quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Como ganhar eleições



Como ganhar eleições de Quinto Túlio Cícero


Quando o irmão Marco Túlio Cícero decidiu concorrer a cônsul, Quinto escreveu-lhe uma carta, que é um pequeno manual cheio de utilidade para os políticos cínicos de hoje, com conselhos sobre como organizar e ganhar a campanha eleitoral.

Há mais de 2.000 anos, corria então o ano de 64 antes de Cristo, no tempo em que Roma era uma democracia governada por dois cônsules eleitos pelos cidadãos por um período de um ano, as eleições eram dominadas pela classe dos nobres que pontificavam no Senado. Marco Túlio Cícero não era nobre mas um formidável orador e homem de leis e concorria contra dois nobres.

Os conselhos, cheios de pragmatismo, mas também eivados dum cinismo grande, são variados e incluem pérolas como o ataque ao carácter dos adversários, listando os seus pecados e acções passadas, o garantir do apoio de um núcleo coeso constituído pela família e os amigos, o obter apoios entre “uma ampla variedade de meios sociais”, mas acima de tudo “Há três coisas, que podem garantir votos numa eleição: favores, esperança e relação pessoal. Tens de te esforçar por dar estes incentivos às pessoas certas”.

Indispensável para quem queira fazer política, quer para quiser seguir estes conselhos quer para quem os não pretenda seguir mas para os melhor identificar nos adversários.

sábado, 7 de novembro de 2015

Bomarzo



Bomarzo de Manuel Mujica Lainez

Um livro que é um monumento, uma obra-prima que nos transporta para a Renascença italiana, e em que vemos erguer-se, com grande realismo, maiores que a vida, os grandes nomes desta era, os artistas como escultor e ourives Benvenuto Cellini, Miguel Angelo Buonarotti que pintou a capela sistina no Vaticano, os pintores Lorenzo Lottoos, Ticiano, os cabalistas, os magos, os escritores Ariosto, Graciliano, os clássicos como Vergílio e também Cervantes, os Papas Leão X, Clemente VII, Paulo III, Júlio III, Marcelo II, Paulo IV, Pio V e Gregorio Xiii, os Reis e Imperadores, Carlos V, Filipe II de Espanha que foi primeiro de Portugal, os membros mais famosos das famílias mais influentes, os Orsini, os Borgia, os Médicis, os Farnese, os chefes militares, os corajosos condottiero, as cidades esplendorosas de Veneza, Florença e Roma, as guerras e as batalhas, a Arte e a Vida.  

A vida romanceada de Pier Francesco Orsini, Duque de Bomarzo, um retrato psicológico profundo de um nobre do século XVI que foi um homem da sua época; um trauma de nascimento, a violência sem limites, o crime que compensa, a paixão desenfreada, o orgulho desmedido, a força brutal, a superstição fúnebre, o requinte artístico, a perseverança, um sonho de imortalidade, uma obra singular, um arrependimento místico no crepúsculo da vida e uma surpresa desagradável no final.

Um livro de culto que tem levado muitos a visitar o Sacro Bosque de Bomarzo para ver os Monstros esculpidos na rocha o projecto fantástico de Pier Francesco.

Portugal surge a espaços nesta obra. A chegada a Roma da delegação que o Rei D. Manuel I enviou ao Papa e que incluía o elefante Hanno é descrita de forma admirável. Uma passagem dessa cena: “Abul obteve a sua compensação plena quando se apresentou diante de Leão X, sentado nos calcanhares, quase nu em cima da cabeçorra oscilante de Hanno, no centro da comitiva que desdobrava o seu fausto na ponte de Castel Sant’Angelo, e que sua Santidade contemplava, extasiado, através do monóculo, da eminência do castelo, porque constituía o espectáculo mais fabuloso que se havia oferecido aos seus olhos de pesquisador de beleza”.



Um livro extraordinário. Uma das grandes obras literárias do século XX. Indispensável.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Man, the State and War



Man, the State and War de Kenneth N. Waltz

Kenneth N. Waltz é o grande pensador americano da escola realista de relações internacionais do pós segunda guerra. Este livro, um clássico, procura responder à magna questão de quais são as causas da guerra e como podemos evitá-la.

Waltz diz-nos que podemos identificar três correntes de pensamento sobre as causas da guerra, a primeira centrada no ser humano, nos seus defeitos, na sua acção irracional, apaixonada e agressiva, a segunda na natureza dos Estados, mal estruturados e representando interesses de grupos específicos e não os da sociedade como um todo e uma terceira corrente que se centra na estrutura do sistema internacional e no frágil equilíbrio de poderes entre os vários Estados.

Waltz descarta a primeira hipótese com argumentos sólidos e com bom senso, referindo que se a causa está no ser humano então seria necessário mudá-lo o que parece tarefa impossível. A demais seria preciso que todos mudassem simultaneamente caso contrario os mais pacíficos seriam de imediato conquistados pelos ainda belicosos.

Também descarta a segunda hipótese, que identifica com Kant e a sua obra “A Paz Perpétua” e com os autores marxistas, uma vez que mesmo um Estado perfeito, actuando para o bem dos seus cidadão, pode pela sua acção levar outros a atacá-lo sendo assim uma causa de guerra.

Por último sustenta que a causa da guerra reside no sistema internacional, um sistema anárquico, em que não existe autoridade para dirimir conflitos, em que impera a Lei do mais forte. Aqui, segundo Waltz radica a causa da guerra e para ela não há cura, apenas um Governo Mundial a poderia solucionar, mas com um preço superior ao da guerra. Uma cura imperfeita é a constante procura do equilíbrio de poderes que impeça qualquer Estado de iniciar uma guerra devido à certeza de ser derrotado. Mas, admite, a procura do equilíbrio de poder pode levar também ela à guerra. Trata-se, então, não de uma cura, mas de um paliativo que pode dilatar o espaço inter guerras.

Waltz tem razão ao identificar a estrutura do sistema internacional como a maior fonte de guerras (por exemplo o colonialismo levou às guerras pela dependência, primeiro nas Américas e depois na Ásia e na África), mas a natureza dos Estados é que molda o sistema internacional – lembremos que por exemplo na Europa nunca ouve qualquer guerra entre os estados socialistas enquanto estes existiram e logo que estes desapareceram assistimos a um conjunto de guerras no seu interior (Jugoslávia, Sérvia, Ucrânia, etc.).

Um excelente livro que deve ser lido, como sempre, de modo crítico.
 

terça-feira, 27 de outubro de 2015

O Papiro de César



Astérix, O Papiro de César

O segundo álbum de aventuras de Astérix e Obélix sem a assinatura de nenhum dos seus criadores originais, o genial René Gosciny e o talentoso Uderzo, sendo agora da total responsabilidade, tal como o anterior Astérix e os Pictos, da dupla Didier Conrad (desenhador) e Jean-Yves Ferri (argumentista).

Continua a vergonhosa tradução dos nomes do bardo (Assurancetourix agora transvestido em Cacofonix) e do chefe da aldeia (Abraracourcix redenominado Matasétix) na versão portuguesa, quebrando uma longa tradição de manutenção dos nomes originais. Continuamos a não ver qual o ganho desta opção.

Este é um álbum sobre a origem da saga Asterix sob os seus autores iniciais. Júlio César escreve o seu livro magno sobre a Conquista da Gália, mas a instâncias de um conselheiro oportunista decide omitir o capítulo sobre a impossibilidade de conquistar a pequena aldeia chefiada por Abraracourcix. Mas será que conseguirá silenciar os seus desaires?

Uma história interessante, actual, bem-humorada e de dupla leitura mas que nos recorda com insistência e nostalgia não ter a autoria da dupla Gosciny-Uderzo.