quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Liderança - Seis Estudos sobre Estratégia Mundial


 

Liderança – Seis Estudos sobre Estratégia Mundial por Henry Kissinger

 

Aparentando ser uma reflexão sobre liderança centrado na apresentação de seis lideres mundiais – Konrad Adenauer, Charles de Gaulle, Richard Nixon, Anwar Sadat, Lee Kuan Yew e Margaret Thatcher – este é um livro de memórias de Henry Kissinger nomeadamente centrado nos tempos em que exerceu funções nas administrações de Nixon e de Gerald Ford e em que esteve envolvido na política mundial.

 

Os seis dirigentes escolhidos têm entre si a particularidade de depois de serem humilhados e ofendidos pelos Estados Unidos permaneceram fiéis à aliança com os norte-americanos e às orientações destes em política externa e interna. Charles de Gaulle viu-se minimizado e contrariado durante a II Grande Guerra mas permaneceu fiel aos americanos até ao fim, Konrad Adenauer foi a correia de transmissão americana depois do fim da guerra, aceitando todas as imposições ocidentais, Anwar Sadat, expulsou os conselheiros soviéticos, perdeu uma guerra, que tinha as condições plenas para a vitória, graças aos apoio militar massivo dos Estados Unidos ao seu adversário e tornou o Egito o primeiro país árabe a reconhecer Israel alinhando-se com os americanos, Lee Kuan Yew substituiu a presença militar inglesa em Singapura pela americana tornando-se um grande homem aos olhos de Kissinger, Margaret Thatcher viu recusado apoio americano na crise das Malvinas, não aceitaram o seu ponto de vista contrário à unificação alemã (ela defendia a continuação de duas Alemanhas) mas persistiu sempre na relação transatlântica especial. Todos grandes líderes por se alinharem com o poderio americano, todos grandes dirigentes porque perceberam de que lado está a força e se dobraram perante esse facto incontornável.

 

Aqui se passam em revista a guerra do Vietname, a Guerra Fria, a détente, a crise da Irlanda do Norte, a greve de fome de Bobby Sands, as guerras de Israel contra os países árabes, a crise de Berlin ocidental, entre outros importantes acontecimentos dos anos 1970.

 

Um interessante e muito atual ensaio final sobre liderança e como se formam dirigentes e estadistas.

 

Estilo muito aliciante, leitura agradável. Muita informação interessante. Um livro de grande fôlego e qualidade.

 

Teoria e Prática Revolucionária

Teoria e Prática Revolucionária por Amílcar Cabral

 

Uma seleção pobre e repetitiva de oito excertos e pequenos textos de Amílcar Cabral descontextualizados que repetem duas ideias essenciais: que a luta de libertação da Guiné e Cabo Verde se travou contra o regime colonial-fascista de Salazar-Caetano e não contra o povo português e que o Partido Comunista Português e os países socialistas apoiaram ativamente o PAIGC. Se estes são factos históricos indiscutíveis, a verdade é que o pensamento teórico e a prática revolucionária de Amílcar Cabral não se revelam nestes textos, declarações diplomáticas de agradecimento e amizade.

 

Das lições da luta, do pensamento de Amílcar Cabral, da libertação de vastas áreas e da organização de um Estado nesses territórios, da estratégia político-militar que derrotou o exército colonial, da aplicação criativa do marxismo às condições da Guiné-Bissau, das intervenções internacionais, pouco ou nada foi escolhido.

 

O livro fica completa com parte de uma entrevista de Álvaro Cunhal, um prefácio de José Augusto Esteves e uma reportagem da Rádio Portugal Livre. Esta última a parte mais interessante do livro.  

 

Fica um sabor anódino de uma oportunidade perdida, por excesso de etnocentrismo, de reeditar alguns textos substanciais de Amílcar Cabral.


 

domingo, 28 de dezembro de 2025

A Sociedade do Cansaço

A Sociedade do Cansaço por Byung-Chul Han

 

Procurando um contraponto a grandes filósofos do século passado, como Nietzche, Arendt, Heidegger, Foucault e outros, Byung-Chul Han desenvolve neste curto mas denso ensaio a defesa de que vivemos atualmente numa sociedade de violência neuronal ou psicológica, uma sociedade dominada por uma positividade maligna, em que “o sujeito sem consciência social parece caracterizado pela sua vontade de maximizar a produção”, em que a “pressão por um maior rendimento” leva ao à depressão, em que “o excesso de trabalho e de produção conduz, a um nível mais elevado, à autoexploração”. E “esta é mais eficaz do que a exploração por terceiros, uma vez que vem associada a um sentimento de liberdade”.

 

A positividade da sociedade manifesta-se “sob a forma de um excesso de estímulos, informações e impulsos, alterando radicalmente a economia da atenção” levando o indivíduo a cair na hiperatividade que “é uma forma extremamente passiva da ação já que não permite qualquer atividade livre”.

 

Um retrato sagaz e lúcido, mas triste e sem esperança do mundo que a humanidade tem vindo a criar neste princípio de século e que nos conduz à guerra nuclear.

 

Byung-Chul Han (n. 1959), coreano radicado na Alemanha, é um dos mais importantes filósofos atuais.