural: Stephan acaba por se juntar à sua amada, suicidando-se, Henry refugia-se no amor paternal, Andrew, americano pragmático, regressa a casa e casa-se com a consciência que será infeliz, Hall, o irmão de Sarah, vê a mulher abandoná-lo.

Muitos nos dizem que o segredo de envelhecer bem está na capacidade de manter o espírito jovem e ocupado com assuntos interessantes. O caso de Sarah mostra-nos exactamente o oposto. Mostra-nos a prisão que a nossa idade pode ser, as restrições que impõe, as limitações sociais que acarreta. O espírito, jovem e livre, sente e vive o amor, as suas doçuras e as suas agruras, mas a idade, e os preconceitos sociais a ela associados, impede a felicidade.

domingo, 4 de julho de 2010

Bartleby


Bartleby por Herman Melville

O estranho comportamento de Bartleby o novo escrivão do escritório de advocacia é surpreendente. Primeiro recusa-se a conferir os documentos e depois, pouco a pouco, todo e qualquer trabalho. Vemos a solidão e o abandono crescer em torno de Bartleby enquanto o seu comportamento se torna cada vez mais passivo. Dorme e come no escritório que se recusa a abandonar e, no final, tem de ser o escritório a mudar-se para se ver livre dele.

O absurdo, a doença mental, o mistério do comportamento humano - “Ah, Bartleby! Ah, humanidade!” - num pequeno conto do autor de Moby Dick.

O conto foi já transcrito para o cinema várias vezes e tem dado origem a múltiplas e variadas interpretações.