sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Desgraça



Desgraça por J.M. Coetzee


Um livro subtilmente racista sobre a pretensa humilhação dos brancos sul-africanos às mãos dos africanos depois do fim do regime de segregação racial.

Na primeira parte do livro o leitor encontra um orgulhoso professor universitário branco sul-africano mulherengo que seduz uma aluna é exposto e acaba por ter de se demitir das suas funções.

Desempregado dirige-se a casa da filha que é dona de uma pequena quinta no interior onde cultiva flores e alguns géneros alimentares que depois vende numa banca numa pequena cidade próxima. As terras à volta têm vindo a ser adquiridas por africanos que têm vindo gradualmente a substituir os agricultores brancos.

Lucy acaba por ser violada por três assaltantes e a sofrer uma grande pressão para vender as suas terras. Resiste. E acaba por aceitar, apesar de ser lésbica, tornar-se a terceira mulher no harém do seu vizinho na condição deste a proteger e perfilhar o filho que irá nascer fruto da violação.

Humilhado e envelhecido o professor retira-se definitivamente para o interior onde se dedica a ajudar a abater cães e a levar as respectivas carcaças para o incinerador local.

Uma desgraça. De faca e alguidar. Em que os africanos são retratados como violadores, ladrões e egoístas. Apesar de tudo J.M. Coetzee foi Prémio Nobel da Literatura.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Cláudio e Constantino

Cláudio e Constantino por Luísa Costa Gomes

Um livro que causa perplexidade. Como é possível uma autora consagrada, embora de segunda linha, escrever um livro como este e apresentá-lo como literatura?

Cláudio e Constantino pode dividir-se em duas partes, uma primeira que mais não é que a simples, porque não acompanhada de qualquer reflexão que lhe pudesse acrescentar substância ou profundidade, reprodução de paradoxos e problemas de lógica formal que encontramos em qualquer vulgata sobre o tema dirigido ao grande público e uma segunda que nos conta as aventuras de Constantino durante a viagem que empreende. Esta segunda parte é ainda mais indigente, sem pingo de imaginação, sem centelha de especulação que lhe acrescente interesse ou brilho. O final é o espelho de todo o texto, um desastre de uma pobreza completa.

Um bom exemplo de que escrever bem, ter uma prosa escorreita e bem alinhada, não chega para ser um bom escritor. É que apesar de tudo a forma e o conteúdo não podem ser separados.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

O Sonho mais doce

O Sonho mais doce por Doris Lessing

 

Um longo e, por vezes, fastidioso panfleto anti-comunista destruidor de toda a esperança.


Doris Lessing vem dizer-nos que nem o comunismo que procura salvar a Humanidade mas negligência o ser humano concreto e próximo, nem o catolicismo que tenta ajudar a pessoa singular sem se preocupar com a forma como a sociedade de organiza conseguem melhorar a vida de quem quer que seja. Pelo contrário ao anunciar uma falsa esperança, promessa que não poderão cumprir, acrescentam mais uma dor na longa lista de sofrimentos dos povos: a desilusão.


Vendo que a sociedade actual gera a pobreza, a miséria, que abandona milhares de pessoas à fome, ao frio, à doença e as condena à morte, Doris não vê qualquer saída que não seja deixar tudo na mesma. Sempre foi assim, defende, os poderosos apropriam-se dos recursos e os fracos sofrem. Nada a fazer.


As personagens deste livro surgem-nos como meras caricaturas, meros estereótipos sem profundidade humana, simples representantes da ideia que a autora faz do que os faz representar. Johnny é um mentiroso, preguiçoso, um indivíduo que não paga a pensão de alimentos dos filhos, que não liga às sucessivas mulheres com que vive. Johnny representa neste romance o comunismo. Sílvia é uma mulher frígida, anoréctica, sem ambições pessoais, mas muito trabalhadora e dedicada aos outros. Sílvia representa o catolicismo. Tenta criar um hospital numa aldeia africana, mas nada consegue, muitos morrem e a aldeia desaparece. Quem reconhece o comunismo ou o catolicismo nestes personagens? Eu não com toda a certeza.


No fundo discordo da mensagem negativa da autora. Creio que é possível mudar o mundo para melhor e que é sempre preferível ter uma esperança, mesmo que esta não se concretize imediatamente e na totalidade, do que não ter qualquer esperança.

 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Verão

Verão por J.M: Coetzee


Um livro em um académico procura desvendar, os anos em que o conhecido escritor e recentemente falecido J.M. Coetzee viveu, depois de regressar dos Estados Unidos, com o seu Pai num subúrbio da Cidade do Cabo na África do Sul. Fá-lo através de entrevistas a um pequeno conjunto de pessoas, todas do sexo feminino com excepção de um outro académico, que, segundo as notas deixada pelo próprio J.M. Coetzee, teriam sido importantes para si nessa época.

O retrato que estes entrevistados traçam não é lisonjeiro. Surge-nos um homem deslocado, pouco à vontade em sociedade, distante, frio, incapaz de amar, introvertido e incompetente para as coisas práticas da vida.

Como pano de fundo indefinido mas terrivelmente presente temos a realidade do regime racista sul-africano, a redoma em que se refugiavam os brancos, uma redoma dourada que defendiam com extrema violência. Esta situação cria um fundo de permanente desconforto em J.M. Coetzee se bem que este pouco ou nada faça para alterar a situação.

Interessante forma de abordar uma autobiografia romanceada, um interessante final para a trilogia que se iniciou com Boyhood seguida de Youth. Interessante também reflectir sobre a imagem, muito pouco positiva e nem sempre factual, que o autor quer transmitir de si próprio. Corresponderá a imagem interior que tem de si mesmo, será a imagem que quer deixar nos outros ou a que não quer deixar. Muitas perguntas sobre um livro que merece ser lido.

J.M. Coetzee está vivo e contínua em actividade tendo publicado em 2014 um livro intitulado Três Histórias. Foi Prémio Nobel da Literatura em 2003.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Guarda Branca

A Guarda Branca por Mikhaíl Bugákov

No caos que se seguiu à derrota da Alemanha na I Guerraa Mundial instala-se na Cidade, Kiev, um regime apoiado pelos alemães e dirigido pelo Hetman Pavlo Skoropadskyi. Contra esta ditadura estrangeira surgem dois movimentos, um de extrema-direita dirigido por Simon Petliura um arrivista político, organizador de perseguições aos judeus e o outro bolchevista. 

Com a cidade cercada pela tropas de Simon Petliura às portas o Hetman e muitos dos seus seguidores de topo fogem para a Alemanha deixando os seus soldados desorganizados e sem coordenação à mercê do inimigo. Esta traição abre caminho para a propagação das ideias socialistas e para a adesão de muitos à revolução. O violento e criminoso regime do Petliura acaba por durar apenas alguns meses.

É neste contexto de guerra, caos e morte que se desenrola a saga dos três irmãos Turbin e dos seus amigos mais próximos.

Um romance a não perder.