domingo, 19 de novembro de 2017

As Estratégias Militares


As Estratégias Militares


O capitão inglês B. H. Liddell Hart (1895-1970) escreveu no final da I Guerra Mundial uma obra, hoje clássica, assente na História dos conflitos bélicos através dos séculos, sobre as vantagens da estratégia indireta. Contudo mais de 1.000 anos antes já os grandes tratados militares chineses louvavam e aconselhavam a via indireta para a vitória na guerra.

O estratega Sun Bin viveu na China no longo período dos Reinos Combatentes, que ocorreu entre 475 antes de Cristo a 221 antes da nossa era e que terminou com a vitória do rei de Qin. Ao subjugar os seis reinos rivais de Zhao, Yan, Wei, Han, Chu e Qi o Rei Ying Zheng estabeleceu o primeiro Imperio chinês, o da dinastia Qin. Para isso usou diversas técnicas indiretas, os Trinta e Seis Estratagemas nomeadamente o de se “aliar com os Estados distantes para subjugar os estados fronteiriços”.

Outro destes estratagemas aconselhava a “matar com uma espada emprestada”, significando que quando não é possível atacar diretamente um inimigo torna-se importante convencer outrem, um Estado aliado, um traidor do Estado inimigo, a fazê-lo por nós.

Neste livro, comentado, Sun Bin, o mais destacado clássico das artes guerreiras depois do seu antepassado Sun Tzu, desenvolve várias ideias centrais nomeadamente a sujeição do poder militar ao poder político, ideia que séculos mais tarde foi retida por Carl von Clausewitz na máxima “a guerra é a continuação da política por outros meios”.

Um importante capítulo é dedicado à questão fundamental da seleção dos generais e das chefias militares. A ênfase é posta quer na confiança política que o Rei deve depositar no seu Chefe de Estado-maior quer nas capacidades militares deste, nomeadamente do seu conhecimento do terreno, dos homens que comanda, do povo que serve, dos objetivos perseguidos e acima de tudo da arte da guerra.

Outro importante capítulo descreve as oito formações possíveis das forças armadas em batalha e como devem ser utilizadas face ao tipo de terreno e à força e disposição do adversário.

A estratégia indireta prevalece em toda a obra, recheada de reflexões e sugestões de como quebrar a vontade do adversário, de como o desagregar e dispersar para que possa ser atacado por forças superiores, de como o atrair para terrenos em que fique em forte desvantagem, de como evitar o choque da força contra a força.

A astúcia, o conhecimento do terreno, a manobra de diversão, a organização das tropas, as linhas de abastecimento, a liderança, surgem como fatores de muito maior alcance do que o simples número de tropas de infantaria, de cavalaria ou de carros de combate. No embate de vontades que é a guerra, prevalece a inteligência sobre a ignorância, a flexível sobre a rigidez, a criatividade heterodoxa sobre a tradição ortodoxa.

Os comentários que acompanham o texto de Sun Bin são extremamente úteis para fornecer um contexto histórico às palavras do mestre.

domingo, 29 de outubro de 2017

A Oeste Nada de Novo

A Oeste Nada de Novo de Eric Maria Remarque

Um dos mais extraordinários livros que li até a hoje. A vida e morte nas trincheiras alemãs da Primeira Grande Guerra.

Sabemos como é difícil traduzir por palavras as grandes emoções, as mais fortes experiências emocionais e humanas, como quando delas falamos sentimos que muito ficou por dizer, que o discurso falado ou escrito não permite transmitir a vivência por que passamos. Os sobreviventes dos recentes incêndios resumem na palavra Inferno a provação por que passaram, mas pouco mais conseguem exprimir verbalmente.

Essa é a arte de Eric Maria Remarque a de nos transportar para o interior das trincheiras enlameadas e cheias de ratos, para o interior de buracos de obuses, para a frente de combate, nos fazer sentir o medo, a angústia, a indiferença e a revolta do combatente, para nos irmanar com aqueles que morrem por uma causa fútil a que são alheios.

As personagens que nos apresenta são jovens, muitos com menos de 20 anos, atirados sem preparação para as primeiras linhas onde são massacrados aos milhares. Estudantes, camponeses, operários, procuram desesperadamente sobreviver aos ataques inimigos, aos bombardeamentos contínuos, à fome persistente, às doenças, com esprito de entreajuda mas sem esperança.

Os soldados falam das causas da guerra. Oiçamos a sua voz “Mas lembra-te de que somos quase todos do povo e em França a maioria é de trabalhadores, operários e pequenos empregados. Porque é que um sapateiro, ou um serralheiro francês nos quereria atacar? Não, são apenas os governos. Nunca vi um francês antes de vir para aqui e o mesmo acontece com a maior parte dos franceses no que nos diz respeito. Pediram-lhes tanto a sua opinião quanto a nós”. Outro soldado pergunta “Porque há, então, a guerra?” e alguém responde “Deve haver pessoas a quem a guerra aproveita”. Todos concordam que “Está bem!, mas eu não sou dessas”.

Como tantas guerra que só aproveitam às elites económicas e militares. Aos soldados resta “A trincheira, o hospital e a vala comum: não há outras alternativas”.

A carnificina ganha novos contornos á medida que a guerra se aproxima do fim “Este Verão de 1918 é o mais árduo e o mais sangrento de todos. Os dias são como anjos vestidos de ouro e azul, impassíveis sobre o campo da destruição”. O contraste entre a natureza vibrante do sol de ouro sob um céu perfeito e os mortos no campo de batalha. “Nunca se suportou em silêncio mais dores do que no momento em que se parte para as primeiras linhas. Aparecem as falsas notícias, tão excitantes de armistício e de paz; perturbam os corações e tornam as partidas mais molestas que nunca”.

 E é a poucos meses da Paz que o nosso soldado, depois de ter visto todos os seus amigos e a maioria dos seus colegas de escola morrer no campo de batalha, recebe um tiro fatal num dia tão calmo que o comunicado diário do exercito se limitou a assinalar que na frente “ oeste nada de novo”.

domingo, 22 de outubro de 2017

Amada Vida


Amada Vida por Alice Munro

Uma coleção de 14 contos da famosa autora canadiana publicados em 2012. No ano seguinte Alice Munro (n. 1931) ganhou merecidamente o Prémio Nobel da Literatura.

Sobressai, como pano de fundo, de forma nebulosa e ténue a atmosfera da sociedade das pequenas vilas de província, que não são rurais mas também não completamente urbanas, com os seus dramas humanos, com as suas idiossincrasias, com as suas paisagens imersas na Natureza florescente da zona do Lago Huron.

Muitos dos contos reunidos em Amada Vida, Dear Life no original, tinham já sido publicados anteriormente nomeadamente em revistas e jornais literários.

As personagens são complexas e muitas vezes tocadas, feridas ou traumatizadas física ou psicologicamente por acontecimentos ou doenças que as empurram para comportamentos por vezes estranhos que se iluminam com a revelação da sua condição.

A atenção ao detalhe, ao enquadramento ambiental, a minúcia de análise dos sentimentos e processos psicológicos, ajuda-nos a compreender a natureza humana e os complicados labirintos da mente humana.

Particularmente interessantes são história de “Noite” sobre uma obsessão infantil, “À vista do Lago” uma reflexão sobre a perda da memória, Dolly que nos conta um reencontro inesperado e improvável.

A velhice “a única coisa que me incomodava, um bocadinho, era o pressuposto de que nada mais iria acontecer na nossa vida. Nada de importante que tivéssemos de gerir”, a reacção á deficiência “Nunca fale da minha perna ao papá, que ele fica apoplético” disse ela. Uma vez despediu não apenas um miúdo que costumava meter-se comigo, mas toda a família”, a dolorosa descoberta de um embuste, a sensação de culpa depois do adultério, muitos são os temas, muitas são as ocasiões para observar a vida quotidiana sob uma lupa reveladora dos movimentos subterrâneos da alma.  

Um livro indispensável para conhecer a obra de Alice Munro.