domingo, 31 de maio de 2026

A Montanha da Água Lilás

A Montanha da Água Lilás por Pepetela

 

Uma fábula moralista do tempo em que os animais falavam ou em que os humanos entendiam as suas vozes que nos alerta para a aparente atratividade inicial de certos caminhos mas que, no final, nos conduzem à escravização e à privação completa da identidade.

 

Os lupis, os lupões e os jacalupis, viviam livres, seguros e felizes na sua montanha, comendo frutas e criando poesia. Até ao dia em que descobriram a água lilás com as suas propriedades maravilhosas. Começa nesse ponto a história da sua perdição.

 

A água lilás, no contexto angolano do autor, é uma metáfora muito evidente para o petróleo que jorra no país e que lhe trás uma riqueza aparente sem necessidade de trabalho. Uma fábula sobre o que em economia de chama a “Doença Holandesa”.

 

Dirigido a crianças e adultos o texto, organizado em 16 pequenos quadros, flui em bom ritmo e num tom agradável, é acompanhado por desenhos ilustrativos.

 

Pepetela (n. 1941) é um escritor e político angolano. Durante a luta de libertação nacional foi guerrilheiro combatendo o exército colonial português. Depois da independência ocupou diversos cargos, nomeadamente o de Vice Ministro da Educação.


 

sexta-feira, 22 de maio de 2026

O Pregador


O Pregador por Erskine Caldwell

 

Uma obra-prima do realismo americano, um retrato impiedoso da América rural, ignorante, violenta, racista e simultaneamente ingénua e crédula. A ação desenrola-se no Estado da Geórgia, numa região isolada de pequenas quintas dispersas.

 

O desprezo pelos filhos, os casamentos precoces, os efeitos do abuso do álcool, a violência sobre as Mulheres, a violação e o assassinato dos Negros, o vício do jogo, a miséria moral e material, a reverência às autoridades, temas apresentados, de forma direta, sem figuras de estilo, através de um enredo que gira em torno da chegada, breve estadia e partida de um estranho pregador.

 

O transe da multidão apinhada na escola, induzido por um pregador itinerante, revela-nos a psicologia dos camponeses do Sul dos Estados Unidos no início do século XX e revela-nos a estrutura social desses campos – os donos pobres mas preguiçosos, os Negros que trabalham por quase nada, aterrorizados pela violência gratuita dos patrões, o papel dos Bancos que, através de hipotecas, se vão apoderando das terras, a atração das cidades sobre as populações rurais que atraídas por ilusões acabam na prostituição.

 

Erskine Calwell (1903-1987), foi um escritor norte-americano. Pelas suas ideias progressistas foi perseguido no seu país.

 

 

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Olga salva o Mundo


 

Olga salva o Mundo de Rui Zink

 

A sociedade atual em todo o seu esplendor e loucura. Os super-ricos agindo para lá do bem e do mal, pairando acima da Lei do vulgo, experimentando algoritmos, testando hipóteses em cobaias humanas, estudando comportamentos extremos, apropriando-se de tudo e todos, são os novos predadores borgianos como lhes chamou Giuliano da Empoli, observadores e exploradores dedicados do lado mais obscuro da Natureza Humana, indutores dos piores crimes.

 

Num estilo caricatural, suave, irónico, rápido e agradável o autor guia-nos com fina subtileza através de um enredo que nos reserva algumas surpresas, muitas piscadelas de olho à cultura e à filosofia contemporâneas, e um final verdadeiramente orbital. E se tudo parece exagerado e impossível, se não reconhecemos imediatamente os factos como verosímeis é porque os nossos olhos estão fechados para a realidade e a nossa mente toldada pela propaganda como na fábula de Sócrates, o grego, escrita por Platão. Um livro magnífico. Um tratado sobre a manipulação e a arte de manipular os manipuladores.

 

Rui Zink (n. 1961), professor universitário e escritor português, tem uma vasta e muito interessante obra multifacetada nos campos da ficção, banda desenhada, no teatro, na ópera e em muitas outras áreas. Um dos melhores escritores de língua portuguesa dos nossos dias. O seu trabalho não foi ainda plenamente reconhecido pela comunidade Literária e pela Academia, porventura pelo seu modo burlesco e humorístico de falar de temas sérios.