Mostrar mensagens com a etiqueta fascismo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta fascismo. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 12 de março de 2026

Os Outros

Os Outros de Silvina Madalena

 

Uma singela coleção de memórias breves dos tempos difíceis quando a ditadura em Portugal prendia e os homens eram arrancados das suas famílias deixando para trás filhos menores cujo crescimento só podiam acompanhar através das redes dos parlatórios das cadeias. Memórias de pequenas histórias, acontecimentos e detalhes, aparentemente, impercetíveis mas, quando vistos com a lupa da distância e do coração, muito significativos.

 

A resistência ao fascismo fez-se de incontáveis sacrifícios de muitos anónimos militantes e ativistas que nas fábricas, nos campos e nas cidades, fruto de anos passados na clandestinidade, nas prisões, tecida de dores, privações e torturas e de muita solidariedade, de muita união.

 

A personagem que dá corpo a estas recordações ainda frequentava a escola primária quando o pai foi levado pela polícia política. Imaginemos o trauma das crianças levadas a ver os pais nas mais infames masmorras, obrigadas a crescer sem um, às vezes os dois, progenitores, apontadas a dedo pelo padre local, ostracizadas nas escolas.

 

A voz de tantos anónimos que se sacrificaram pelas gerações futuras.

 

Silvina Madalena “Nasceu em Beja e cresceu na Marinha Grande”. É licenciada em Direito.


 

sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Kallocaína


 

Kallocaína de Karin Boye

 

Quem diria que o célebre livro “1984” de Geoge Orwell, obra apresentada como uma distopia anticomunista, é apenas um plágio deste livro de Karin Boye, publicado uma década antes e, no seguimento da estada da autora, de fortes convicções de esquerda, na Alemanha nazi. Como a propaganda antissoviética do pós-guerra conseguiu transformar uma denúncia do nazismo numa absurda diatribe contra a URSS. Hoje, a ideologia e censura dominante, impede qualquer crítica ao nazismo sem, do mesmo passo, repetir a mentira que é igual ao comunismo.

 

No livro a trama, que nos envolve e prende da primeira à última página, decorre em torno de um químico, habitante de um Estado militarizado, que descobre o soro da verdade, a kallocaína. O culto da guerra, todos são soldados, da obediência cega, do ódio ao inimigo, a omnipresença do Estado militar que se pretende Mundial, a animalização dos nacionais de outros países, o isolamento e o medo dos indivíduos, tudo são traços do nazi-fascismo que também tivemos por cá.

 

Um livro excecional de leitura compulsiva. Uma obra-prima.

 

Karin Boye (1900-1941), sueca, escritora e poetisa, pertenceu a organizações de esquerda. Suicidou-se em 1941.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

União Nacional



União Nacional por Francisco Nobre Guedes

Francisco Nobre Gudes foi um dos primeiros dirigentes da União Nacional o braço político civil da ditadura salazarista. Este opusculo é a reprodução da conferência que proferiu no Centro de Estudos Corporativos em 1936. A publicação era “reservada ais membros das brigadas doutrinadoras da U.N.”

É um texto com elevado valor histórico pelo que nos permite compreender desta organização política totalmente controlada pelo ditador, mas que nunca teve a importância de partidos políticos como o Partido Fascista em Itália ou o PNSA na Alemanha. Na verdade enquanto nesses países o fascismo organizou-se em partido com vista a tomar o poder em Portugal Salazar toma as rédeas do Governo a partir de um golpe militar.

Assim não é de admirar que a União Nacional seja constituída de dentro para fora, i.e. das estruturas do Estado para a sociedade civil “Com um comando sem faculdades de actuação suficiente, não é de estranhar a maneira como foi estabelecida a primeira rede de Comissões locais. Na totalidade, pode dizer-se, foram compostas pelos Governadores Civis”.

Por outro lado as sua subordinação completa ao Governo retirava-lhe margem de manobra, mesmo nas menores questões locais “Imaginemos que o Ministro do Interior nomeou um Governador Civil de qualquer modo estranho à U.N.. A atitude desta não pode ser outra senão a de perfeito acatamento, e o Governador nomeado deve receber das Comissões locais todo o apoio possível”.

Outra diferença notória é a inutilidade de formar um partido de massas quando já se está fortemente entrincheirado no Poder, altura em que o importante é recrutar as elites “A nossa política é fundamentalmente política de qualidade; esta, sim, que é a primeira razão”.

Em resposta às críticas dos que pretendiam fazer dela um espelho dos partidos-irmãos explica “Em primeiro lugar, em Itália e na Alemanha o «partido» tem uma missão superiormente determinada, de que lhe advêm atividades responsáveis, que não sofrem comparação com as que tem a União Nacional; em segundo manda o nosso bom senso que se reconheça que o povo italiano de hoje, e o povo alemão de sempre, não são em matéria de disciplina e compreensão política, o que é o povo português, por enquanto”.


Um texto relevante para a compreensão do papel da União Nacional no desenho institucional do Estado fascista português de António Salazar.