quinta-feira, 27 de junho de 2013

O Fio das Missangas

O Fio das Missangas por Mia Couto

Contos de Mia Couto. A perspicácia, a ironia, o humor e a imensa qualidade da escrita deste autor surpreendente estão lá, mas não podemos deixar de recordar que já lemos melhor da sua pena.

A invenção de palavras, ainda timida e residual, que aqui desponta está ainda longe da exuberância que viria a ter na sua obra.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Crime e Castigo

Crime e Castigo por Fiódor Dostoiévski

O valor da vida e o livre arbítrio são os temas centrais deste romance em que a transgressão é punida e o auto sacrifício louvado mas não recompensado.

Pode alguém ter o direito de, em nome de um bem maior, cometer crimes e mesmo assassinatos? Pode um ser humano, mesmo que vil, mesquinho, velho e doente, ser morto para que um jovem possa triunfar, para que muitos possam beneficiar do seu dinheiro?

Devem os génios, os mais talentosos, os grandes políticos, cientistas e artistas ter direitos diferentes do ser humano comum?

Pode o criminoso viver tranquilamente e em paz consigo e com o mundo? Que intrincados processos mentais levam quem cometeu o crime perfeito, e que nunca será apanhado, a confessar espontaneamente ansiando expiar a sua culpa?

A miséria impele o pobre para o delito ou, pelo contrário, é a degenerescência moral que empurra o individuo para a pobreza? Somos fruto das nossas circunstâncias ou criamos o nosso destino? Perguntas tremendas a que Dostoiévski não se furta e que são respondidas, sem ambiguidades, nas palavras e/ou nas ações dos personagens de Crime e Castigo.

A miséria e a pobreza vistas, mais do que como causas, como verdadeiras consequências da degeneração moral.

Sunismo


Sunismo

O Sunismo é o ramo maioritário do Islão.  Um desenvolvimento do judaísmo o sunismo acredita que Deus é único, em contraposição com a visão trinitária do cristianismo, e que o Maomé foi o seu maior Profeta a que Deus através do seu anjo Gabriel (o mesmo que apareceu à Virgem Maria) passou a sua mensagem.


Maomé nasceu a península arabica e viveu em Meca num grupo de descendentes de Abraão e criou uma religião com um apelo tão poderoso que hoje é uma das maiores do mundo.

Manuel da Silva

Manuel da Silva - 30 anos de Vida e Luta na Clandestinidade

Tendo adquirido, desde muito jovem, consciência política Manuel da Silva Júnior aderiu às Juventudes Comunistas e depois ao Partido Comunista Português a cuja causa dedicou toda a sua vida. Preso em 1936 foi deportado para Angra de onde regressou em 1939.  Desde o seu regresso até 1939 vai continuar com a sua companheira Gertrudes a sua militância e em 1945 entra na clandestinidade.

Feito notável consegue viver quase 30 anos clandestino, mudando de casa com frequência, tomando medidas de precaução e segurança, mas assegurando as suas tarefas de propaganda e de agitação. A clandestinidade implicou, contudo, muitos sacrifícios. Teve de, para segurança deles, separar-se dos filhos que foram acolhidos e criados na União Soviética e só pode revê-los depois do 25 de Abril.

Uma vida cheia em prol de uma causa em que acreditava.  

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Demónios

Demónios por Fiódor Dostoiévski

Numa Rússia czarista, fechada, conservadora, repressiva, sufocada pelo jugo simultâneo da aristocracia no plano económico e da Igreja Ortodoxa ao nível das ideias, uma geração jovem, educada e desocupada cresce sem valores nem horizontes, sendo atraída por ideologias terroristas cujo único propósito declarado é destruir os pilares da sociedade que odeiam.

Em tensão encontram-se três ideologias que se combatem. A pedra de toque as funda e distingue é a relação com Deus. A ideologia conservadora, encontra a sua justificação na Igreja Ortodoxa, cuja fé professa na plenitude. Os liberais da primeira geração, gradualistas e reformadores, cuja grande obra foi a libertação dos camponeses do regime de servidão, simultâneamente opostos à tirania mas receosos de grandes transformações sociais, eram tementes a Deus mas críticos da Igreja. Os niilistas ateus, desiludidos pelas reformas que pouco ou nada mudaram e rejeitando todos os valores morais, que vêm no caos e na destruição a única forma de actuação. Esta é o confronto que este livro nos conta, através das suas personagens, cada uma delas uma encarnação viva dos três grupos em liça.


Um livro actual que comporta muitas reflexões úteis num Portugal em crise em que as novas gerações estão a ser empurradas para posições niilistas pela incapacidade das elites de hoje de construir uma sociedade equilibrada e justa.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Gente Pobre

Gente Pobre por Fiódor Dostoiévski


Gente Pobre foi a primeira novela de Dostoiévski e um grande sucesso editorial. Considerado um dos primeiros romances sociais russos a história exibe claros contornos naturalistas mesclados com uma sátira mordaz. OS pobres aqui retratados são, de facto, a classe média baixa do funcionalismo público do czarismo novecentista que vive de uma forma muito contida, sempre a beira da completa miséria. Qualquer despesa extra, umas simples solas nas botas, um capote roto que tem de ser substituído, e as finanças pessoais desequilibram-se e a fome e o frio aliam-se para desferir o golpe de misericórdia fatal.
 
Escrita na forma de uma troca de correspondência entre um funcionário público de meia-idade e uma jovem sua prima e vizinha, a novela desvenda-nos as dificuldades materiais dos personagens mas acima de tudo a sua psicologia, os seus medos e esperanças. A valorização do aprumo acaba por traduzir-se em vergonha pela roupa coçada e sem botões, a importância atribuída ao esmero no trabalho esvai-se no erro grosseiro, o gosto pela vida intelectual é inquinada pela troça literato.

Sempre com uma aguda e dolorosa consciência destes factos, que descreve de forma satírica, ridicularizando-se, o personagem, masculino desequilibra-se na vida, vê aproximar-se a desgraça, balanceia entre a recuperação e a miséria e salva-se, como tanta gente pobre, graças ao acaso de uma esmola do chefe e ao casamento da prima com um homem abastado.

sábado, 20 de abril de 2013

Catas, Máximas e Sentenças

Cartas, Máximas de Sentenças de Epicuro


Como viver? Qual o propósito da vida? Que fazemos aqui no mundo? Perguntas eternas que ao longo dos séculos tiveram respostas diversas e contraditórias, todas discutíveis, todas de algum modo insatisfatórias. Umas logo refutadas, outras resistentes ao tempo e à reflexão adversa. Umas terreno fértil onde se multiplicam e florescem as ramificações, outras solo árido e seco sem descendência.

Na Grécia antiga, Epicuro reflectindo no seu Jardim ensinou-nos que a vida merece ser vivida livre de dor corporal e de terrores espirituais. E que o caminho para essa vida tranquila assenta na compreensão do papel dos deuses, da morte e da determinação e do acaso.

Sobre os deuses diz-nos que existem, que levam uma vida bem-aventurada mas totalmente afastada dos assuntos humanos em que não intervêm. Não há que contar com eles nem para o mal, não são eles que provocam as catástrofes naturais, políticas ou pessoais, nem para o bem, já que não ouvem as nossas preces. Eles existem mas não têm qualquer influência na nossa existência.

A morte explica é a ausência de sensações. Sem sensações não há dor, não há sofrimento. Na morte a alma sai do corpo e os seus átomos dispersam-se pelo universo. Nada há a temer, pois enquanto vivemos a morte não está presente e depois de mortos somos nós que não estamos presentes. Assim a morte não é nada para nós. Nunca a experimentaremos. Esta concepção nega a imortalidade e vê na morte o final absoluto da vida humana.

Os fenómenos na natureza, os ciclones, as secas, as tempestades, não são causadas por forças divinas, mas por causas físicas cuja explicação lógica será encontrada (e foi-o de facto) pelo seu estudo. No entanto recusa o determinismo absoluto, defendendo, com toda a sensatez, que o destino humano é fruto da tripla acção da necessidade, do acaso e dos seus próprios actos.

O Homem armado com este conhecimento pode levar uma vida feliz, tranquila e sóbria, desfrutando os prazeres autênticos, livre de dor física e principalmente dos terrores da alma.

Um autor frutífero cuja obra se perdeu na quase totalidade mas de quem os textos sobreviventes são indispensáveis para percebermos o mundo em que vivemos.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Orlando - uma biografia

Orlando - uma biografia por Virginia Woolf

A Inglaterra através dos tempos, desde o período isabelino ao período entre guerras do século XX vistos por um biógrafo de um membro da alta nobreza.

Como num filme ritmado vemos a transformação primeiro lenta mas depois crescentemente acelerada, mas sempre nítida e finamente desenhada, da moral e dos costumes, dos meios matérias de vida como os transportes, o mobiliário e os trajes, das ideias filosóficas e literárias.

A busca da felicidade e do sentido da vida leva o jovem Orlando em direcções diversas e surpreendentes ao longo da sua vida secular, mudando de sexo, vivendo no seio de uma tribo cigana, escrevendo obras-primas da poesia, casando-se com um aventureiro.

Orlando a eterna jovem, a imortal, viajando docemente através dos tempos, com a sua inteligência viva, com as suas maneiras suaves mas determinadas, fundindo-se com o espírito dos tempos sem perder a sua individualidade, sem comprometer a sua alma, a sua inquietação e a procura das respostas fundamentais ao desafio da vida, é a Humanidade, o ser humano na sua caminhada através da História.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

O Grande Gatsby

O Grande Gatsby de F. Scott Fitzgerald


Nos loucos anos 20 nos EUA todas as formas licitas e ilícitas serviam para fazer fortuna, a economia crescia, o dinheiro desaguava abundantemente, ao ritmo da especulação, nos bolsos dos grupos sociais no topo da pirâmide. A América corria sem o saber, nem o sentir para a Sexta-feira negra e para a Grande Depressão.

A dissipação, a ociosidade, as festas, as amantes são os interesses desta classe de ricos americanos que deambulam pelo planeta ao sabor de caprichos e de modas sem se deterem muito tempo em cada lugar. Sabendo-se intocáveis pela sua riqueza vão destruindo irresponsavelmente as vidas dos outros.

Um homem determinado vai subir rapidamente a escala social sem olhar a meios, por amor à sua antiga namorada rica, entretanto casada, mas que ele nunca esqueceu. Por ela assume um crime que não cometeu e que acaba pagar com a própria vida.

Um retrato preciso, desencantado e crítico, das classes superiores norte-americanas do pós-primeira grande guerra vistas por dentro com um misto de admiração e repulsa por alguém como o próprio Fitzgerald vindo de fora.   


segunda-feira, 25 de março de 2013

O Instinto Supremo


O Instinto Supremo por Ferreira de Castro

No mais profundo da brenha amazónica um punhado de homens, dispostos a morrer mas não a matar, procura estabelecer relações de amizade com a tribo dos parintintins.

 Recebidos com animosidade e com ataques tão ingénuos, os atacantes batem repetida e violentamente com os pés no chão para assustar, como ineficazes, conseguem através da troca de pequenos brindes, machados, missangas, espelhos, harmónicas, por adornos de penas produzidos pelos índios conseguem estabelecer uma base de entendimento e de amizade.

À medida que a ação se desenrola descobrimos a história de vários personagens como o médico que a mulher enganou mas que teve a coragem se seguir pacificamente com a sua vida, voltando a casar, numa sociedade que exigia vingança sangrenta, Jarbas o operário sindicalista perseguido que com os seus argumentos de bom senso vai conquistando os companheiros para o seu ideal, Curt o alemão, naturalizado brasileiro, que adoptou um nome índio e que ardendo de febre se mantém firme no comando do grupo, o Manga Verde e a sua fabulosa queda no abismo depois de ter cobiçado a mulher do patrão, e muitos outros.