sexta-feira, 27 de março de 2026

Transparência na Vida Pública


 

Transparência na Vida Pública por Susana Coroado

 

Portugal é um país em que a corrupção campeia. A perceção dos portugueses coloca-nos abaixo de alguns países africanos, asiáticos e latino-americano e longe da generalidade dos países europeus. No combate à fraude, ao compadrio, ao nepotismo, ao esbanjamento e apropriação dos fundos públicos a transparência é uma peça essencial.

 

Mas a transparência só funciona no seio de um ecossistema de integridade que integre a responsabilização e a punição dos culpados. A transparência sem esse ecossistema de investigação e das consequências judiciais apropriadas, pode funcionar como uma forma de desculpabilização e de branqueamento do crime (quase uma autorização para roubar às claras) que ainda desacredita mais o sistema político e administrativo do país.

 

Vemos então que a transparência não é uma panaceia universal, que sem outras componentes pode tornar-se contraproducente. Noutras circunstâncias, defesa nacional, concursos em curso, etc., a excessiva transparência pode ser muito prejudicial.

 

Há, então, que usar a transparência, permitindo um controlo cidadão das atividades político-administrativas, sempre acompanhada de um sistema de integridade pública que investigue e puna os infratores.

 

Um excelente livro que nos dá a verdadeira dimensão e eficácia da transparência e nos alerta para as suas limitações e perigos.

 

Susana Coroado é uma das mais brilhantes investigadoras portuguesas nesta área do conhecimento.

Foi o Preto


 

Foi o Preto

 

O racismo profundo, entranhado na sociedade portuguesa, aprendido nos bancos da escola do antigamente, reforçado no serviço militar em África, passado às gerações mais novas pela família, pelos manuais escolares, pelas aulas que normalizam a escravização de pessoas, pela apresentação nos meios de comunicação social do outro como atrasado e inferior, expressa-se diária e vingativamente de múltiplas formas de violência e discriminação. O insulto soez, a vil segregação habitacional, o ilegal bloqueio ao acesso à educação, à saúde, estão presentes no quotidiano dos portugueses Negros.

 

A acusação mentirosa sempre na língua dos racistas e dos xenófobos, atribui a outros as suas próprias ações criminosas – “Foi o Preto” repetem e enchem as prisões do nosso país de Negros, uma anomalia sem explicação, ou antes com elucidação óbvia, em país de maioria “branca”.

 

Este é um comovente romance realista sobre o sofrimento de uma família Negra causado por uma denúncia impostora movida apenas pelo racismo mais rasteiro e entranhado, mas também por todo um sistema judiciário kafkiano que insiste em levar a julgamento quem sabe ser inocente apenas para o manter preso por mais tempo.

 

Ângelo Delgado (n.1981) é um talentoso jornalista e escritor português.

quinta-feira, 12 de março de 2026

Os Outros

Os Outros de Silvina Madalena

 

Uma singela coleção de memórias breves dos tempos difíceis quando a ditadura em Portugal prendia e os homens eram arrancados das suas famílias deixando para trás filhos menores cujo crescimento só podiam acompanhar através das redes dos parlatórios das cadeias. Memórias de pequenas histórias, acontecimentos e detalhes, aparentemente, impercetíveis mas, quando vistos com a lupa da distância e do coração, muito significativos.

 

A resistência ao fascismo fez-se de incontáveis sacrifícios de muitos anónimos militantes e ativistas que nas fábricas, nos campos e nas cidades, fruto de anos passados na clandestinidade, nas prisões, tecida de dores, privações e torturas e de muita solidariedade, de muita união.

 

A personagem que dá corpo a estas recordações ainda frequentava a escola primária quando o pai foi levado pela polícia política. Imaginemos o trauma das crianças levadas a ver os pais nas mais infames masmorras, obrigadas a crescer sem um, às vezes os dois, progenitores, apontadas a dedo pelo padre local, ostracizadas nas escolas.

 

A voz de tantos anónimos que se sacrificaram pelas gerações futuras.

 

Silvina Madalena “Nasceu em Beja e cresceu na Marinha Grande”. É licenciada em Direito.