sexta-feira, 22 de maio de 2026

O Pregador


O Pregador por Erskine Caldwell

 

Uma obra-prima do realismo americano, um retrato impiedoso da América rural, ignorante, violenta, racista e simultaneamente ingénua e crédula. A ação desenrola-se no Estado da Geórgia, numa região isolada de pequenas quintas dispersas.

 

O desprezo pelos filhos, os casamentos precoces, os efeitos do abuso do álcool, a violência sobre as Mulheres, a violação e o assassinato dos Negros, o vício do jogo, a miséria moral e material, a reverência às autoridades, temas apresentados, de forma direta, sem figuras de estilo, através de um enredo que gira em torno da chegada, breve estadia e partida de um estranho pregador.

 

O transe da multidão apinhada na escola, induzido por um pregador itinerante, revela-nos a psicologia dos camponeses do Sul dos Estados Unidos no início do século XX e revela-nos a estrutura social desses campos – os donos pobres mas preguiçosos, os Negros que trabalham por quase nada, aterrorizados pela violência gratuita dos patrões, o papel dos Bancos que, através de hipotecas, se vão apoderando das terras, a atração das cidades sobre as populações rurais que atraídas por ilusões acabam na prostituição.

 

Erskine Calwell (1903-1987), foi um escritor norte-americano. Pelas suas ideias progressistas foi perseguido no seu país.

 

 

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Olga salva o Mundo


 

Olga salva o Mundo de Rui Zink

 

A sociedade atual em todo o seu esplendor e loucura. Os super-ricos agindo para lá do bem e do mal, pairando acima da Lei do vulgo, experimentando algoritmos, testando hipóteses em cobaias humanas, estudando comportamentos extremos, apropriando-se de tudo e todos, são os novos predadores borgianos como lhes chamou Giuliano da Empoli, observadores e exploradores dedicados do lado mais obscuro da Natureza Humana, indutores dos piores crimes.

 

Num estilo caricatural, suave, irónico, rápido e agradável o autor guia-nos com fina subtileza através de um enredo que nos reserva algumas surpresas, muitas piscadelas de olho à cultura e à filosofia contemporâneas, e um final verdadeiramente orbital. E se tudo parece exagerado e impossível, se não reconhecemos imediatamente os factos como verosímeis é porque os nossos olhos estão fechados para a realidade e a nossa mente toldada pela propaganda como na fábula de Sócrates, o grego, escrita por Platão. Um livro magnífico. Um tratado sobre a manipulação e a arte de manipular os manipuladores.

 

Rui Zink (n. 1961), professor universitário e escritor português, tem uma vasta e muito interessante obra multifacetada nos campos da ficção, banda desenhada, no teatro, na ópera e em muitas outras áreas. Um dos melhores escritores de língua portuguesa dos nossos dias. O seu trabalho não foi ainda plenamente reconhecido pela comunidade Literária e pela Academia, porventura pelo seu modo burlesco e humorístico de falar de temas sérios.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

A Orgia de Praga


 

A Orgia de Praga de Philip Roth

 

Um livro datado, escrito na fase final da guerra fria e como arma desse conflito que opôs os Estados Unidos e a União Soviética. A arte ao serviço da propaganda e da guerra. Uma história passada em Praga, na então Checoslováquia um país do bloco socialista, que procura apresentar esse pequeno país como uma ditadura policial, e o seu povo como pessoas sem princípios e sem espinha dorsal, capazes de se rebaixarem a apoiar todos os líderes estrangeiros que tenham força.

 

A trama é simples: um escritor famoso americano visita Praga para tentar trazer para o seu país um manuscrito de um conjunto de contos escritos em ídiche pelo pai de uma pessoa que o visitou em Nova Iorque. Num ambiente surreal em que todos se espiam mutuamente, em que a intelligentsia se submete resmungona a um regime que odeia, em que a ação decorre em espaços fechados que poderiam ser em qualquer lugar, o escritor procura em vão desviar ilegalmente o trabalho de um judeu há muito atropelado numa rua da cidade.

   

Um livro excessivamente panfletário, em que a Literatura se transforma numa caricatura sem valor.

 

Philip Roth (1933-2018), romancista judeu americano, colocou a sua pena ao serviço da propaganda política caindo muitas vezes na simplificação e na mentira.