quarta-feira, 12 de junho de 2019

As mãos frias

As mãos frias por Branquinho da Fonseca

Um pequeno conto sobre um infeliz equívoco de consequências lamentáveis na vida de uma mulher com os nervos em franja. De como as emoções de uns podem ser mal-interpretadas por outros, mesmo que próximos.

Um ambiente datado na Lisboa do pós-guerra e na cultura de vizinhança que se vivia nos prédios de certos bairros. A vida triste e pobre dos lisboetas “Era o sua vida abafada, subterrada debaixo de tanta mesquinhez, deste aperto das necessidades do dia-a-dia, do emprego onde não ganhava que chegasse, do vestido coçado, das outras que respiram ao sol, que têm sol!”

Branquinho da Fonseca (1905-1974), português, romancista, poeta, contista, dramaturgo, membro do movimento literário Presença. A sua obra caiu no esquecimento de onde provavelmente não sairá.

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Margarita e o Mestre


Margarita e o Mestre de Mikhail Bulgakov

Um estranho personagem chega a Moscovo com o seu estranho séquito criando a confusão no leio literato e dramaturgo e depois um pouco por toda a cidade.

A escrita elaborada, próxima da perfeição, com descrições primorosas, diálogos fluídos, reflexões curiosas e profundas, mostra um domínio completo da arte da Literatura. “Como é triste a Terra ao anoitecer. Como são misteriosas as brumas por sobre os pântanos. Quem vagueou nessas brumas, quem sofreu muito antes da morte, quem voou sobre esta terra transportando um fardo demasiado pesado, sabe-o”.

Várias histórias entretecidas, admiravelmente cruzadas, misturando o delírio negro mais completo, absurdo e surrealista, com o romance histórico sóbrio e que se quer fiel aos fatos levemente fantasiados, num conjunto coerente e completo.

A Paixão vista pelos olhos de Pôncio Pilatos, a sociedade russa do pós-guerra dissecada pelos olhos críticos da alma humana em que permanecem muitos pequenos defeitos e idiossincrasias, a reação ao inesperado, ao inconcebível, agrupam-se para formar uma obra surpreendente e misteriosa.

Abundam os símbolos maçónicos, as referências satânicas, as situações mais surrealistas (o feroz e prolongado tiroteio a curta distância em que ninguém é ferido), a par de meditações bem elaboradas sobre o Bem e Mal “de que serviria o teu bem se não existisse o mal, e que aspeto teria a terra se dela desaparecessem as sombras?”. O bem e o mal duas faces da mesma moeda que se entrelaçam, comunicam e, finalmente, se unificam.

A qualidade da escrita torna atraente um livro de mensagem difícil mas que nos toca e faz pensar.

quinta-feira, 30 de maio de 2019

O Homem que era 5ª feira


O homem que era 5ªfeira por C. K. Chesterton

Uma louca, mas muito rica e inteligente, alegoria religiosa do incessante combate entre o Bem e o Mal no interior de cada um e na sociedade criada por todos. O jogo de mascaras da vida, em que, muitas vezes, o visível esconde o invisível que, contudo, está sempre mas sempre pronto a irromper das profundidades e brilhar à superfície.

O absurdo, o exagerado e o caricatural aliados com mestria ao humor e à subtileza, para nos mostrar a relação de Deus com as suas criaturas, o esforço do ser humano para seguir o caminho reto através de uma estrada insana, difícil e dolorosa.

Nada do que parece é, os inimigos são no fundo amigos, o bombista o polícia, o demónio Deus. Uma longa estrada até à revelação e à reconciliação. Mas todo o mal e sofrimento são apenas provações para testar a nossa resolução e a nossa constância.

Deus/Domingo fala-nos no escuro inicial e só volta ao nosso convívio no final de tudo. Esse silêncio e a sua aparente transformação em demónio são a encenação necessária a essa provação.

Um livro que inicialmente surge como uma vulgar comédia ligeira e que pouco a pouco vai tomando um caráter mais estranho, até que finalmente emerge uma mensagem mais clara e mística.

C. K. Chesterton (1874-1936), inglês, artista polifacetado, filósofo e teólogo escreveu diversos romances que se celebrizaram.