sábado, 8 de janeiro de 2011

A Linha da Beleza




A Linha da Beleza de Alan Hollinghurst



Um convidado ou um hospede é sempre um intruso, un estranho que nem o tempo nem a atenção e simpatia podem integrar plenamente no lar de acolhimento e em momentos de crise será sempre o bode expiatório conveniente e prontamente sacrificado sem pena nem remorsos.


Nick torna-se de forma que roça o intensional, de multiplas maneiras e para várias pessoas, um estranho. Aceita ir viver com uma família aristocrática sendo plebeu, esconde dos pais a sua homosexualidade, trai a sua relação amorosa com encontros anónimos, cala segredos que seria melhor desvendar. Mas mas também é positivavente um estranho na medida em que desconhece as regras, duras e selvagens, do mundo social em que se move. Confiantemente avança para o abismo. E cai.


Em pano de fundo a Inglaterra da era de Tatcher em que a classe possidente reganha o controlo total da economia e do poder político.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

o remorso de baltazar serapião


o remorso de baltazar serapião por valter hugo mãe
O homem animalesco, sem comando sobre a sua natureza, sem força de vontade, sem chispa de moral, o homem hobbesiano, só egoísmo, só desejo, só bestialidade, só agressividade, só medo, só superstição, personificação simultânea da maldade e da cobardia nunca existiu - leiam-se os antropólogos, estude-se História, visite-se o mundo. Não pode ser, pois, o retracto do servo medieval nem, muito menos, da sociedade portuguesa da época. Baltasar Serapião nunca existiu – a não ser no sentido que Gustave Flaubert deu à sua famosa frase “Emma Bovary c´est moi”.

O livro é uma longa descrição acéfala, acrílica e misógina, escrita na primeira pessoa, de crueldades recebidas e infligidas, de deboche, de bestialismo, de superstição, de traição e de assassínio. Sem uma reflexão, sem um contexto, sem nada ... porque simplesmente o mundo é/era supostamente assim.

Que qualifica este livro para Prémio Literário? O facto de omitir a letra grande? Depois de tanto e tão interessante experimentalismo com o grafismo e a com a gramática na Literatura essa seria diminuta razão. O facto de não haver melhor?

Por vezes ao atribuir um prémio a obra menor ou sem valor arruina-se o próprio galardão e desprestigiam-se os jurados que o decidiram. É, infelizmente, o caso. valter hugo mãe não o merecia.


A maldição dos Trinta Denários – tomo 2


A maldição dos Trinta Denários – tomo 2 por Jean van Hamme e Antoine Aubin

Judas traiu Jesus por trinta moedas. Eram essas moedas denários como alguns defendem ou siclos como outros mantêm? Algures na Grécia um jovem pastor acaba de resolver o mistério ao encontrar um antigo refúgio de cristãos contemporâneos de Judas. Mas onde está Judas enterrado com as restantes moedas? Será verdade que estas conferem um poder sobrenatural?


Segunda parte (a primeira parte foi publicada faz este mês precisamente um ano) desta saga que está muito longe das aventuras de Black e Mortimer assinadas por Edgar P. Jacobs. Algumas soluções à Indiana Jones estão velhas e gastas.

Blake e Mortimer são aqui descaracterizados e actualizados. Uma mulher como co-heroína seria impensável. Que Mortimer a corteje ainda mais.

Quando morre o criador de banda desenhada devia ser proibido que outros continuem a publicar histórias com os seus heróis.

domingo, 28 de novembro de 2010

Confiança e Medo na Cidade

Confiança e Medo na Cidade de Zygmunt Bauman
Zygmunt Bauman, sociólogo polaco à muito radicado em Inglaterra, fala-nos do medo pós-moderno de viver na Cidade e das reacções que esse sentimento, fruto da nova ordem globalizada e tecnotizada, tem provocado na organização urbana (a segregação, os condomínios fechados, a vídeo-vigilância omnipresente) e nas soluções arquitectónicas (as casas bunker, as casas disfarçadas, os muros, os bancos redondos dos jardins que impedem os sem abrigo de aí dormir, etc.).

Na cidade trava-se uma batalha. A luta entre a mixofilia e mixofobia, entre o gosto e a aversão pela diferença, pela diversidade. Nesta guerra Bauman toma partido pela mixofilia, a única que, na sua opinião, pode, unindo os seres humanos, permitir-nos a criação de um “horizonte comum”, de um futuro comum.

XIII Mystery - Little Jones

XIII Mystery - Little Jones por E. Henninot


Os anos 60 os Black Panthers e os direitos civis na América são o pano de fundo para mais uma aventura.


Um tratado sobre os nossos actuais descontentamentos

Um tratado sobre os nossos actuais descontentamentos de Tony Judt

Passados praticamente 30 anos da ascensão ao poder da dupla Reagam-Tatcher e do neo-liberalismo que romperam com o anterior consenso social-democrata é já possível fazer um balanço do resultado dessa viragem política no mundo ocidental.

Tony Judt dá aqui um importante contributo para esse julgamento explicando o sucesso da social-democracia no período pós II Guerra, criticando as ideias da escola de Viena e mostrando os resultados concretos das políticas neo-liberais seguidas - crescimento exponencial da desigualdade, ineficiência da nova gestão das empresas privatizadas, regresso do problema social que parecia resolvido. A prova final do desastre destas escolhas está à nossa frente: a terrível e longa crise iniciada em 2007 cujas destruidoras consequências económicas e humanas ainda estão em fase de concretização.

Judt advoga um regresso a uma social-democracia reinventada, adaptada ao mundo mais globalizado e tecnologicamente mais desenvolvido em que vivemos, em que a luta contra as desigualdades sociais seja a primeira prioridade.

Judt não é um dogmático e não pensa que a social-democracia seja o regime perfeito, é, para ele, simplesmente o menos mau considerando as alternativas – o socialismo real como foi vivido na antiga União Soviética e o neo-liberalismo actual. Daí que a defesa da social-democracia seja feita de um ponto de vista profundamente prático, esse sistema funciona melhor e de forma mais eficiente.

O medo da explosão social e da pauperização da sociedade serão em sua opinião os principais catalisadores do regresso da social-democracia.

Este foi o último livro, um verdadeiro testamento político, de Tony Judt que morreu, de doença prolongada, pouco depois de o acabar. O bom senso dos argumentos, a clareza das ideias e a tolerância dos ideais são consistentes com a defesa de um regime de compromisso e moderação social.

Poderia ser um livro amargo virado para o passado, não é. Pelo contrário é uma obra simples, clara, decididamente precursora de um futuro que Judt sabia já não poder viver.

domingo, 14 de novembro de 2010

Un cabinet d´amateur



Un cabinet d´amateur de Georges Perec
Uma história em que nada do que parece é. O livro começa numa exposição e acaba depois de um leilão. Sucedem-se as surpresas, as viragens, as mudanças de rumo. Mas tudo a um ritmo tranquilo e falando de pintura, de pintores, de escolas artísticas e de quadros. Tudo no tom certo dos livros de arte, dos catálogos de leilão, das monografias sobre artistas ou obras concretas.

Na exposição brilha “Um Gabinete de Amador”, um quadro do jovem pintor Kurtz que mostra um coleccionador, um rico industrial da cerveja alemão radicado nos EUA, rodeado dos seus quadros. Naturalmente entre as obras retratadas está o próprio quadro de Kurtz, e neste se reproduz uma segunda vez todos os outros incluindo ele próprio e assim sucessivamente. Mas as reproduções dos quadros dentro do quadro, vão tendo pequenas, mas interessantes, alterações. Cada camada da cebola é diferente e semelhante da que a precede e da que a sucede.

George Perec é por muitos considerado o melhor escritor francês do século XX. Filho de judeus polacos nasce em Paris em 1936. O pai morre em combate durante a II Grande Guerra. Mãe é presa em 1943 e enviada para Auschewitz sendo morta pelos alemães. Estudou sociologia. Morreu de cancro com 45 anos em 1982. Deixou uma obra genial, ainda pouco traduzida e conhecida em Portugal.

Warren Motte escreveu que George Perec “referiu um dia que a que o seu trabalho era animado por quatro preocupações principais: uma paixão pelos, aparentemente triviais, detalhes da vida quotidiana, um impulso para a autobiografia e para a confissão, uma vontade de inovação formal e um desejo de contar histórias atraentes e absorventes”.

A Batalha do Bussaco



A Batalha do Bussaco de José Pires

A tradição histórica dominante tem insistido que as vitórias de Welligton no período das guerras peninsulares foram também um sucesso nacional. Trata-se de uma interpretação no mínimo debatível. No fundo os verdadeiros beligerantes eram os franceses e os britânicos, sendo os portugueses meros peões secundários nessa disputa. Acresce que existiam tropas portuguesas dos dois lados na batalha do Bussaco e que a derrota de Masséna levou a um período de dominação inglesa sobre o nosso país.

José Pires tem um bom domínio da técnica da Banda Desenhada.


Como a água que corre


Como a água que corre de Marguerite Yourcenar

Marguerite Yourcenar tem uma ideia de partida, uma metáfora sobre a existência humana. A vida como a água emerge da fonte e corre apressada para a foz. Nesta viagem carregamos apenas os episódios e as experiências que nos marcaram. Não escolhemos as experiências, elas vêm ter connosco, impõem-se-nos, mas, de algum modo, somos nos que decidimos quais as que queremos que cheguem connosco ao oceano e quais as que deixamos ficar para trás no fundo do rio. É nessa decisão que se exerce o livre arbítrio, a vontade do indivíduo. As três histórias que compõem este livro, ilustram, cada uma a seu modo, mas sempre de forma cristalina esta visão.

A escrita flui ao ritmo da água que atravessa suavemente a planície e enlaça-nos nos sentimentos dos personagens, nos seus desejos e melancolias e mesmo na tristeza desprendida que antecede a morte.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A outra invasão do Iraque



A outra invasão do Iraque por Paulo Casaca
Paulo Casaca desvenda-nos a outra invasão do Iraque que ocorreu em simultâneo com o ataque militar norte-americano: a entrada de centenas de militantes políticos xiitas que se encontravam exilados nos países vizinhos, nomeadamente no Irão. Estes políticos, organizados, treinados e financiados por Tearão rapidamente se coligaram com os norte-americanos e acederam aos mais altos escalões da decisão política.

Aliás o livro refere que os americanos e os iranianos alinharam estratégias antes da invasão, momento em que o Irão solicitou aos EUA que bombardeassem, o que foi feito, as bases da OPMI, movimento oposicionista iraniano armado sediado no Iraque com a autorização de Sadam Hussain.

Paulo Casaca sugere que as fontes de informação dos EUA relativas à presumida existência de armas de destruição massiva foram agentes da contra-informação iraniana. Nesse sentido os EUA teriam sido manipulados por Tearão e a invasão seria um forma de o Irão destruir um regime rival e poder colocar no poder do país vizinho os seus agentes.

Ao permitirem aos xiitas pró-iranianos aceder ao poder no Iraque os norte-americanos estão, segundo o autor, a contribuir ingénua e involuntariamente para: i) a manutenção no poder do regime teocrático, ii) apoiar o terrorismo internacional, uma vez que Tearão tem sido um país que muito tem contribuído para estes movimentos, iii) fortalecer a estratégia iraniana de controlo regional. Nesta perspectiva o Irão teria a ambição de controlar o petróleo de toda a região e vir, em coligação com outros países como a Venezuela, a impor, no mercado mundial, os preços desta matéria prima vital.

Paulo Casaca tem vindo a desenvolver um amplo trabalho de apoio à OPMI e a políticas no Iraque que visem reforçar os partidos, incluindo movimentos xiitas, não alinhados com o Irão.

As teses apresentadas surgem como inverosímeis mas são sustentadas por dados e factos concretos explorados com inteligência e paixão.

Um livro imprescindível para se compreender o intrincado mundo do caos político do Iraque e o papel do Irão como potência regional emergente.