quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Esteiros

Esteiros de Soeiro Pereira Gomes



Uma bela história de meninos pobres crescendo com fome, frio e múltiplas privações nos esteiros agrestes da margem direita do rio Tejo, já perto de Lisboa.

O Gineto, o Maquineta, o Gaitinhas e tantos outros surgem-nos vivos, reais, humanos, crianças exploradas nos telhais e nos valados, privadas da escola, mas fortes, inteligentes e determinadas.

Para alguns a vida é breve, para todos dura e difícil, um crescimento que é um desfazer de ilusões com a desistência da escola, a ilusão esfumada de um trabalho fabril e um inculcar de uma realidade injusta e frustrante e as tentações de caminhos mais fáceis.

Um retrato da vida ao longo das estações, cada uma com as suas dificuldades, as relações entre os vários grupos e classes sociais, os proprietários, os rendeiros, os industriais, os capatazes e os trabalhadores. O trabalho infantil, as condições de trabalho, a mera sobrevivência, a tuberculose, a solidariedade, mas também a indiferença de muitos perante a desgraça alheia.

Um livro essencial da Literatura portuguesa. Indispensável para compreender o nosso país, a nossa gente e a forma, muitas vezes cruel, como nos relacionamos.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

A Zona de Interesse

A Zona de Interesse de Martin Amis

Um romance histórico sobre a Alemanha, a solução final e os campos de concentração, trabalho escravo e extermínio, eventos que, por via da natural sucessão das gerações, estão a desaparecer da memória vivida da Humanidade mas que é importante manter presentes e consequentes, até porque as ideias de extrema-direita ressurgem um pouco por toda a Europa e os emigrantes (incluindo os portugueses), as minorias religiosas e étnicas são vilipendiadas e cresce contra elas o ódio racial assente como defendiam os alemães do III Reich numa alegada, mas inexistente, superioridade civilizacional dos povos na Europa central.

Profuso nos detalhes, preciso nas datas e nos intervenientes, objectivo nas descrições, este é um trabalho fruto de pesquisa intensa e leituras múltiplas, que nos revela uma máquina infernal de concentração, confinamento, deportação e matança de judeus, ciganos, deficientes, toda uma multidão de seres humanos inocentes. As selecções, as câmaras de gás, a profanação dos cadáveres, a sua incineração e posterior moagem, toda uma cadeia de Morte e Horror são apresentadas sem sofismas de forma eficaz, crua e simples mas dura.

Narrado do ponto de vista de um judeu, e de dois alemães, do comandante do Campo, Paul Doll e de um sobrinho do Reichleiter (líder nacional) Martin Bormann o romance consegue envolver-nos na sua trama sentimental, de espionagem e resistência.

Um livro oportuno, é preciso lembrar para não repetir os erros do passado agora que a Alemanha ressurgiu no seu imenso poder e em que os alvos já não são os judeus, exterminados na sua maioria e expulsos os sobreviventes, mas os gregos e os outros povos do Sul para os quais se erguem, não campos de concentração, mas restrições financeiras tais que ameaçam a sua sobrevivência.

Interessante e pouco conhecido o papel do conglomerado industrial IG Farben, na utilização dos judeus no seu complexo industrial químico de Buna-Werke, integrada no campo de Auschwitz. A IG Farben estreitamente ligada ao regime alemão foi depois da guerra dividida em várias empresas entre elas as bem-conhecidas AGFA, BASF, Bayer e Sanofi.

Um bom romance apesar de não escapar em algumas páginas a uma visão ideológica e panfletária, do tempo da Guerra Fria, com a recorrente, mas falaciosa, comparação entre a URSS e a Alemanha criminosa. É já tempo de nas obras sérias como esta se dissipar esta propaganda e de se apresentar os factos históricos tal como aconteceram. Aliás o campo de concentração de Auschwitz foi libertado pelo Exercito Vermelho que aí salvou muitos de uma morte certa.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Teoria das Relações Internacionais



Teoria das Relações Internacionais de Kennteh N. Waltz

Kenneth Waltz é o grande teorizador do realismo estrutural a escola dominante nas relações internacionais. A tese que defende neste livro é que a atuação dos Estados é fortemente condicionada pela estrutura da estrutura em que se movem. A estrutura da arena internacional é determinada pelo peso relativo dos estados.

Na altura que escreveu, no final dos anos 70, existiam duas superpotências: os Estados Unidos e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e Waltz descreveu a estrutura internacional como sendo bipolar, uma estrutura segundo ele muito estável e pacífica, pouco propícia a um confronto directo entre os dois rivais.

Essa estabilidade advinha essencialmente de as duas super potências terem arsenais nucleares capazes da autodestruição mútua, mas acima de tudo pela sua muito baixa interdependência, que face uma à outra quer cada uma delas face ao resto do mundo.

Quando hoje tanto se fala em globalização e interdependência é importante ler as palavras sensatas de Waltz que nos diz, com estatísticas e com exemplos bem concretos, que os Estados Unidos não são interdependentes de ninguém já que “A interdependência é uma relação entre iguais” e que duas nações são “interdependentes se os custos de quebrar as suas relações ou de reduzir as suas trocas forem quase os mesmos para cada uma delas”. Se os custos forem muito grandes para um lado e reduzidos para o outro não há interdependência mas sim, defende, dependência – algo muito diferente.

No passado existiam mais grandes potências e muito interdependentes umas das outras, o resultado é a instabilidade e a guerra. No entanto  a interdependência tende a diminuir à medida que o número de grandes potências diminui”, diminuindo também o risco de guerra.

Um livro imprescindível para quem queira estudar relações internacionais.