segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Autor, Autor

Autor, Autor por David Lodge


Uma biografia cronologicamente parcial, historicamente factual e tecnicamente romanceada do escritor norte-americano, naturalizado inglês, Henry James.

Autor, Autor abarca todo o período da meia-idade do escritor mas nada, ou muito pouco, refere da sua infância e juventude, da sua primeira fase como escritor nem dos anos que antecederam a sua morte. O livro, apoiado em múltiplas fontes, segue fielmente os factos conhecidos da vida de Henry James, preenchendo apenas pequenas passagens, bem identificadas, de forma plausível mas imaginária.

A forma como David Lodge escolhe para nos contar a vida de Henry James é a de um romance, bem-humorado, de pendor intimista e psicológico muito ao estilo do próprio retratado.

Os amigos, a família, os criados e empregados, os insucessos literários, as relações com outros escritores, as fontes de inspiração, as deambulações pela Europa e pelo Reino Unido, as casas, aqui descritas por alguém que, sem o declarar abertamente, se sente que admira o génio literário deste escritor do final do século XIX.

Intencional é o contraponto entre o insucesso literário e dramático de Henry James, os seus livros venderam pouco e as suas peças ou não foram levadas à cena ou quando o foram redundaram em grandes fracassos, e o grande sucesso comercial de outros autores seus contemporâneos e que hoje estão já esquecidos enquanto o Mestre se afirma como um dos nomes grandes da Literatura.

Interessante a tese defendida por David Lodge de que Henry James, que permaneceu sempre solteiro, teria renunciado à sexualidade em contraponto com outras teses que o referem homossexual.

Occupy



Occupy por Noam Chomski

O movimento Occupy viu a luz do dia em Setembro de 2011 com a ocupação pacífica do Parque Zuccotti em Nova Iorque como forma de protesto contra as crescentes desigualdades da sociedade norte-americana em que 1% da população concentra uma grande fatia da riqueza e em que entre os restantes cidadãos crescem as dificuldades económicas e a precariedade. Percebe-se assim o slogam “Nós somos os 99%” que adotaram.

Durante os protestos mais de cinco mil pessoas foram presas mas os protestos não desmobilizaram. O movimento prossegue hoje, sempre por meios pacíficos. Neste livro os ativistas do Occupy colocam uma série de perguntas ao Professor Noam Chomski sobre temas da desigualdade, sobre objetivos do movimento, sobre as formas de aprofundar a democracia participativa, etc.


As respostas do Professor são de solidariedade e apoio ao movimento e de conselho no sentido de aproveitar as liberdades cívicas para combater as desigualdades, para ocupar e gerir fabricas em risco de fecho e/ou de deslocalização, para denunciar o sistema político hoje ao serviço do 1% mais rico da sociedade.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Expresso & Avante dois espelhos do mundo

Expresso & Avante dois espelhos do mundo

O Expresso e o Avante são os dois semanários de referência no panorama jornalístico português. O primeiro um jornal comercial, i.e. apoiado na principalmente publicidade, o segundo um jornal literário suportado na venda de exemplares, o Expresso um jornal que reflete as orientações das elites dirigentes e se destina à classe média, o segundo um periódico que espelha as posições alternativas ao sistema social dominante e se destina às classes trabalhadoras.

Um defendendo a objetividade o outro contrapondo que a objetividade não existe e tomando abertamente partido. Duas visões do mundo, dois espelhos de uma mesma realidade. Ambos líderes de opinião na respetiva área política e social.

Neste interessante livro encontramos uma excelente análise comparativa destes dois jornais portugueses.

O leitor que se quer esclarecido e capaz de ponderar argumentos alternativos faria bem em ler os dois.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

As Recordações de Edna

As Recordações de Edna de Sam Savage

A técnica literária do fluxo da consciência levada a um limite esteticamente avassalador.

O presente e o passado, o geral e o detalhe, a reflexão profunda e o prosaico, tudo rodopia na mente humana sem aparente ordem ou sequência. Não há ato de vontade que impeça os pensamentos de irromperem pela consciência, aí se demorarem um tempo finito e de bruscamente serem interrompidos por outros, numa torrente imprevisível e imparável.

Edna escreve, dactilografando na sua preciosa máquina-de-escrever, esvaziando o saco, enquanto o seu mundo se desmorona lenta mas inexoravelmente. Que escreve Edna? A sua vida, as suas memórias, da infância longínqua, do encontro com o seu marido, da vida que construíram em comum tentando ser escritores, mas também o seu quotidiano, as suas reflexões, os seus medos e angústias.

sábado, 18 de janeiro de 2014

Luz Antiga de John Banville

Luz Antiga de John Banville

A vida interior de um retirado ator sexagenário espartilhado entre a dor da perca da sua única filha e as recordações do seu primeiro amor, vivido em plena adolescência, de que guarda uma memória repleta de detalhes, cheiros, sensações e desejo. Uma relação que, tantos anos passados,  ainda o perturba e intriga.

Um presente sombrio, cinzento, desfocado e um passado vivo, colorido, apaixonado mas distante em que suspeita já se confunde a realidade com a imaginação.

A morte, o suicídio, o pesado e interminável sofrimento pela perda, a culpa, o remorso, a memória fixa em momentos longínquos, a esperança estilhaçada e deslocada, a vida condenada dos sobreviventes.

Nada que se faça no presente, não importa quem enfrentemos ou salvemos, pode apagar o passado, pode dissolver o luto, restaurar a alegria, mas vasculhar o passado pode iluminar e esclarecer, neste caso com uma luz muito triste, as memórias que dele construímos com base na nossa vivência sempre parcelar e unilateral de uma realidade complexa.

sábado, 11 de janeiro de 2014

Quando o Cuco Chama por Robert Galbraith


Quando o Cuco Chama por Robert Galbraith

Depois da saga de Harry Porter, J.K. Rowlings lança-se noutra direção, a dos livros policiais de que Quando o Cuco Chama promete ser o primeiro de uma série já anunciada.

A queda mortal, da janela seu luxuoso apartamento londrino, de uma famosa modelo leva o seu irmão a contratar um detetive privado, filho bastardo de um famoso cantor rock, herói condecorado do Afeganistão. O que ele vai descobrir é uma surpresa que só será revelada no final do livro.

Publicado sob pseudónimo, Robert Galbraith, o livro não vendeu quase nada e só viu as receitas subirem em flecha quando uma indiscrição levou ao conhecimento público do verdadeiro nome da autora.

A apologia acrítica da guerra do Afeganistão pela exaltação dos seus mortos e “heróis” é seguramente deslocada e desnecessária para a trama e vinca uma posição política muito controversa da autora. 

Um policial sólido, com humor, com uma trama que prende a atenção do leitor, com personagens bem desenhadas evoluindo num cenário que cruza várias classes sociais, da nobreza aos sem-abrigo. Falta-lhe contudo o toque de ação, de perigo, de arrepio que encontramos nos verdadeiramente bons livros do género. 

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

A Onda Septimus

A Onda Septimus por Jean Dufaux, Antoine Aubin e Étienne Schréder

A continuação da celebre Marca Amarela mas sem a frescura e sem o estilo e o encanto de Edgar Pierre Jacobs.

Todos os anos pelo Natal sai um álbum das aventuras de Blake e Mortimer, mas a verdade é que a cópia, mesmo quando feita por autores credenciados e talentosos, nunca chega ao patamar do original.

Diga-se contudo que de todas as aventuras publicadas depois da morte do criador esta é porventura a que mais se aproxima da qualidade dos primeiros trabalhos de Jacobs.

sábado, 28 de dezembro de 2013

O Deserto dos Tártaros por Dino Buzzati

Um jovem tenente é enviado para uma velha fortaleza fronteiriça na remota confluência de uma montanha inóspita e de um extenso deserto terroso, pedregoso, e inabitado. Aí vai, por decisão própria, consumir toda a sua vida primeiro na vã expectativa de um feito militar glorioso, depois numa desistência indolente e apática mas não infeliz.

A rotina instala-se, os dias voam, o isolamento torna o ambiente fechado mas acolhedor. Os habitantes da fortaleza formam uma espécie de confraria frouxa mas irmanada numa vaga e cada vez mais esbatida e clandestina esperança. E quando a fé do tenente, agora já major, se esvai e a resignação de uma vida desperdiçada, triturada na inação, se instala o destino prega-lhe uma última, irónica e dolorosa partida.

Uma reflexão sobre os grandes temas da Vida Humana. Os efeitos do tempo e da distância, a juventude dando lugar ao envelhecimento, a esperança a transformar-se em aceitação, a proximidade que se transmuta em estranheza, o amor em amizade, a amizade em vago conhecimento. Tudo se passando impercetivelmente, tranquilamente, sem esforço, sem nos darmos conta até ser tarde de mais, até ser impossível fazer reverter a situação. O tempo que passa, cada vez mais veloz, e tudo consome, tudo arrasa e que, invariavelmente, nos arrasta numa única e tenebrosa direção.

A fortaleza como metáfora das aparentemente atraentes ou inócuas, mas extremamente  perigosas, armadilhas que a existência nos estende. A rotina que aprisiona docemente, a esperança que justifica a procrastinação, o isolamento que afasta impercetivelmente, a inércia que nos amarra, a inação que nos seduz, são ardis que temos de evitar para viver a nossa vida em pleno e para que, ao olhar para trás, não deparemos horrorizados com um deserto árido e seco. 

O será a vida, com o tempo sempre a passar, ela mesma uma grande e terrível armadilha.

Um livro excecional.

A vista de Castle Rock

A Vista de Castle Rock por Alice Munro


A saga familiar romanceada da autora é o foi condutor de uma série de histórias que se espraiam no tempo, do século XVII aos dias de hoje, e no espaço da emigração escocesa para a América do Norte.

As personagens pessoas comuns, agricultores pobres na sua Escócia natal, lançados na aventura da emigração, tornando-se pioneiros ocupando as vastas terras férteis do Canada, o ramo que ruma aos Estados Unidos não vinga e os sobreviventes juntam-se também aos familiares estabelecidos mais a Norte. Por muitas gerações vão manter a sua religião, a sua língua e sotaque, as suas tradições familiares. A família mantém-se unida vivendo perto uns dos outros.

Com o declínio da agricultura depois da segunda guerra mundial são obrigados a uma passagem para a indústria, como trabalhadores por conta de outra, conseguindo por fim que alguns façam estudos superiores e se fixem nos serviços, saindo do campo e migrando para a cidade.

As personagens surgem finamente esculpidas em toda a sua simplicidade e complexidade, com as suas obstinações e idiossincrasias, com as suas qualidades e defeitos, com a sua mentalidade camponesa educada na exigente fé protestante reformada.

Tão importantes quanto as pessoas surgem as paisagens que as albergam e abrigam. Cenários variados, selvagens, criados pela poderosa descida dos glaciares, depois domesticados pela ação do Homens que neles se instalam, erguendo as suas casas e plantando as árvores e as plantas que reconstroem a paisagem e a humanizam.

Alice Munro ganhou o prémio Nobel da Literatura em 2013. 

domingo, 8 de dezembro de 2013

8 Lições de História Económica

8 Lições de História Económica de Jean-Marc Daniel


Jean-Marc Daniel é um economista francês de tendência neoliberal. Neste livro defende, com recurso a episódios históricos descontextualizados,  as ideias desta escola, a recusa do deficit público,  a repulsa pela inflação, a defesa da austeridade e do monetarismo.

Dirige uma revista, a Sociétal, que se diz aberta a todas as ideias mas,  nas palavras do próprio Daniel, onde é proibido publicar artigos que defendam praticas económicas contrárias à “liberdade” como o proteccionismo. Quando a defesa da liberdade passa pela censura está tudo dito sobre a estatura, moral, política e científica, do pensamento deste respeitado economista francês.