domingo, 14 de novembro de 2010

Un cabinet d´amateur



Un cabinet d´amateur de Georges Perec
Uma história em que nada do que parece é. O livro começa numa exposição e acaba depois de um leilão. Sucedem-se as surpresas, as viragens, as mudanças de rumo. Mas tudo a um ritmo tranquilo e falando de pintura, de pintores, de escolas artísticas e de quadros. Tudo no tom certo dos livros de arte, dos catálogos de leilão, das monografias sobre artistas ou obras concretas.

Na exposição brilha “Um Gabinete de Amador”, um quadro do jovem pintor Kurtz que mostra um coleccionador, um rico industrial da cerveja alemão radicado nos EUA, rodeado dos seus quadros. Naturalmente entre as obras retratadas está o próprio quadro de Kurtz, e neste se reproduz uma segunda vez todos os outros incluindo ele próprio e assim sucessivamente. Mas as reproduções dos quadros dentro do quadro, vão tendo pequenas, mas interessantes, alterações. Cada camada da cebola é diferente e semelhante da que a precede e da que a sucede.

George Perec é por muitos considerado o melhor escritor francês do século XX. Filho de judeus polacos nasce em Paris em 1936. O pai morre em combate durante a II Grande Guerra. Mãe é presa em 1943 e enviada para Auschewitz sendo morta pelos alemães. Estudou sociologia. Morreu de cancro com 45 anos em 1982. Deixou uma obra genial, ainda pouco traduzida e conhecida em Portugal.

Warren Motte escreveu que George Perec “referiu um dia que a que o seu trabalho era animado por quatro preocupações principais: uma paixão pelos, aparentemente triviais, detalhes da vida quotidiana, um impulso para a autobiografia e para a confissão, uma vontade de inovação formal e um desejo de contar histórias atraentes e absorventes”.

A Batalha do Bussaco



A Batalha do Bussaco de José Pires

A tradição histórica dominante tem insistido que as vitórias de Welligton no período das guerras peninsulares foram também um sucesso nacional. Trata-se de uma interpretação no mínimo debatível. No fundo os verdadeiros beligerantes eram os franceses e os britânicos, sendo os portugueses meros peões secundários nessa disputa. Acresce que existiam tropas portuguesas dos dois lados na batalha do Bussaco e que a derrota de Masséna levou a um período de dominação inglesa sobre o nosso país.

José Pires tem um bom domínio da técnica da Banda Desenhada.


Como a água que corre


Como a água que corre de Marguerite Yourcenar

Marguerite Yourcenar tem uma ideia de partida, uma metáfora sobre a existência humana. A vida como a água emerge da fonte e corre apressada para a foz. Nesta viagem carregamos apenas os episódios e as experiências que nos marcaram. Não escolhemos as experiências, elas vêm ter connosco, impõem-se-nos, mas, de algum modo, somos nos que decidimos quais as que queremos que cheguem connosco ao oceano e quais as que deixamos ficar para trás no fundo do rio. É nessa decisão que se exerce o livre arbítrio, a vontade do indivíduo. As três histórias que compõem este livro, ilustram, cada uma a seu modo, mas sempre de forma cristalina esta visão.

A escrita flui ao ritmo da água que atravessa suavemente a planície e enlaça-nos nos sentimentos dos personagens, nos seus desejos e melancolias e mesmo na tristeza desprendida que antecede a morte.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A outra invasão do Iraque



A outra invasão do Iraque por Paulo Casaca
Paulo Casaca desvenda-nos a outra invasão do Iraque que ocorreu em simultâneo com o ataque militar norte-americano: a entrada de centenas de militantes políticos xiitas que se encontravam exilados nos países vizinhos, nomeadamente no Irão. Estes políticos, organizados, treinados e financiados por Tearão rapidamente se coligaram com os norte-americanos e acederam aos mais altos escalões da decisão política.

Aliás o livro refere que os americanos e os iranianos alinharam estratégias antes da invasão, momento em que o Irão solicitou aos EUA que bombardeassem, o que foi feito, as bases da OPMI, movimento oposicionista iraniano armado sediado no Iraque com a autorização de Sadam Hussain.

Paulo Casaca sugere que as fontes de informação dos EUA relativas à presumida existência de armas de destruição massiva foram agentes da contra-informação iraniana. Nesse sentido os EUA teriam sido manipulados por Tearão e a invasão seria um forma de o Irão destruir um regime rival e poder colocar no poder do país vizinho os seus agentes.

Ao permitirem aos xiitas pró-iranianos aceder ao poder no Iraque os norte-americanos estão, segundo o autor, a contribuir ingénua e involuntariamente para: i) a manutenção no poder do regime teocrático, ii) apoiar o terrorismo internacional, uma vez que Tearão tem sido um país que muito tem contribuído para estes movimentos, iii) fortalecer a estratégia iraniana de controlo regional. Nesta perspectiva o Irão teria a ambição de controlar o petróleo de toda a região e vir, em coligação com outros países como a Venezuela, a impor, no mercado mundial, os preços desta matéria prima vital.

Paulo Casaca tem vindo a desenvolver um amplo trabalho de apoio à OPMI e a políticas no Iraque que visem reforçar os partidos, incluindo movimentos xiitas, não alinhados com o Irão.

As teses apresentadas surgem como inverosímeis mas são sustentadas por dados e factos concretos explorados com inteligência e paixão.

Um livro imprescindível para se compreender o intrincado mundo do caos político do Iraque e o papel do Irão como potência regional emergente.

domingo, 31 de outubro de 2010

Cantatrix Sopranica L. et autres écrits scientifiques


Cantatrix Sopranica L. et autres écrits scientifiques de Georges Perec
Livro absolutamente genial.
Neste livro o autor usa a forma, o tom e o estilo dos artigos cientificos para dar largas à imaginação e ao bom humor.
Georges Perec tem sido uma descoberta. Já comprei mais livros deste fantastico escritor francês.

domingo, 24 de outubro de 2010

A arte e o modo de abordar o seu chefe se serviço para lhe pedir um aumento



A arte e o modo de abordar o seu chefe se serviço para
lhe pedir um aumento por George Perec


Uma porta que se abre. Uma horizonte que se descobre. Um sorriso que se alarga. Uma nova literatura que se descobre. Eis o impacto deste livro de George Perec.

A escrita constrangida – o texto segue um esquema elaborado por outra pessoa – de George Perec é fluida, clara e bem humorada. Não há virgulas, pontos de exclamação, de interrogação, ponto e virgula, ou qualquer outra pontuação. O texto é um grande parágrafo único, que se desdobra sequencialmente enumerando todas as possibilidades que se oferecem ao funcionário para abordar o seu chefe de serviço para lhe pedir um modesto aumento de vencimento mensal.

Perec, considerado por alguns o maior escritor francês da segunda metade do século XX, pertenceu ao movimento OuLiPo (Ouvroir de littérature potentielle), movimento de aproximação da literatura e da matemática animado entre outros por Raymond Queneau, François Le Lionnais, Italo Calvino.

Estes escritores utilizaram técnicas divertidas como a Bola de Neve – em que num texto cada palavra tem uma letra mais do que a precedente – o Lipograma – em que num texto não existe uma ou mais letras (Perec escreveu o volumoso romance A Desaparição em que a letra “e”, tão frequente no francês, está totalmente ausente) e o Palíndromo – em que uma frase pode ser lida da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda (exemplos: i) com uma palavra: reger, saias; ii) frase completa: Adias a data da saída, A rara arara, Roma é amor).

Pena é que a parte mais importante e relevante da obra de George Perec não esteja traduzida para português.

sábado, 23 de outubro de 2010

Hípias (Menor)

Hípias (Menor) por Platão

Platão, com a sua técnica implacável de interrogatório, leva Hípias a chegar à conclusão contrária à da sua própria tese de partida.

Quem será melhor: o que engana/mente porque quer ou o que engana/mente involuntariamente?

Hípias defende que o que mente involuntariamente é melhor, mas depois de vários exemplos em que concorda com o oposto - o melhor atleta corre lentamente porque quer enquanto o pior corre mal involuntariamente, o melhor poeta só escreve mal quando quer mas o mau escreve mal involuntariamente - fica sem argumentos quando Platão lhe pergunta se o melhor mentiroso é aquele que mente porque quer ou aquele que mente involuntariamente.

A riqueza, a subtileza e a beleza do método de interrogatório é admirável.

Casas Clandestinas


Casas Clandestinas


Editado por ocasião do 60º aniversário da fundação do Partido Comunista Português, celebrado em 1981, pela sua Comissão de Freguesia de Nossa Senhora de Fátima este opúsculo lista as casas que nessa localidade foram usadas na luta clandestina contra a ditadura do Estado Novo.

Algumas foram descobertas, atacadas e os militantes presos, de outras conseguiram fugir e outras nunca foram descobertas.

Um texto que nos recorda que Portugal viveu sob uma pesada ditadura durante décadas, mas que mesmo nesse tempo houve muitos que resistiram.

domingo, 17 de outubro de 2010

Super Freakonomics


Super Freakonomics de Steven D. Levitt e Stephen J. Dubner

Depois do êxito do primeiro livro os dois autores regressam com um novo texto. Com base na teoria da Escolha Racional procuram explicar o comportamento humano, da economia das prostitutas americanas à falta de higiene dos médicos (e que custa a vida a centenas de milhares de pessoas todos os anos). Do uso de cinto de segurança nos automóveis às soluções para contrariar o aquecimento global, o livro avança com teses heterodoxas e criativas.

Interessante se bem que não concordemos com a maioria das explicações avançadas e das soluções propostas. Mas há que reconhecer que são engenhosas e inteligentes.

Uma informação importante: as gravatas dos médicos (os enfermeiros e outros técnicos não as usam) são uma das mais importantes fontes de agentes patológicos que são depois transmitidos aos doentes. Nos EUA na maioria dos hospitais os médicos estão proibidos de as utilizar.



Cincoenta perguntas sobre Portugal


Cincoenta Perguntas sobre Portugal

Editado em 1933 antes, portanto, de terem sido adoptadas as actuais regras ortográficas que tantos hoje não querem abandonar como se fossem sagradas e milenares.
As perguntas que coloca, tipo "Qual a terra de Geraldo O Sem Pavor? E a de Guadim Pais?", não são de pronta resposta para quem tem hoje menos de 40 anos. Mostram uma cultura geral assente noutros acontecimentos, uma história aprendida noutras bases e em paradigmas diferentes.

Para o leigo um bom teste para conhecer mais a história do nosso país. Para quem queira aprofundar uma boa maneira de observar as diferenças que o tempo introduziu na cultura geral dos portugueses e na visão sobre a sua história.

A propósito sabem "Quantos potes tem um almude?"