segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

As vésperas Esquecidas por Maria Isabel Barreno

Três histórias intrincada embora inconscientemente entrelaçadas por uma mesma e triste realidade opressora que se vivia no nosso país no inicio dos anos setenta do século XX.

Uma mãe com medo de perder um filho, um jovem de origem africana a despertar para as suas raízes, um rapaz perdido na cidade cruel que vê a pobreza com indiferença e desprezo, todos se vão encontrar num dia de liberdade, esperança e confirmação que os seus destinos podem ser muito melhores do que realística mas sombriamente perspectivavam. 

Um livro que surge na sequência de uma encomenda da editora Caminho a um conjunto de escritores para que contribuíssem com um texto para assinalar o 25º aniversário do 25 de Abril.

“As Vésperas Esquecidas” é uma das últimas obras editadas por Maria Isabel Barreno, uma das famosas três-marias, as outras duas eram Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, que no final do Estado Novo reavivaram o movimento feminista em Portugal.

domingo, 4 de janeiro de 2015

O espião que devia ter morrido por Kasper e Carletti


Um livro de espionagem e de acção cuja trama principal de situa no Cambodja, onde o herói resiste aos espancamentos e à tortura, primeiro numa série de pequenas prisões improvisadas, depois num hospital-prisão e finalmente num campo prisional, enquanto no exterior os vários serviços secretos procuram eliminá-lo ou deitar-lhe a mão.

Um italiano multifacetado, piloto, poliglota, especialista em artes marciais, Kasper seria o espião perfeito não fosse, no fundo, um idealista, um cruzado contra o mal, um ingénuo capaz de confiar em que não deve.

O que são as supernotes? Quem as produz e as distribui? Que mundo é este em que inimigos declarados se aliam para produzir o bem mais precioso no mundo de hoje. Será Kasper capaz de revelar o terrível segredo tão ciosamente protegido pela mais poderosa organização secreta do Mundo.

Um livro ligeiro, escrito num tom despretensioso e sem veleidades literárias.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Como se rergue um Estado

Como se reergue um Estado por Salazar

Uma obra assinada por Salazar mas escrita a várias mãos com os seus colaboradores, publicada em língua francesa em 1937 pela Flammarion em Paris, regressa aos escaparates nesta época de crise.

A Flammarion era então uma editora próxima da Action Française um grupo de extrema-direita, fundado por Maurice Pujo mas que ganhou consistência e influência depois da I Grande Guerra sob a liderança de Charles Maurras. A Action Française foi um dos grupos que, depois da derrota da França pela Alemanha, apoiou o Estado colaboracionista de Vichy do marechal Petain aliado de Hitler. Percebe-se assim o interesse deste grupo em divulgar as ideias de Salazar.

No livro Salazar faz uma critica bem estruturada ao regime da I Republica que não conseguiu encontrar ao longo dos 16 anos de poder um rumo para o país, agravando as desigualdades e a dependência externa. Mas o que têm Salazar para contrapor às políticas da I República? Um programa anti-democrático (“somos anti-parlamentares, antidemocratas, antiliberais e queremos construir um Estado Corporativo”, “não discutimos Deus… não discutimos a Pátria, …não discutimos a autoridade, não discutimos a família, … não discutimos o trabalho”), um programa capitalista corporativista (“A família exige, por si, duas outras instituições – a propriedade privada e a herança”), um programa ultra conservador (“O trabalho da mulher fora do lar desagrega este…”), anti-comunista apesar de conhecer a obra da URSS (“Não tenho, de forma alguma, a intenção de negar as obras do Estado Soviético, grandes fábricas ou vastas construções”).
 

Salazar declara aqui que o Estado Novo não é fascista nem nacional-socialista uma vez que não é totalitário como estes. Naturalmente dirigindo-se a franceses em vésperas de uma guerra com a Alemanha Salazar evita assim alinhar-se pela Alemanha.

 

 


quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

A Festa da Insignificância

A Festa da Insignificância por Milan Kundera



O regresso aos temas de sempre  a leveza da vida contraposta, sobreposta, justaposta ao peso da necessidade, da criação de tudo o que tem valor. De um lado a seriedade, o fardo da responsabilidade do outro a alegria, duas concepções filosóficas da vida sempre em confronto no interior do ser humano tal como Milan Kundera o entende.

De alguns episódios da vida de quatro amigos, e de uma anedota sobre Estaline o autor faz uma ilustração de duas correntes filosóficas em diálogo. É Schopenhauer quem tem razão e a dá a Estaline, um homem que dedicou toda a sua vida e vontade a defender uma visão do mundo, uma representação da realidade? Ou é Estaline que, pela sua prática, dá razão a Schopenhauer? E será a quebra dessa vontade que explica a queda da União Soviética? E que importância têm estas questões perante a morte?



Como sempre aos olhos dos franceses os portugueses devem ocupar o lugar de empregados da limpeza, humildes, ignorantes, ingénuos e na sua inocência primitiva possuírem bom coração. O mito racista e paternalista francês que olha o português como o bom selvagem aqui também espelhado. Francamente mau vindo de um escritor com a envergadura, a experiência e a idade de Kundera que devia saber melhor do que reproduzir estereótipos xenófobos.