domingo, 27 de fevereiro de 2011

As Farpas na República



As Farpas na República por Ramalho Ortigão



A mesma critica mordaz, trocista e acutilante, bem-humorada mas demolidora, irónica mas cirúrgica, leve mas directa ao alvo, com que fustigou o rotativismo monárquico aqui utilizada de forma soberba para expor os defeitos da novel República.

No seu estilo inconfundível, com um domínio perfeito, completo e admirável da língua portuguesa, Ramalho Ortigão fustiga os novos governantes e as novas elites sociais.

Bibliotecário do Rei, Ramalho Ortigão, manteve-se sempre fiel à Casa de Bragança e a Monarquia.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

O Deus das Moscas

O Deus das Moscas por William Golding
Uma alegoria ao nascimento pecaminoso da civilização humana.

Um grupo de crianças sobrevive numa ilha deserta, plena de árvores de fruto e de água potável que asseguram a sobrevivência. Desde o inicio se assiste a uma luta, que rapidamente se transformará num confronto de “vida ou de morte” entre dois tipos de sociedade, protagonizados por dois rapazes.

De um lado um projecto de sociedade organizada, hierarquizada, capaz de controlar e proteger os seus elementos e de lhes fornecer alimento de qualidade superior (carne), de outro uma tentativa de estabelecer uma sociedade de caracter anarquista assente na igualdade dos seus membros, organizada em assembleias deliberativas mas em que as decisões apenas são implementadas voluntariamente e cada membro faz literalmente apenas o que a sua consciência lhe dita.

Inicialmente as crianças preferem o segundo tipo de sociedade que permite uma maior liberdade. Infelizmente a experiência é mal sucedida, crianças desaparecem, o fogo apaga-se, as cabanas são construídas apenas por alguns, a lixeira instala-se e o medo irrompe. Impõe-se então um segundo tipo de sociedade organizada, com estrutura piramidal, dotada de meios, muito violentos e sádicos, de coerção para disciplinar os elementos prevaricadores,

Este segundo tipo de sociedade, primeiro passo para a civilização, nasce marcada por um pecado original terrível – a exploração dos medos primitivos, a prática da violência e do assassinato. Impossivel não ver aqui uma alegoria ao comunismo primitivo depois substituido pelas primeiras formas de civilização humana, recheada de nostalgia e simpatia pelo primeiro estado, talvez o mais natural, do ser humano.

É impossível não simpatizar com Rafael líder natural que se impõe pelo bom senso e pela palavra e desprezar Jack pela sua sede poder, pela violência das suas acções, pela malvadez que lhe corrói o espirito. Mas é também impossível não ver o grau de ineficácia da sociedade desregulada e o passo em frente na organização social que a tribo representa em relação à simples coexistência.

O livro fornece ainda ilustração: i) das teorias das classes políticas que defendem que em todas as sociedades são as minorias organizadas que prevalecem sobre as maiorias desorganizadas impondo-lhes o seu domínio e ii) das formas como os símbolos e os mitos são criados e manipulados para legitimar o Poder.
Muito poderoso, deu um Prémio Nobel ao autor.

The Consequences of Modernity


The Consequences of Modernity por Anthony Giddens
A Confiança como elemento essencial da Modernidade. Afastando-se de Luhmann, Giddens introduz uma nova definição do coneito de Confiança e enquadra-a no processo de reembedding dos sistemas abstractos.
Um livro para Sociologos a que os leigos terão dificuldade a aceder.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Trust


Trust por Piotr Sztompka
O que é a Confiança? Que tipos de Confiança existem? De onde vem a Confiança? Que factores permitem desenvolver a Confiança? Para que serve a Confiança?
Piotr Sztompka, sociologo polaco responde de uma forma exaustiva e polémica a todas estas questões e avança com a sua própria teoria que ilustra com o caso da Polónia antes e depois da queda do regime comunista.
Um excelente compendio sobre este tema.

A insígnia vermelha da coragem



A insignia vermelha da coragem por Stephen Crane

No decurso de uma batalha Henry, um jovem camponês introspectivo, sofre uma mudança radical, as suas dúvidas e temores desaparecem, a sua precipitada fuga integrada e escondida, ademais com a sua actuação em combate reconhecida e elogiada ganha uma serenidade interior e uma maior auto-confiança própria de que quem foi testado e venceu.

O que Henry não percebe é que de um pacífico camponês foi transformado num guerreiro capaz de matar. Não percebe que essa não foi uma opção sua, mas fruto da substituição de valores que se operou e consolidou na sua mente.

No inicio da batalha os seus sólidos valores camponeses de amor ao próximo de auto-preservação de proximidade e união com a natureza estão em conflito com os novos valores militares (dever para com os colegas, coragem, matar sem remorso) ainda inculcados de fresco, mas já indelevelmente gravados no seu espírito. Assim perante o perigo iminente foge como faria qualquer camponês no seu lugar.

A visão dos mortos e da beleza e tranquilidade do cenário amarram-no aos seus valores campesinos o contacto com os feridos, perante quem se tem de justificar à luz de deveres militares, empurram-no para os novos valores. Por um longo momento hesita.

Uma providencial pancada na cabeça obriga-o a juntar-se aos seus camaradas de armas o que o leva finalmente à assumpção plena dos valores guerreiros. Operada esta substituição, o seu conflito interior extingue-se e está pronto para ser o herói do seu Regimento.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Conversas com Saramago


Conversas com Saramago por José Carlos Vasconcelos
Entrevistas conduzidas por José Carlos Vasconcelos a José Saramago 5 por ocasião do lançamento de livros - História do cerco de Lisboa, O evangelho segundo Jesus Cristo, Ensaio sobre a Lucidez, As intermitências da morte, As pequenas memórias - e uma de carácter geral. Abrange um periodo que começa em 1989 e se prolonga até 2006.
Saramago no seu melhor, directo, claro, defendendo ideias e ideais, clarificando episódios, propondo soluções. Sempre polémico, sempre fascinado pela religião, sempre crítico das injustiças da sociedade actual.
Um livro que ajuda a perceber o mundo em que se movia José Saramago.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Contos


Contos (Volume I) de Anton Tchékhov
Contos realistas, humanos e tristes. Mais do que uma história inverosimel, um enredo intrigante, uma trama complexa ou um final surpreendente, Tchekhov escolhe pequenos fragementos do quotidiano, minusculos retratos, mas singelos e ricos de detalhe, de situações, personagens e sentimentos.
Solidão angustiante, esperanças quebradas, tentações inescapáveis, amizades traídas o desconforto da pobreza, o frio do Inverno num país distante, afinal aqui tão perto.


A Linha da Beleza




A Linha da Beleza de Alan Hollinghurst



Um convidado ou um hospede é sempre um intruso, un estranho que nem o tempo nem a atenção e simpatia podem integrar plenamente no lar de acolhimento e em momentos de crise será sempre o bode expiatório conveniente e prontamente sacrificado sem pena nem remorsos.


Nick torna-se de forma que roça o intensional, de multiplas maneiras e para várias pessoas, um estranho. Aceita ir viver com uma família aristocrática sendo plebeu, esconde dos pais a sua homosexualidade, trai a sua relação amorosa com encontros anónimos, cala segredos que seria melhor desvendar. Mas mas também é positivavente um estranho na medida em que desconhece as regras, duras e selvagens, do mundo social em que se move. Confiantemente avança para o abismo. E cai.


Em pano de fundo a Inglaterra da era de Tatcher em que a classe possidente reganha o controlo total da economia e do poder político.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

o remorso de baltazar serapião


o remorso de baltazar serapião por valter hugo mãe
O homem animalesco, sem comando sobre a sua natureza, sem força de vontade, sem chispa de moral, o homem hobbesiano, só egoísmo, só desejo, só bestialidade, só agressividade, só medo, só superstição, personificação simultânea da maldade e da cobardia nunca existiu - leiam-se os antropólogos, estude-se História, visite-se o mundo. Não pode ser, pois, o retracto do servo medieval nem, muito menos, da sociedade portuguesa da época. Baltasar Serapião nunca existiu – a não ser no sentido que Gustave Flaubert deu à sua famosa frase “Emma Bovary c´est moi”.

O livro é uma longa descrição acéfala, acrílica e misógina, escrita na primeira pessoa, de crueldades recebidas e infligidas, de deboche, de bestialismo, de superstição, de traição e de assassínio. Sem uma reflexão, sem um contexto, sem nada ... porque simplesmente o mundo é/era supostamente assim.

Que qualifica este livro para Prémio Literário? O facto de omitir a letra grande? Depois de tanto e tão interessante experimentalismo com o grafismo e a com a gramática na Literatura essa seria diminuta razão. O facto de não haver melhor?

Por vezes ao atribuir um prémio a obra menor ou sem valor arruina-se o próprio galardão e desprestigiam-se os jurados que o decidiram. É, infelizmente, o caso. valter hugo mãe não o merecia.


A maldição dos Trinta Denários – tomo 2


A maldição dos Trinta Denários – tomo 2 por Jean van Hamme e Antoine Aubin

Judas traiu Jesus por trinta moedas. Eram essas moedas denários como alguns defendem ou siclos como outros mantêm? Algures na Grécia um jovem pastor acaba de resolver o mistério ao encontrar um antigo refúgio de cristãos contemporâneos de Judas. Mas onde está Judas enterrado com as restantes moedas? Será verdade que estas conferem um poder sobrenatural?


Segunda parte (a primeira parte foi publicada faz este mês precisamente um ano) desta saga que está muito longe das aventuras de Black e Mortimer assinadas por Edgar P. Jacobs. Algumas soluções à Indiana Jones estão velhas e gastas.

Blake e Mortimer são aqui descaracterizados e actualizados. Uma mulher como co-heroína seria impensável. Que Mortimer a corteje ainda mais.

Quando morre o criador de banda desenhada devia ser proibido que outros continuem a publicar histórias com os seus heróis.