segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Medeia de Séneca

Séneca foi o professor de Nero, um dos mais cruéis, assassinou a sua própria mãe, e ineficientes imperadores romanos. Mas apesar dessa relação de proximidade o ditador ordenou que Séneca se suicidasse no que foi prontamente obedecido.

Esta peça é a adaptação de Séneca do mito de Medeia, já tratado na Literatura Clássica por outros autores, nomeadamente por Eurípides.

Tendo-se sacrificado por Jasão, ajudando-o por amor  a vencer todos os desafios que ele enfrentou na sua saga dos argonautas e a roubar o velo de ouro a seu próprio pai, Medeia vê-se abandonada e com ordem para se exilar quando o seu marido a repudia para se casar com a filha do Rei.

A dor transforma-se então em raiva, a raiva em vingança e a vingança em sangue e morte.

As emoções humanas mais profundas, o amor, o ódio, a vingança, a angústia, ganham aqui, neste drama de desenlace rápido e brutal, vida e alma.


O texto pejado de alusões ao panteão grego e romano com a sua multiplicidade de deuses, ninfas, musas e cheio de referências geográficas da antiguidade pré cristã, hoje irreconhecíveis, não vive sem as extensas notas que felizmente aí estão para o explicar e contextualizar.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Macbeth por William Shakespeare

Acesa, por uma simples saudação, a ambição no coração do herói, partilhada esta com a mulher igualmente tomada por uma vontade desmedida, Macbeth crava mortal e traiçoeiramente o punhal assassino no Rei da Escocia Ducan, ascendendo assim ao trono.

Infeliz pela ausência de herdeiros, atormentado pelo remorso, combatendo intrigas imaginárias, perseguindo os seus fieis cavaleiros, Macbeth mantém a certeza que não será destronado porque as bruxas previram que não seria vencido “enquanto o bosque de Birnam não avançar ao teu encontro“ e que “nenhum homem que de mulher seja nascido poderá prejudicar-te”. Infeliz mas confiante Macbeth prepara-se, então, para dar luta aos seus adversários.

Uma tragédia que expõe a natureza humana no que esta tem de bom, a bravura, a lealdade, a amizade e de mau, a ambição imoderada que leva ao crime e às suas consequências o medo, fonte de novos crimes, a insegurança, a infelicidade e o remorso.


É justamente considerada obra maior de Shakespeare ele próprio um dos maiores vultos da Literatura.
O Inverno do  nosso descontentamento por John Steinbeck

Fortunas erguidas sobre crimes, trapassas e mentiras. Famílias antigas unidas pelo ódio e pelos negócios e pela política.

Usar a informação de forma impiedosa, sacrificar os amigos, denunciar quem lhe estende a mão, o caminho para a fortuna pode ser percorrido rapidamente mas significa abandonar todos os valores morais, todas as prescrições éticas e praticar secretamente todas as vilanias, esmagando tudo e todos. Uma guerra não declarada mas sem tréguas, em que tudo vale.

Mas para resultar são necessários um pouco de sorte, uma dose de astúcia e um secretismo total para não se ser descoberto.  E acima de tudo, como sabemos, aproveitar todas as oportunidades.

Ethan não hesita em dar a estocada final no seu melhor amigo, em planear um assalto ao Banco do seu futuro sócio. O seu filho educado na mesma ausência de escrúpulos, ganha um importante prémio escolar com um trabalho plagiado apenas para ser humilhado publicamente e denunciado pela própria irmã.

Este livro mostra-nos como um homem pode ser tentado a sair do seu caminho, modesto mas honrado, pela ambição e pelo apelo do dinheiro e do poder.


Este foi o último romance, embora não a última obra literária, de John Steinback tendo sido publicado em 1961 um ano antes do autor receber o Prémio Nobel da Literatura.

Á espera de Godot de Samuel Beckett


O expoente máximo do Teatro do Absurdo. Uma peça em que aparentemente nada acontece e em que as suas personagens esperam, num lugar ermo, deserto e feio, por Godot que nunca aparece.

O sentido da vida que nos escapa espalhado na espera desesperada, persistente mas inútil por alguém que nos ilumine e nos salve do absurdo árido, angustiante e inescapável da existência que flui inexoravelmente para a morte.

Godot nunca chega. Mas existe e envia dois rapazes avisar que virá mais tarde. Amanhã. Dois profetas de Godot. De Deus? Godot é descrito como sendo criador de cabras e possuindo uma barba branca. Serão verdadeiros estes jovens profetas anunciadores da vinda de Godot? São o suficiente para manter a esperança e amarrar os personagens a uma espera interminável.

A simplicidade da trama, a ambiguidade do sentido da história, os diálogos com deixas curtas e rápidas, as mudanças frequentes de humor e de tema, os sentimentos fortes que caem no desalento, tornam À espera de Godot uma obra-prima amplamente reconhecida, que continua a ser levada à cena mais de 60 anos depois de se ter estreado em Paris.

Samuel Beckett recebeu o Prémio Nobel da Literatura em 1969. 

Falar Verdade a Mentir de Almeida Garrett

Uma comédia de enganos, em que a mentira mais inverosímil e descarada se vê confirmada e transformada em realidade.

Um jovem estouvado e preguiçoso e sem profissão espera tudo sanar com a ajuda de um familiar militar. Uma jovem da sociedade portuense que tudo faz para esconder o terrível defeito do noivo e não fazer gorar o casamento. Dois criados motivados por um dote prometido. Um pai preocupado com o futuro da filha que é como quem diz com o casamento da filha.

Um retracto da sociedade burguesa liberal da primeira metade do século XIX em que os criados eram dedicados aos amos, em que os lugares públicos eram abertamente obtidos por cunhas e não por qualquer mérito profissional e em que o futuro das mulheres se decidia no casamento.


Almeida Garrett escreveu esta peça já na fase de maturidade da sua dramaturgia. Essa experiência ressalta na fluidez dos diálogos e na construção das cenas.
A Perda da Independência de Carlos Margaça Veiga

O mito do desaparecimento de D. Sebastião é aqui estilhaçado e explicado. Na verdade o corpo do Rei apareceu no campo de batalha e foi identificado por vários nobres da Corte e criados pessoais do monarca. Foi inicialmente sepultado em Marrocos na presença de vários portugueses, depois foi trazido para a Espanha por especial intervenção de Filipe II e mais tarde para Portugal onde foi sepultado nos Jerónimos.

Porquê então o mito. Porque os nobres nunca poderiam dizer que o viram morrer. Seria uma desonra ver o Rei morrer sem ter ido em sua defesa e ter morrido primeiro a defendê-lo. Seria no fundo uma confissão de cobardia ou no mínimo de incompetência.

Este livro conta-nos a história dos últimos anos de um reino que na morte de D. João III ficou em completa instabilidade dinástica para o que muito contribuiu a recusa em contrair matrimónio de D. Sebastião.


Nas cortes para aclarar a sucessão a nobreza e o clero votaram pelo Rei de Espanha e só o povo votou pela manutenção da independência. Seguiu-se a dinastia Filipina e só mais de meio século depois conseguiria Portugal reganhar a independência.
Contos Hieroglíficos de Horace Walpole

Horace Walpole, filho do Primeiro-ministro inglês Robert Walpole, viveu no século XVII, i.e. no tempo do Marquês de Pombal e do Terramoto.

Este livro publicado em 1785 teve uma edição muito reduzida, apenas 6 exemplares, e que o autor guardou para si não pondo qualquer exemplar em circulação. Compreende-se que assim tivesse sido. Os contos são surpreendentes pelo seu cariz surrealista com cem anos de avanço sobre o movimento que chocou a Europa no alvor do século XX.

Walpole refere que as histórias que conta foram escritas “um pouco antes da criação do mundo” e que foram preservadas na tradição oral das montanhas de Crampcraggiri uma” ilha inabitada e ainda não descoberta”.

Um reino que se assemelhava a uma bola prestes a levar um pontapé, cabras que põem ovos, uma noiva que não nasceu, um pretendente que já morreu, famílias que obstaculizam um doce romance entre dois seres perfeitos. Situações impossíveis, desafios às leis da física e da biologia, um sentido de humor refinado e subtil, histórias sofisticadas com finais surpreendentes, estes contos fantásticos são absolutamente pioneiros levando a Literatura para caminhos muito afastados, mas muito mais interessantes e promissores, do que os que eram percorridos pelos escritores do seu tempo. 



Viagem ao País da Manhã por Hermann Hesse

 Pode uma personagem agigantar-se e tornar-se mais real, mais consistente, mais credível, mais densa que o seu autor? Pode a obra suplantar o criador? Pode a vida de um alimentar o brilho do outro? Pode a energia, o talento do escritor transvasar, transferir-se para a personagem que imaginou, deixando-o destroçado, vazio e seco.

Na demanda pelo país da manhã cada um pode perseguir o seu próprio sonho, pode enveredar pelo melhor caminho para lá chegar, gozando de uma ampla liberdade.

Este conto tem uma dupla leitura. Como a história da Ordem espiritual que o narrador abraçou na juventude, que a dado momento pôs em causa e à qual pretende, arrependido e infeliz, voltar. É uma bela gesta, plena de magia, mistério e de interessantes e profundas lições de moral.

Mas também pode ser entendida como alegoria ao trabalho do Artista, do músico, do pintor, do escritor. Um trabalho em que a matéria-prima é o seu próprio ser e que por imperativo o Artista metamorfoseia, através da sua Arte, noutro tipo de vida mais profundo e mais puro.


Hermann Hesse ganhou o Prémio Nobel da literatura, logo a seguir à II Grande Guerra, em 19746.

Reforma do Euro por Paulo Casaca e Nerea Artamendi


Os autores partem da constatação que a crise da dívida soberana foi despoletada pelos graves desequilíbrios externos dos países afetados (Grécia, Portugal) para, retirando as ilações desse facto, proporem que seja a balança comercial e não o deficit orçamental a ser a variável a escrutinar pelas autoridades europeias.

Coerentemente propõem então que a política de austeridade extensível a todos os países da zona Euro em simultâneo seja substituída por uma política de austeridade, com desvalorização interna, i.e. redução de salários e demais custos de fatores produtivos, nos países com deficit da balança comercial e uma política expansionista com aumento de salários e da procura interna nos países com superavit na balança comercial para os obrigar a importar mais.


Naturalmente que tal política só poderia funcionar se o aumento de consumo induzido nos países com superavit fosse de produtos exportados pelos países deficitários. Se o consumo adicional for, por exemplo, de produtos chineses então a política proposta não funciona. Os países deficitários continuariam deficitários e os superavitários ficariam com um saldo inferior da sua balança comercial.

Ravelstein

Ravelstein por Saul Bellow


Bonecas, dentro de bonecas, dentro de bonecas numa regressão sem fim, as matrioshkas, as coloridas bonecas de madeira russas, são a imagem perfeita de uma viagem até ao âmago de uma questão ou problema.

Conhecer os outros pressupõe que nos entendamos a nós próprios, escrever a biografia de alguém implica expor muito de nós próprios. Mais ainda se biografo e biografado tiverem partilhado a mesma herança cultural e religiosa, sido colega no trabalho, amigo e confidente na vida privada. Nesses casos biografia e autobiografia entrelaçam-se sem que seja possível desenredar os fios multiplamente cruzados.

Como explicar o que vai no íntimo de outrem quando a morte é certa, quando o fim se aproxima, sem o ter vivenciado, sem o ter experimentado. Compreender o outro não é a vazia e superficial empatia de quem se coloca imaginariamente em pele alheia, mas, num nível mais profundo a comunhão de experiências, ter passado pelo mesmo, ter estado lá.

Saul Bellow conta-nos, neste extraordinário romance com chave, o último capítulo da história da sua amizade com o filósofo Allan Bloon o autor do muito celebrado “O fechar da mente americana” livro que lhe trouxe fama e fortuna e cuja introdução foi assinada pelo próprio Bellow.

Muitas ideias filosóficas de Bloom, que o autor recusa expressamente abordar, regressam pela porta do cavalo e são discutidas através de pequenos episódios da vida quotidiana que as confirmam ou refutam.

Uma obra que permite múltiplas leituras, nas suas múltiplas camadas, tornando-se cada vez mais apaixonante quanto mais fundo consegue ir. Como com as bonecas russas.