quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

O Insustentável Peso da Solidão


O Insustentável Peso da Solidão de Katherine Masnfield

Sob este título algo desajustado inclui a editora Coisas de Ler dois contos da escritora neozelandesa Katherine Mansfield (1888-1923) que abordam o tema da felicidade humana e da sua fragilidade.

O segundo conto, de qualidade excecional, intitulado Extase (Bliss em inglês), apresenta-nos uma jovem casada que vive um dia glorioso de grande felicidade pessoal que assenta parcialmente num equívoco.

Com um estilo impressionista, capaz de criar vividos quadro coloridos de grande detalhe e ambiental e preciso recorte psicológico, Mansfield consegue transmitir-nos as sensações mais íntimas sobre objetos e situações aparentemente insignificantes mas que são, muitas vezes, as que calam mais fundo na alma e no intelecto humano.

Não resisto a transcrever esta passagem “Que podemos fazer quando temos trinta anos e, ao virarmos uma esquina da rua onde moramos, nos sentimos invadidos, subitamente, por um sentimento de felicidade – felicidade absoluta! – como se de repente tivéssemos engolido um pedaço de brilho do sol, daquele fim de tarde e este nos queimasse o peito, emitindo pequenas partículas brilhantes em todas as direções, dos dedos dos pés até aos dedos das mãos? Oh não haverá uma forma de o podermos exteriorizar sem estarmos bêbedos ou doidos?”. Eis a felicidade no seu estado puro, emergindo repentinamente sem causa aparente, inundando o ser com a sua energia impelindo-o a rir, a dançar, a partilhar a sua alegria. A simples felicidade de estar vivo, de experimentar os cinco sentidos, de aceitar a existência e de comungar com a natureza.

No primeiro conto, Preludio, uma família numerosa muda de casa deixando o centro da cidade para se instalar nos arredores bucólicos e rurais. O diferente impacto da nova casa (“Era comprida e de construção rasteira, com uma varanda de pilares e um alpendre que dava volta à casa. A sua silhueta branca estendia-se no jardim verde como se de um monstro adormecido se tratasse.”) sobre cada um dos elementos da família, das crianças aos adultos, aos mais idosos, revela-nos a sua personalidade, os seus sonhos e aspirações.

Ketherine Mansfield morreu jovem num tempo em que a tuberculose não tinha cura. Deixa uma obra literária curta mas das mais significativas da Literatura inglesa da primeira metade do século XX.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

O Camarada


O Camarada de Cesare Pavese

Um dos grandes escritores italiano da primeira metade do século XX, Cesare Pavese (1908-1950) viveu os tempos atribulados da subida ao poder de Benito Mossolini em 1922, da ditadura fascista, da II Grande Guerra e da resistência.

Radicam nessa intensa vivência pessoal, que o levou à prisão, muitos dos temas que preenchem a obra literária de Pavese.

Em O Camarada, que se passa na segunda metade dos anos 30 do século XIX, em plena Guerra Civil Espanhola e ainda antes de começar a Guerra Mundial, encontramos temas com a repressão policial sobre os oposicionistas, o medo instalado na sociedade italiana, a pobreza de largas camadas da população, as diferenças regionais entre Turim, Génova e Roma, as relações entre homens e mulheres, o lento acordar da consciência política e da resistência mais esclarecida.

Acompanhamos o despertar de um jovem guitarrista de alcunha Pablo e a sua aventura migratória desde a sua tristonha Turim natal até à exuberante e festiva capital.

A habilidade de desenhar ambientes simultaneamente psíquicos, naturais e circunstanciais (“Foi assim que começamos a falar do seu passado e que me contou muitas coisas, cada vez mais tristes. Era para irmos ao cinema, mas acabamos por não ir. Compramos castanhas assadas e passeámos ao longo do Pó. Anoitecia, os candeeiros já estavam acesos e desejaria que aquele momento nunca mais passasse…”), as imagens fortes e claras (“Tinha um gato dentro do sangue, que me dilacerava com as garras”), tornam a escrita de Pavese bela e atrativa.

A reflexão social eivada de fino humor esta sempre presente como neste diálogo - “Estiveste no hospital – perguntei. – Tomara eu! Mas não aceitam gente que coma…”.

A questão política é analisada pelo prisma do sacrifício que os militantes clandestinos fazem em prol dos seus semelhantes (“Para que todos tenham uma vida melhor, começam vocês por estar pior”) e do marxismo (“Não é verdade que, em síntese, o marxismo consiste em ver as coisas tal como são e providenciar para que sejam como devem ser?”).

Apesar da mensagem intrinsecamente progressista O Camarada contem uma frase desnecessária para a narrativa mas muito infeliz que resvala para um racismo inaceitável sobre uma dançarina negra de um clube noturno.

Cesare Pavese foi membro do Partido Comunista Italiano até à sua morte e trabalhou na redação do jornal Unitá. Suicidou-se em Turim aos 41 anos na sequência de uma depressão ocasionada por um desgosto amoroso. Pouco antes recebera o prestigiado prémio literário Premio Stanza pelo seu livro “A bela Estação” publicada em 1949.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Dez mil guitarras


Dez mil guitarras por Catherine Clément

Catherine Clément, nascida em 1939, é uma conhecida romancista e filosofa francesa que se tem interessado pela história do nosso país sobre o qual escreveu em diversos momentos.

Dez mil guitarras foi publicado em França em 2010 e obteve críticas dúbias que não impediram que lhe fosse atribuído o Prix Historia para romances históricos desse ano.

Ao longo do livro seguimos histórias paralelas todas ligadas direta ou indiretamente ao rinoceronte que os portugueses trouxeram da Índia e que pertenceu sucessivamente a Dom Sebastião, a Filipe II, a Rodolfo II de Habsburgo e à ilustrada e extraordinária Rainha Cristina da Suécia antes de se estabelecer definitivamente num museu austríaco.

Sobre Dom Sebastião avança com ideias delirantes e inverosímeis como a da sua sobrevivência à batalha de Alcácer Quibir e a da sua permanência em Marrocos casado com a filha do sultão deposto Abu Abdallah Mohammed II.

A obra tem o condão de nos relembrar do erro estratégico de Dom Sebastião ao pretender intervir numa crise dinástica marroquina, colocando-se ao lado de Abu Abdallah Mohammed II contra o tio deste o famoso Abd al-Malik que se tinha apoderado do trono. Longe das fantasias de que Dom Sebastião pretendia conquistar Marrocos a verdade histórica é que apenas pretendia ajudar Mohammed II a reconquistar o trono.

Um livro bem escrito que peca, contudo, pelo delírio do destino de Dom Sebastião que preenche o relato e o torna difícil de perceber. Um Rei português, orgulhoso, católico fervoroso, dirigente de um dos países mais avançados da época, transformado num simples curandeiro de beira de estrada é tão improvável e de certa forma humilhante que se torna penoso ler essas passagens.

Perpassa na obra um certo racismo antiportuguês tão característico de uma certa elite intelectual francesa.

Estranho que o livro tenha em Portugal passado sem grandes polémicas.