Jorge Jardim Gonçalves – O poder do
silêncio por Luís Osório
Uma biografia autorizada do mais importante banqueiro português do
último quartel do século XX, uma obra mais ditada do que investigada, muito
repetitiva, excessivamente simplificada e higienizada mas que nos transmite com
nitidez a versão que Jardim Gonçalves tem de si mesmo, do seu papel como
importante ator da vida política e económica portuguesa e da sua intervenção
nos acontecimentos que levaram ao seu afastamento do BCP e à consequente ruína
desse importante projeto nacional.
Assente praticamente num único depoimento a
obra é mais uma autobiografia do que um trabalho de recolha documental, de auscultação
de versões diversas dos factos, de ponderação dos argumentos dos vários
intervenientes. Nesse sentido é um documento unilateral e incompleto. Não deixa
por isso de ser importante, relevante e de constituir uma fonte essencial para
desvendar o importante personagem que marcou profundamente todo um período
histórico do nosso país.
É, sem dúvida, um trabalho que servirá de
base a muitos outros que se farão sobre tão fascinante e contraditória personalidade
que durante cerca de 20 anos dirigiu com mestria e sentido de justiça a mais
importante, mais poderosa e mais internacional empresa portuguesa de sempre.
Um percurso extenso e claro: os estudos na Madeira, a
Universidade em Coimbra e no Porto, a presidência da JUC, o primeiro emprego, o
namoro, a guerra colonial, o casamento, a estadia em Luanda, o regresso ao
Porto, o ensino universitário partilhado com o funcionalismo público, o
ingresso na Banca, a ascensão à Administração do Banco a Agricultura no rescaldo
do 25 de Abril, o exilio em Espanha, a descoberta do Opus Dei, o regresso a
Portugal para a Administração do BPA, a criação dos colégios Fomento, a
fundação, desenvolvimento do projeto BCP. A última batalha. Assim contado em
linhas gerais.
A defesa dos centros de decisão nacionais, a
separação entre a propriedade e a gestão, a segmentação de mercados, a internacionalização
são temas caros ao Eng. Jardim Gonçalves, mas que nunca foram assimilados pelas
elites e que pelo contrário contaram sempre com uma oposição acesa das
poderosas famílias empresariais.
Um fenómeno como Jardim Gonçalves explica-se em
Portugal pelo contexto histórico em que prosperou, uma fase de transição entre a
propriedade pública e o regresso das velhas famílias. A sua carreira dá um
passo decisivo no momento em que regressa de Espanha para assumir um lugar no
Conselho de Gestão do Banco Português do Atlântico. Foi como gestor público que
Jardim iniciou a sua carreira ao mais alto nível.
Pertenceu depois ao grupo de gestores públicos
que fez a transição entre a economia estatal para a economia de mercado.
No BCP a independência da gestão que
sabiamente conquistou através da dispersão do Capital, permitiu-lhe atuar em
prol não só de acionistas, mas também de outros constituintes, nomeadamente os
trabalhadores, pagos muito acima dos valores de mercado, dos fornecedores, do
Estado e do desenvolvimento e afirmação do país no mundo.
Quando no final do século XX a economia neoliberal triunfou completamente e os proprietários puderam voltar a reinar
livremente o papel do gestor independente e ousado, atuando para um conjunto de
stakeholders, deixou de fazer sentido. O reino dos acionistas começava e Jardim
não fazia parte desse novo tempo.
A batalha pelo BCP fez parte desta guerra,
pela subordinação da gestão aos estritos interesses acionistas, pela dominação
de um conjunto de acionistas sobre os minoritários, pelo fim dos centros de
decisão nacionais e sua substituição por centros estrangeiros, pelo desprezo
dos stakeholders, nomeadamente os empregados, fornecedores e comunidade
envolvente.
Nesta obra ficam as datas e os marcos, mas
não ficam as reflexões íntimas, não fica a habilidade diplomática, não fica o
magnetismo que levou tantos a segui-lo sem hesitação, não fica a ponderação e o
bom senso sempre demonstrados, não fica a reflexão estratégica que a cada
momento se fez, não ficam as negociações pesadas que travou, não ficam as
ambições dos que o rodeavam, não fica a rica vida religiosa interior, não fica
o cheiro a pólvora, o sangue-frio, a determinação, a vontade indomável que
demonstrou nas guerras que travou e ganhou.
Em resumo, neste livro pouco fica do Homem e
menos da sua circunstância.
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