Lisboa
Roteiros Republicanos por Maria Calado
A I
República teve uma existência curta mas intensa, começou com uma revolução que
derrubou uma dinastia secular, sobreviveu a tentativas armadas de restauração monárquica,
arrastou o país para uma guerra mundial, foi interrompida por ditaduras efémeras,
viu cair assassinado um Presidente e vários dos seus heróis, viveu atribulada e
agitada, apresentou-se palavrosa e acutilante no verbo mas não produziu obra,
não desenvolveu o país e quando se finou deixou-o em profunda crise. Poucos a
choraram.
Este
livro ilustra bem estas características da I República. Dois exemplos. A
instrução e a habitação social.
A
primeira considerada como a grande prioridade, a base da emancipação humana, a
prioridade das prioridades, a grande paixão republicana, muitos discursos
inflamados, muitos planos mas escassíssimos resultados para além da mudança de
nome dos Liceus e das Escolas Superiores. Em termos de analfabetismo depois de
tanto pregar e profiar “iria traduzir-se na redução de 3,,1% do analfabetismo
na capital no final da República, de 30% (censo de 1911) para 27,7% (censo de
1925)”. Caso para lembrar o ditado popular “muita parra e pouca uva".
A segunda
tida por essencial para melhorar a saúde pública e as condições de vida da
população lisboeta. Planos e plantas não faltaram como os elaborados por
Ventura Terra, vereador da Câmara de Lisboa, relativo ao Casal Ventoso. Mas
preferindo acumular a vereação com intensa atividade profissional, nomeadamente
no desenho e construção de elegantes moradias nas zonas mais nobres da cidade,
não conseguiu alterar uma simples pedra no bairro operário construído numa encosta
batida pelo vento. Não avançando qualquer obra “reduziu-se a ambição do
projeto, mas mesno assim nada se fez”. Paradigmático para outros locais onde
também “a intervenção nos bairros pobres da capital acabou por não se efetuar”.
As
poucas obras de encetou não as concluiu. “Em Lisboa a I República só conseguiu
iniciar dois bairros sociais: um é o Bairro Social da Ajuda, só inaugurado em
1937, e outro é o Bairro do Arco do Cego cujo projeto elaborado em 1919 pelos
arquitetos Adães Bermudes e Frederico Caetano de Carvalho … só foi terminado em
pleno Estado Novo…”.
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