quinta-feira, 2 de julho de 2026

Assim nasceu uma Língua

Assim nasceu uma Língua de Fernando Venâncio

 

Na Galiza, muito antes da chegada dos cavaleiros franceses D. Henrique e D. Raimundo, falava-se uma língua descendente do latim, que se formou a partir de uma particularidade singular a queda das letras/sons n e l intervocálicos. Este fenómeno único permitiu separar o galego das outras línguas de origem latina. Quando D. Afonso Henriques tomou o poder e reclamou a independência face ao Reino da Galiza a língua corrente era o galego e assim permaneceu durante séculos. A palavra” português” para designar uma língua só surge no século XV. Eis, por terra, a absurda teoria de que quando Portugal nasceu, nasceu com ele o português, como se uma língua se pudesse formar de um momento para o seguinte.

 

Mas, obviamente, hoje Português e Galego são línguas afins mas distintas. No decurso dos séculos ambas evoluíram, o português integrou muitos espanholismos que devolveram o n e l intervocálico em muitas palavras, depois galicismos e atualmente inglesismos. Com o Galego aconteceu o mesmo, separando-se lenta nas inexoravelmente das duas línguas, apesar de alguns galegos insistirem em reintroduzir, palavra completamente desadequada, o português como língua da Galiza.

 

Um livro muito interessante que todos devíamos ler, sobre a nossa língua, as nossas raízes e sobre a formação do nosso idioma.

 

Fernando Venâncio (1944-2025), português, linguista, foi professor universitário na Holanda, em Nijmegen e em Utreque. Autor de vasta obra sobre a língua portuguesa.


 

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Conversas sobre Deus - Um Diálogo com Simone Weil

 

Conversas sobre Deus - Um Diálogo com Simone Weil por Byung-Chul Han

 

Simone Weil (1909-1943), mística católica, nada a ver com a política francesa do mesmo nome, deixou-nos uma obra breve mas de uma profundidade e atualidade surpreendentes. Byung-Chul Han partindo das ideias de Weil reflete sobre a sociedade contemporânea, a sociedade do digital, da inteligência artificial, do instantâneo e do absorvente.

 

Alguns temas focados são o da atenção ao outro e ao mundo que se está a perder na voragem dos estímulos viciantes e contínuos, da produção material e da busca da eficácia. Essa atenção que gera a compreensão, a novidade, o encontro humano com a Natureza e a Beleza e a Arte. A atenção exige tempo vazio e silêncio e estes, hoje, está completamente preenchido por um barulho contínuo.

 

Aqui ficam algumas frases para pensar “O smartphone é a máquina digital do vício”, “não se pode estar atento ao que muda”, “o verdadeiro é o duradoiro”,  “Hoje em dia, estamos constantemente distraídos. Saltamos, ou melhor, cambaleamos de uma informação para outra, de um estímulo para outro”, “A sociedade torna-se brutal quando perde a atenção ao outro”, “O silêncio é a parteira do novo”.

 

Byung-Chul Han (n. 1959), coreano, é um dos mais proeminentes filósofos dos nossos dias.


quinta-feira, 18 de junho de 2026

Cinema e história: aventuras narrativas


 

Cinema e História – aventuras narrativas por João Lopes

 

O crítico João Lopes aborda o tema da relação do cinema com a História, através de um conjunto alargado de filmes que vão das películas realizadas pelos pioneiros irmãos Lumière até aos nossos dias. Um relacionamento difícil e, muitas vezes, ilusório porque a História não se deixa fixar nas imagens e pode sempre ser vista através de diferentes ângulos e abordagens. E se é verdade que uma imagem vale por mil palavras também o é o facto de uma imagem suscitar mil interpretações.

 

O texto, organizado em seis capítulos afasta-se da estrutura clássica do ensaio, e flui em muitas direções, deixando-se levar pelas impressões e reflexões sobre filmes de referência que abordaram temas históricos. Um capítulo dedicado a Manuel de Oliveira o longevo e controverso realizador português que argumentava que o “cinema não existe” porque apenas “fixa o teatro”, e outro, mais pequeno, à televisão trazem outras artes visuais para o debate da relação das imagens produzidas com a História.

 

João Lopes (n. 1954), crítico de cinema, realizador, Professor da Escola Superior de Teatro e Cinema, tem um longo percurso ligado ao estudo e divulgação do cinema.