sábado, 2 de janeiro de 2016

Sete Breves Lições de Física

Sete Breves Lições de Física por Carlo Rovelli



Carlo Rovelli o grande físico italiano proponente, em conjunto com Lee Smolin e Abhay Ashtekar, da teoria da gravidade quântica enlaçada revela neste livro uma notável capacidade de síntese, de muito dizer em poucas, mas significativas, palavras e de nos emocionar e empolgar.

A primeira lição é sobre Einstein e a teoria da relatividade que descreve da seguinte forma ”E eis que surge a ideia extraordinária, o puro génio: o campo gravitacional não está difundido pelo espaço: o campo gravitacional é o espaço. É esta a ideia da teoria da relatividade geral”.

Daqui resulta que o espaço é “Uma entidade que ondula, que se dobra, que se curva, que se torce” e que “O Sol dobra o espaço à sua volta e a Terra não gira à sua volta por ser puxada por uma força misteriosa, mas porque está a deslizar a direito num espaço que se inclina. Como uma bolinha a rodar num funil”.

A segunda lição é sobre a mecânica quântica que traz a estatística para o coração da física e se ergue como visão alternativa à da teoria da relatividade.

A terceira lição é sobre a arquitetura do cosmos, uma viagem pela imagética científica de como o ser humano vê o universo em que habita, primeiro apenas como a terra e o céu, depois a terra rodeada de céu, seguida da terra no centro e o sol, as estrelas e os planetas a rodar em seu torno, mais tarde o sol substituindo a terra no centro do universo e hoje sabemos que o sistema solar é apenas um de uma galáxia perdida entre milhões de outras galáxias. Uma frase “O universo nasce como uma pequena bola e depois explode até às suas atuais dimensões cósmicas.

A quarta lição é sobre as partículas que compõem tudo o que existe, os neutrões, os protões, os gluões e outros que tais.
A quinta é sobre os grãos do espaço e sobre como conciliar, ou ultrapassar as duas teorias rivais que propõem visões diferentes sobre o espaço e o tempo. É aqui que entra a contribuição de Carlo Rovelli e a sua teoria da gravidade quântica enlaçada (loops) “A previsão central da teoria dos loops é, portanto que o espaço não seja continuo, não seja divisível até ao infinito, mas seja formado por grãos, ou seja por “átomos de espaço”. Esses átomos são minusculíssimos”.

A sexta lição é sobre o tempo e a termodinâmica. Uma constatação “A diferença entre passado e futuro só existe quando há calor” e o calor vai das coisas quentes para a frias.

A última lição, a mais poética, é sobre o ser humano. Uma previsão “Julgo que a nossa espécie não durará muito tempo. Não parece ter o estofo das tartarugas, que continuaram a existir semelhantes a si mesmas ao longo de centenas de milhões de anos, centenas de vezes mais do que a nossa existência. Pertencemos a um género de vida breve. Os nossos primos se extinguiram todos. E nós causamos estragos”.


Um livro admirável que nos faz querer saber mais sobre o universo, sobre nós, sobre o mundo que nos rodeia. A frase final “Aqui, na margem daquilo que sabemos, em contacto com o oceano do que não sabemos, brilham o mistério do mundo, a beleza do mundo, que nos deixam sem respiração”. Mesmo para nós que estamos muito longe dessa fronteira.

sábado, 19 de dezembro de 2015

Monte dos Vendavais



Monte dos Vendavais por Emily Brontë

Um amor louco que se inicia numa infância partilhada, que cresce em plena natureza agreste numa adolescência selvagem, que encontra um obstáculo sério e descamba por um mal-entendido mas que só se esgota e extingue com a morte. Ódios entranhados profundamente num espírito determinado e saciados com crueldade demoníaca numa vingança que não satisfaz nem sossega.

Um duelo de vontades que esgota os contendores e os leva, do mais fraco ao mais forte, à sepultura ainda que no fim sobrevivam os mais inocentes.

Personagens fascinantes, movendo-se num cenário limitado geograficamente, alargado no tempo e psicologicamente concentracionário, sob um céu cinzento, ventoso e ululante, algures em Inglaterra, sofrem e fazem sofrer.

Curiosa a forma como a história nos é contada através de um duplo narrador, ou melhor de um narrador que escreve fielmente, quase diríamos palavra por palavra, o que ouviu da boca da testemunha principal do drama.



Emily Brontë só escreveu um romance mas escreveu uma obra-prima da Literatura mundial. Indispensável.

sábado, 5 de dezembro de 2015

Se isto é um Homem

Se isto é um Homem de Primo Levi

Um livro escrito, logo após a sua libertação do campo de concentração (Lager) de Buna, integrante do complexo de Auschwitz e Birkenau, pelo Exercito Vermelho e o consequente regresso a sua casa em Turim, na Itália, a quente, com as memórias frescas, com o horror bem presente, com os olhos ainda molhados pelos amigos, compatriotas e judeus de outras nacionalidades barbaramente mortos pelos alemães nos campos de extermínio.

Preso na Itália, Primo Levy conta-nos como foi deportado para o campo da morte onde logo à chegada a maioria foi assassinada pelos alemães (“sabemos que nos campos, respectivamente de Buna-Monowitz e Birkenau, só entraram, do nosso comboio, noventa e seis homens e vinte e nove mulheres e que todos os outros, num total de quinhentos, nem um se encontrava vivo dois dias depois”).

A forma iníqua como os alemães conseguiram, através da descaracterização pessoal, da marcação com números eliminando nomes, da fome, do frio (“Da mesma forma com que se vê acabar uma esperança, assim hoje de manhã chegou o Inverno” “Significa que, ao longo destes meses, entre Outubro e Abril, em cada dez de nós, sete irão morrer”), do excesso de trabalho, dos castigos corporais constantes, das selecções frequentes para as câmaras de gás, desumanizar os presos nos campos de concentração e morte e levá-los a uma existência centrada na simples luta pela sobrevivência muitas vezes sem qualquer esperança (“Sabem como se diz «nunca» na gíria do campo? «Morgen Fruh», amanhã de manhã”).

Mas mesmo nestas condições extremas pôde florescer a amizade, a resistência e a entreajuda entre as pessoas.

Um dos melhores livros do século XX.


domingo, 29 de novembro de 2015

Psicologia do Dinheiro



Psicologia do Dinheiro por Georg Simmel

Georg Simmel foi um imaginativo sociólogo alemão, de origem judaica, do final do século XIX princípios do século XX e conjuntamente com Karl Marx, Max Webber e Émile Durkheim como um dos pais da Sociologia.

Reunidos neste livro estão quatro palestras proferidas por Simmel sobre o dinheiro: i) Psicologia do Dinheiro, ii) O dinheiro na cultura moderna, iii) Sobre a Avareza, o esbanjamento e a Pobreza e por ultimo As grandes cidades e a vida do espírito.

O primeiro texto analisa o fenómeno psicológico de transformação de simples meios em fins em si mesmos. Partindo da ideia de que “Diagnostico os meios para um fim quando identifico as causas que o determinam” Simmel concluiu que o dinheiro é um simples meio de que os seres humanos se servem para atingir os seus fins, i.e. obterem os produtos e serviços de que necessitam. Contudo certas pessoas, esquecendo o fim último do dinheiro, fazem da sua acumulação um fim em si mesmo, renunciando, mesmo, a trocá-lo por bens. Esta é a curiosa base de todo um raciocínio muito subtil e elucidativo.

O dinheiro, segundo Simmel tende a ocupar o lugar de Deus nas sociedades capitalistas de tal forma é a sua força de nivelamento de todas as coisas – tudo, ou quase, se pode converter em dinheiro, desde o trabalho a qualquer objecto – e tornando-se o ponto de confluência de tudo. “O pensamento de Deus tem a sua essência mais profunda no facto de que toda a multiplicidade do mundo chega nele à unidade, de que ele é, segundo a bela expressão de Nicolau de Cusa, a coincidentia oppositorum… a sua semelhança com a representação do dinheiro é clara”.

Outros argumentarão, com razão, que Simmel não percebeu que o dinheiro há muito que não é um mero meio de troca, mas se transformou em capital, cuja acumulação é a base de funcionamento do sistema económico actual.

Apesar desta falha estrutural o pensamento de Simmel não deixa de nos surpreender com a sua minúcia, poder de observação, de lógica, de síntese e de perspicácia. Imprescindível.