quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Uma noite não são dias



Uma historia de um trio que se transforma num quarteto. O roubo misterioso da coroa de Dona Matilde, Rainha infeliz.

Uma literatura leve (diz-se light em português?), bem humorada e com um toque de critica de costumes.

Um final surpreendente.

sábado, 26 de dezembro de 2009

O 18 do brumário de Louis Bonaparte




Quem com ferro mata com ferro morre


Muitos críticos de Marx acusam-no de na sociedade capitalista ver sempre presente a terrível luta de classes entre a burguesia e o proletariado. Na verdade nada mais longe do seu pensamento.

Neste livro Marx descreve, com toda a nitidez, a história do período que levou ao golpe de Estado de Dezembro de 1851 levado a cabo por Louis Bonaparte. Trata-se, sem dúvida, de uma luta de classes. Mas uma luta de classes em que o proletariado não é um actor presente. Uma luta de classes, sem tréguas e no final sangrenta, que envolve apenas várias facções da burguesia.

Este livros está cheio de surpresas para aqueles que têm de Marx uma visão estereotipada e errada. Este excerto sobre o Estado pode ser uma dessas surpresas:
Este poder executivo com a sua enorme organização burocrática e militar, possuidor dum aparelho estadual complexo e artificial, dum exército de funcionários de cerca de meio milhão de homens e de seu outro exército de meio milhão de soldados, horrendo corpo parasita, que envolve como uma membrana o corpo da sociedade francesa e sufoca todos os seus poros, constitui-se na época da monarquia absoluta, na fase de declínio do feudalismo que ajudou a derrubar” (p. 140)


terça-feira, 22 de dezembro de 2009

O Símbolo perdido


Uma longa / curta noite é o tempo que o Professor dispõe para desvendar o mistério da pirâmide e salvar o seu amigo e a Maçonaria.

A trama: um homem que quer ofercer o supremo sacrifício a fim de ascender em apoteose ao mundo dos demónios.

O cenário: Washington e a sua arquitectura repleta de construções e símbolos esotéricos.

Dan Brown escreve com o ritmo e o estilo certo.

A maldição dos trinta denários


Judas traiu Jesus por trinta moedas. Eram essas moedas denários como alguns defendem ou siclos como outros mantêm? Algures na Grécia um jovem pastor acaba de resolver o mistério ao encontrar um antigo refúgio de cristãos contemporâneos de Judas.

Uma interessante aventura de Black e Mortimer mas que está longe das assinadas por Edgar P. Jacobs.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Um discurso sobre as ciências

,
Boaventura Sousa Santos, o decano da Sociologia crítica portuguesa, escreveu este pequeno mas denso texto já lá vão mais de 20 anos. Num discurso polémico e envolvente, defende que a ciência atravessa um fase de transição, estando prestes a abandonar o actual paradigma dominante e a abraçar um novo paradigma pós-modermo que estaria a emergir do actual.

O novo paradigma cientifico estaria ancorado em quatro vectores essenciais: i) Todo o conhecimento científico-natural é científico-social (diluição das fronteiras entre as ciências naturais e as ciências sociais e fusão destas duas áreas do conhecimento) ii) Todo o conhecimento é local e total (deixando de se organizar por disciplinas e passando a fragmentar-se por temáticas transversais e pluridisciplinares – por exemplo: “fazer baixar a taxa de mortalidade infantil, inventar um novo instrumento musical, erradicar uma doença, etc.") iii) Todo o conhecimento é autoconhecimento (fundido sujeito e objecto) iv) Todo o conhecimento científico visa constituir-se em senso comum (incorporando as virtude do senso comum na utensilhagem científica).

Uma mistura de ideias sensatas e outras que à primeira vista surgem estranhas como disparates mesmo. Dois exemplos destes últimos: i) A próposito da aproximação entre ciências naturais e ciências sociais escreve que “caberá especular se é possível, por exemplo, fazer análise filológica de um traçado urbano, entrevistar um pássaro ou fazer observação participante entre computadores”. Ii) A sua proposta de reintrodução da metafisica e da religião no seio da ciência, de onde foram há muito afastadas: “A ciência moderna não é a única explicação possível da realidade e não há sequer qualquer razão científica para a considerar melhor que as explicações alternativas da metafísica, da astrologia, da religião, da arte ou da poesia”. Eu, por meu lado, encontro várias razões para tendo o meu carro avariado colocá-lo nas mãos de um mecanico treinado, mesmo que pouco, numa tradição científica, do que leva-lo a arranjar a um grande curandeiro animista poeta.

Trata-se de um livro de ficção-científica epistemológica, i.e. as reflexões de BSS condesam mais uma antecipação do que ele espera e deseja que seja o futuro do que prescrevem, ou mesmo descrevem, regras de actuação científica no mundo actual.

domingo, 15 de novembro de 2009

Classe, Status e Poder


Colectânea de artigos de Hermínio Martins (HM), sociólogo português que fez carreira académica no Reino Unido, escritos e publicados nos últimos anos da década de 60 e nos princípios dos anos 70, antes, portanto, do 25 de Abril de 1974.

O último artigo, que dá o nome ao livro, é, de longe, o mais interessante. Nesse texto HM coloca uma questão relevante do ponto de vista da análise sociologia de raiz weberiana.

HM começa por constatar que Portugal era, na época, um país homogéneo em termos culturais, sem minorias, étnicas ou linguísticas significativas, e sem, portanto, dissonâncias no status dos grupos a estas relacionados. Recorda depois a teoria salienta que nesta situação as lutas de classe se devem agudizar. De facto a teoria indica que na ausência de outras clivagens que absorvam a conflitualidade social, esta concentra-se no campo da luta de classes. Acontece que HM não vislumbra sinal de lutas de classe no Portugal do final dos anos 60. Estaria a teoria errada, pergunta.

Encontra uma resposta interessante. Por um lado a ausência de lutas de classe resultaria da própria ausência de minorias significativas. Porquê? Porque, segundo HM, essas minorias seriam, obviamente as fornecedoras de lideres para as classes subordinadas. Sem estes líderes as classes subordinadas não seriam capazes de acção organizada. A segunda razão que aponta é a emigração. As classes subordinadas teriam desistido de mudar o país, encontrando uma solução mais adequada às suas aspirações na emigração. As duas razões juntas explicariam a passividade das classes subordinadas.

Tivesse HM esperado um par de anos e, provavelmente, teria escrito algo bem diferente. Um bom exemplo de como a precipitação pode gerar uma profunda análise, inteligentemente defendida e solidamente argumentada, mas errada, como os meses que se seguiram ao 25 de Abril o demonstraram.

A aposta secular das classes subordinadas na emigração, em detrimento de um envolvimento na mudança social do Pais, é, a meu ver, uma observação que mantém toda a sua validade. As causas e as consequências desta estratégia ainda não estão hoje esclarecidas. HM teve o mérito de ser um dos primeiros a chamar a atenção para este tema.


Para uma sociologia da Ciência

Pierre Bourdieu, proeminente sociólogo francês, desaparecido em 2002, marcou toda uma geração de investigadores e académicos e foi uma das figuras dominantes do estruturalismo construtivista.

Nesta sua obra conceitos centrais do seu pensamento como “violência simbólica”, “habitus” e “campo” estão aqui bem presentes e vivas.

Pierre Boudieu ostenta por outro lado todos os tiques e defeitos usualmente associados à figura do intelectual francês, a frase grandiloquente, o exibicionismo cultural, a pretensa subtileza de conceitos auto-enrolados como “a reflexibilidade reflexa” e mesmo a frase que soa misteriosa e profunda mas ambígua ou sem sentido. Se Bourdieu tivesse prescindido desta linguagem seria sem dúvida melhor percebido e estudado e as suas contribuições à Sociologia mais valorizadas.
Um bom livro para conhecer o fundamental do pensamento de Pierre Bourdieu.

sábado, 7 de novembro de 2009

Ganchos, tachos e biscates

Do sociólogo José Machado Pais, um livro que deve ter várias leituras.

Uma abordagem ao problema da precariedade laboral dos jovens, da falta de oportunidades e da ausência de perspectivas de futuro, que arrasta uns para a toxico-dependência, outras para a prostituição, todos para um mundo de dificuldades materiais, enquanto que abre também a um pequeno grupo o acesso a apetecíveis tachos.

Um manual teórico e aplicado da entrevista, olhada e perspectivada sob múltiplos ângulos, técnicas de análise e doutrinas epistemologicas.

Histórias de vida, quantas vezes dura, infeliz e triste de jovens portugueses, contadas pela sua própria voz.

Um livro que merece ultrapassar as paredes da academia e ser apropriado pelo chamado grande público. A reflexão que pode suscitar só pode ser benéfica para o País.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Noël noir



Da pena de Jacques Martin o famoso criador de Alix, saíram também outros heróis e outras histórias. Foi o caso do intrépido jornalista Guy Lefranc, aqui numa história passada numa mina de carvão. Aí um mineiro português, um italiano e um polaco vão viver uma grande aventura da qual nem todos sairão vivos.

Uma história onde perpassam os dramas do fascismo italiano, do comunismo polaco e da emigração portuguesa.

Uma banda desenhada de qualidade acabada de editar (o álbum é de 2009).


O aniversário de Asterix e Obelix

Feliz aniversário Asterix e Obelix. 50 anos a encantar a juventude (dos 7 aos 77) que vai passando.

Um brinde a Albert Uderzo que soube manter a chama viva. Hip , hip, hurra.



domingo, 11 de outubro de 2009

Sociedade de Esquina


Um jovem investigador muda-se para um bairro de emigrantes italianos e descobre um mundo diferente daquele em que estava habituado a viver. Um clássico da sociológia. Uma investigação atribulada, mas com alma, descrita de uma forma exemplar pela sua candura e honestidade.

Excelente.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Jesusalém


Um dia Deus nos virá pedir desculpa
(página 23)

Um livro surpreendente, pleno de expressões e situações fantásticas, a raiar o delírio.

Uma primeira parte deliciosa misteriosa, filosófica, que nos faz reflectir e imaginar. Uma segunda parte, com o regresso da família Vitalício à cidade / mundo ressuscitado e com o desenlace da trama, demasiado prosaica e banal, que de algum modo desbalanceia o livro e lhe retira algum do muito lustro obtido na fase da história passada em Jesusalém.

Deveras surpreendentes são cenas como a “cerimónia do desbaptismo” ou as disputas que se traduzem em “dois dedos de desconversa”, ou as que conduzem a “uma desilusão óptica” deliciosas as frases como “Não gosto de antiguar os tempos” ou “Lá anda Zacaria com nas suas maluquinações” ou ainda “No resto, vamos vagalumeando”e “Vá lá ver o que não se passa” profundas as observações “Esperas. É isso que a estrada traz. E são as esperas que fazem envelhecer”, “E todo o bom pai enfrenta a mesma tentação: guardar para si os filhos, fora do mundo, longe do tempo”.

Excelente livro. O melhor que li dos editados este ano.

domingo, 20 de setembro de 2009

Tudo o que sobe deve convergir

Há pessoas que se deixam ficar para trás, que não percebem que os tempos mudaram, que persistem nas velhas maneiras do passado que sempre conheceram e em que prosperaram, foram bem sucedidas e felizes. Elas são, paradoxalmente, uma prova da evolução social e dos costumes. Elas são como que um museu ambulante, mostrando, pelo seu comportamento e pela sua atitude, o que era o antigamente.

Mas nos novos tempos estão desajustadas e é só uma questão de tempo até que a nova realidade, brutalmente, por vezes mesmo mortalmente, se lhes imponha.

As personagens de Flannery O´Connor são estas pessoas desajustadas do seu tempo e modo, personalidades que perderam o comboio da transição e ficaram perdidas no tempo, sem mapa comportamental para os dias em que ainda vivem. Os racistas rurais, cheios de superioridade e condescendência com os pretos, os cristãos fundamentalistas, os bem-intencionados ingénuos da província, todos desprotegidos no mundo moderno. Agarrados a ideias passadas, agindo como se o mundo fosse o dos seus anos de juventude, afundam-se lentamente e agonizam na nova sociedade.
A verdade é que todos os tempos são tempos de transição.

sábado, 19 de setembro de 2009

Northlanders - The Cross + The Hammer



Northlanders é o título de uma revista mensal de Banda desenhada editada pela Vertigo e criada por Brian Wood, o aclamado e muito premiado autor norte-americano.


A violência excessiva, a excessiva simplicidade narrativa, a linearidade do argumento, a brutalidade dos personagens desgostaram-me se bem que tenha apreciado o estilo gráfico.

No site de Brian Wood ( http://www.brianwood.com/downloads.html ) é possível fazer o download de algumas história da série Northlanders.

domingo, 13 de setembro de 2009

Djamila


Uma comovedora história de amor de um autor soviético, jornalista durante anos no jornal Pravda.

A vida pulsa forte na pequena aldeia quirguíze na margem tumultuosa do rio Kurkureu, o Verão está no auge e o marido da bela Djamila combate na guerra contra a invasão alemã. Um canto na pradaria e um saco pesado demais vão mostrar o carácter de um homem.

Uma pequena obra prima.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Histórias de 1 minuto


Histórias muito curtas com um humor subtil. Excessivamente húngaras.

sábado, 29 de agosto de 2009

Utilitarianism


“The greatest good for the greatest number of people"

Qual é o critério que permite distinguir as acções boas e correctas das más e incorrectas? A resposta de John Stuart Mill, um dos mais influentes pensadores liberais, deve encontrar-se nas consequências dessas acções. Se a acção contribui para o aumento da felicidade ela é boa, se contribui para a diminuição da felicidade ela é má. Felicidade de quem? Não de uma ou outra pessoa mas a felicidade total da Humanidade, em que a felicidade individual de cada um conta de maneira igual. Este princípio básico, que dispensa, mas não exclui, a religião, enunciado por Jeremy Bentham é conhecido por utilitarismo, designação que pode ser enganadora, ao sugerir algo menos nobre e mais prático.

Em poucas páginas John Stuart Mill expõe, de forma densa mas muito clara, os princípios básicos do utilitarismo e rebate as principais objecções que a este se contrapunham.

Hoje o utilitarismo é uma das filosofias dominantes no ocidente, nomeadamente no mundo anglo-saxonico. Lamentavelmente as obras de Jeremy Bentham e de John Stuart Mill, com uma ou outra excepção, não se encontram ainda traduzidas para português.
E se em geral concordo com o princípio base do utilitarismo, discordo de muitas das conclusões práticas propostas por Bentham ou por Mill, na medida em que nestas o Homem surge reduzido apenas aos membros de um grupo específico.

O livro inclui um segundo texto de John Stuart Mill, um discurso sobre a pena de morte em que o autor defende a sua aplicação no Reino Unido.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Combateremos a Sombra





Parole, Parole, Parole, Parole, Parole
encore des Paroles que tu sèmes au vent

Encore des mots toujours des mots
les mêmes mots
Rien que des mots



Parra, muita parra e pouca uva. Palavroso assim é este livro de Lídia Jorge. As mais simples e lineares ideias são expressas com dezenas e dezenas de palavra, que sem contribuírem para uma melhor explanação do conceitos, nem para uma melhor nitidez dos episódios, nem mesmo para um recorte mais preciso das personagens, concorrem para tornar o texto chato, aborrecido, sem ritmo nem cadência. Daria um excelente filme da escola portuguesa a la Manuel Oliveira.

A história é de uma linearidade acabada, tudo alinhado do princípio ao fim, sem uma surpresa, sem um desvio. O herói do romance é um psicólogo, Osvaldo Campos, perdido num mundo que não conhece mas em que pretende ingenuamente actuar. O seu perfil é inverosímil, um ser tão incauto, que sabendo que vinte e uma personalidades de peso da sociedade estão implicadas numa rede criminosa desata a enviar cartas a tudo o que é instituição declarando-se pronto a testemunhar, tão sincero que tendo posto a namorada a salvo no estrangeiro depois conta a toda a gente onde ela está. A sua estupidez é deveras surpreendente.

Pior Osvaldo Campos é um psicólogo incompetente, seguidor tardio de Freud - hoje visto mais como um avô desta ciência do que como alguém cujas ideias ainda sejam seguidas.

Enfadonho. Não gostei. Muito fraco.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

A Conquista da Felicidade



Devo confessar uma admiração pela vida e obra de Bertrand Russell, um Homem da renascença em pleno século XX. Russell distinguiu-se como filosofo, matemático, historiador. Mas acima de tudo como grande humanista, moralista e pensador progressista.

Livros como Porque não sou Cristão (Why I Am Not a Christian, 1927) e O que eu acredito (What I Believe, publicado em 1925) foram decisivos na minha formação como ser humano.

Neste livro – A Conquista da Felicidade - Russell começa por, de forma lógica, límpida e sustentada apresentar as causas da infelicidade e as maneiras de as combater para, de seguida, numa segunda parte, enumerar e caracterizar os ingredientes que o Homem pode juntar para tornar a sua existência feliz e para contribuir para a felicidade dos que o rodeiam.

A infelicidade nasce do espírito de competição, do aborrecimento, da fadiga (aqui incluída o que chama de fadiga emocional e que comummente designamos por stress), do sentimento de culpa, da mania da perseguição, do medo da opinião pública (a opinião dos outros). A estas adiciona outras duas: a inveja e a infelicidade byroniana.

A infelicidade byroniana é de carácter intelectual e consiste na crença de que nada vale a pena (Os rios correm para o mar e o mar não enche / Não há nada de novo debaixo do Sol). A esta ideia contrapõe o amor que na sua definição ´”é intrépido e vigilante, permite ao mesmo tempo o conhecimento do bem e não implica o esquecimento do mal, nem pretende ser sagrado ou santificado”. E acrescenta “...o amor é uma fonte de prazer, mas também a sua ausência é uma fonte de sofrimento. Em segundo lugar, o amor deve ser apreciado porque dá realce aos melhores prazeres da vida, tais como ouvir música, assistir ao nascer do sol nas montanhas, o ver a luz do luar espelhada nas águas”.

Sobre a inveja, não obstante considerá-la como uma causa de infelicidade, escreve: “A inveja é a base da democracia.”. Será?

A inveja surge devido às desigualdades entre as pessoas. Mas como combater a inveja? Russell escreve: “Logo que se examinam as desigualdades, descobre-se a sua injustiça, a não ser aquelas que assentam nalguma superioridade de mérito. E desde que as consideremos injustas não há outro remédio para a inveja que delas resulta senão a eliminação da injustiça.”

O gosto de viver, a afeição pelas pessoas e pelas coisas, a família, o trabalho, os interesses impessoais (a que chamaríamos hobbies), o equilíbrio entre esforço e resignação são os ingredientes que fazem o homem feliz.

Um excelente livro.

domingo, 23 de agosto de 2009

O Caderno


Um diário com, passe o paradoxo, meditações espontâneas sobre o quotidiano, sobre os dias que passam (“...dos dias sabemos nós que são iguais mas não se repetem.”) e os acontecimentos, públicos e privados, que os preenchem.

Já conhecidas são as reflexões sobre a sociedade actual - “Os mais de sete mil milhões de habitantes deste planeta, todos vivem no que seria mais exacto chamarmos a civilização mundial do petróleo” – e sobre o sistema político – “... que se é verdade serem os povos governados, verdade é também que não o são por si mesmos nem para si mesmos. Não é em democracia que vivemos, mas sim numa plutocracia que deixou de ser local e próxima para tornar-se universal e inacessível...”.

Certeiro é, em minha opinião, o que diz sobre a esperança que políticos e sacerdotes não cessam de apregoar – “Dantes ao pobre de pedir a quem se tinha acabado de negar a esmola acrescentava-se hipocritamente que <>. Penso que na prática aconselhar alguém a que tenha esperança não é muito diferente de aconselhá-lo a ter paciência”.

Oportuna é a sua defesa dos palestinianos, vítimas do terrorismo israelita ("...matar em nome de Deus é fazer de Deus um assassino...”) e a denuncia dos crimes da ditadura argentina, nomeadamente dos cometidos pelo padre católico Christian von Vernich.

Excessiva e errada é a sua opinião de que as FARC colombianas, organização guerrilheira que combate à várias décadas, muito antes de Bush ter iniciado a guerra ao terrorismo, são uma organização terrorista.

Este livro é, também, uma porta aberta, uma pista traçada no papel para a descoberta de um grande conjunto de intelectuais, escritores, fotógrafos, teólogos, filósofos e mesmos economistas de grande qualidade mas cuja obra é praticamente desconhecida em Portugal. Aqui ficam alguns nomes: Basílio Baltasar, Juan José Tamayo, Angel González, Gervásio Sánchez, Lilly Ledbetter, Hans Kung, Andrea Camilleri, Paolo Flores dÁrcais, Carlos Fuentes, Frederico Mayor Saragoça, José Luís Sanpedro, Rita Levi-Montalcini, etc, etc.

sábado, 22 de agosto de 2009

Três Lições sobre o Estado-Providência

O Estado Providência está em crise proclamam os conservadores porque vivemos anos demais asseguram, porque é excessivamente generoso concordam os socialistas que, no poder, aproveitam para eliminar prestações sociais na saúde, diminuir as pensões e aumentar o tempo de trabalho. Estes discursos gastos e políticas erradas enchem os jornais, povoam os debates televisivos, convenceram muitos sindicalistas e eleitores.

O Professor dinamarquês Gøsta Esping-Andersen apresenta-nos em 3 esplêndidas lições uma análise serena e fundamentada, longe dos slogans panfletários neoliberais, os desafios colocados ao Estado Providência e pistas para os enfrentar com êxito.

Para Gøsta Esping-Andersen o grande desafio ao Estado Providência é a revolução feminina cujos efeitos na demografia, com a forte redução da natalidade, tem levado ao envelhecimento das sociedades actuais (“A rapidez com que a sociedade actual envelhece é, em larga medida, um dos efeitos desta revolução feminina” página 40).

O novo papel da mulher na sociedade requer alterações profundas nas políticas sociais do Estado Providência. (“É um paradoxo dos nossos tempos que as políticas familistas impeçam a fundação da família” página 43)

O que propõe Gøsta Esping-Andersen? Um período de licença pós parto longa (de cerca de 1 ano), a disponibilização de uma rede de creches pública e gratuita para crianças de 1 ano até aos 3 anos, a antecipação da idade escolar para os 3 / 4 anos, generalizando o ensino pré-primário.

O objectivo? Permitir às mulheres terem filhos (aumentar a taxa de natalidade – “Está empiricamente provado que a existência de cuidados de infância faz aumentar a fecundidade” página 47) e voltar ao trabalho (aumentar a população activa – nos países onde a licença de maternidade é mais longo e onde existem serviços públicos de guarda de crianças a taxa de regresso ao trabalho é mais elevada).

E como pagar estas novas despesas sociais (o autor prefere chamar-lhes investimentos)? Gøsta Esping-Andersen calculou que, para uma mulher que receba 67% do salário médio e que tenha dois filhos, os custos para as duas crianças associados com 2 anos de creche e 3 de pré-primária poderiam ascender a 72 mil euros e que as receitas fiscais decorrentes de manter a mulher a trabalhar durante mais 30 anos serão de 110 mil Euros. O Estado ganha assim mais 30 mil Euros com esta política social. A sociedade em geral ganha muito mais. O social paga-se a si próprio. Já o intuíamos, Gøsta Esping-Andersen, prova-o cientificamente.

Soluções interessantes são também apresentadas sobre a educação e os cuidados a idosos.

Particularmente interessante é a constatação que a pobreza infantil, tão extensa no nosso país, tem custos económicos enormes. Um estudo levado a cabo nos EUA avaliou esse custo “em 4% do PIB, dos quais 1,3% é imputável à redução de produtividade, 1,3% à criminalidade e 1,2% aos efeitos sobre a saúde.”. De facto os gastos com o sistema judicial, as prisões são elevados e os gastos com a saúde mais precária de quem é pobre são elevados e pagos pelos impostos de todos. Uma política eficaz como a dos países nórdicos de redução significativa da pobreza infantil custa 3% a 4% do PIB. O custo é o mesmo a questão está em como gastar mais eficazmente: reduzir a pobreza infantil ou gastar em cadeias e custos de saúde evitáveis?

Livro do maior interesse que recomendo a todos os que queiram perceber o futuro do Estado Providência e as opções que se abrem em termos do seu futuro.


sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Salgalhadas na Lusolândia



O segredo que a misteriosa Professora Maria Adelaida responsável da Informática da cimeira internacional reunida em Lisboa descobre pode alterar o curso da História e salvar milhões de seres humanos de uma morte friamente planeada. Com os terriveis serviços secretos portugueses no seu encalço será ela capaz de dar a conhecer ao mundo a horrível verdade?


Salgalhadas na Lusolândia é uma história divertida que, com humor e leveza, caricatura a sociedade portuguesa actual e a sua limitada classe política.

Uma vergonha para o submundo editorial cá da terra que Salgalhadas na Lusolândia apareça em edição do autor, quando tem todos os ingredientes para, com a adequada chamada de atenção do público, ser um best-seller.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

A Voz Humana


Uma peça de teatro para uma só actriz. Toda a acção na voz, nas infindas entoações sonoras que transmitem, para além das palavras pronunciadas, os sentimentos, as emoções e as sensações. A voz que mente e que diz a verdade, a voz que oculta ou que descobre, a voz que media entre o Eu e o Outro.

Uma mulher fala com o antigo amante. Triste mas cordialmente fazem as últimas despedidas, até que uma queda acidental de linha, faz com que a mulher descubra que o homem lhe está a mentir. A partir deste momento o tom muda, chora o amor perdido, confessa uma tentativa de suicídio e despede-se com uma longa declaração de sofrimento e amor.

Um diálogo de que se ouve apenas um interlocutor não se transforma num monólogo, mas pode ser percebida como tal. E este engano, de que a personagem fala consigo mesma quando na verdade fala com o antigo amante, leva a que lhe atribuamos imediatamente a ela toda a razão. A descoberta da mentira dele impele-a a finalmente romper com a falsa amistosidade e a contar a triste Verdade. Mas será assim?

Poderá ser que ao perceber a mentira dele, também ela tenha começado a mentir? O ciúme pode ter desencadeado uma vontade de o levar a ter pena dela, a sentir remorsos por a ter abandonado.

Esta ambiguidade não encontra resposta no texto, só pode ser desfeita pela actriz, que com a sua voz, uma voz humana, pelo tom que colocar nas palavras, pela ênfase que der ao texto, nos fará inclinar por uma ou outra solução.

Uma obra-prima.

sábado, 25 de julho de 2009

Terror e Miséria no III Reich

Um catalogo de fragmentos e episódios que ilustram de forma eloquente a vida quotidiana sob o jugo regime ditatorial de Hitler.

Esta peça teatral composta de múltiplos quadros independentes, aparentemente desconexos, em que cada cena nos mostra uma faceta do regime, em que as personagens cumprem todo o seu papel numa aparição breve que contudo as não diminui nem lhes retira força, encontra a sua unidade no seu título – Terror e Miséria no III Reich.

Leitura obrigatória para quem deseje compreender o regime fascista alemão. Leitura obrigatória para quem pensa que os alemães eram nazis. De facto os nazis eram alemães mas a grande maioria dos alemães não era nazi e isso faz toda a diferença.

domingo, 19 de julho de 2009

No Café da Juventude Perdida



Live fast, die young and leave a good-looking corpse
Frase do filme Knock on Any Door (realizado por Nicholas Ray)


Num anúncio de televisão antigo uma mulher elegante passeava furtiva, mas com segurança, pelo passeio, rente às casas, de uma rua, que se imagina Paris mas que poderia ser a Madragoa, mal iluminada por um vestuto candeeiro.

A aura de mistério dada pela escassa iluminação, pela estranheza da presença feminina naquele local e àquela hora que se advinha tardia, aliava-se à sofisticação dos saltos altos e da forma de vestir e à temeridade e espirito de aventura de quem se arroja de noite por ruas escuras e, pressentimo-lo, perigosas, era adequada ao perfume que pretendia promover.

O livro de Patrick Modiano podia ser inspirado neste anúncio, dando contexto e texto às breves imagens do reclame, dando drama e vida à enigmática rapariga.

sábado, 11 de julho de 2009

Trilogia Suja de Havana



A publicação de um autor como Pedro Juan Gutierrez em Cuba é uma mostra que nesse país a liberdade de expressão não é, como muitas vezes se repete, letra totalmente morta. Claramente este não é um livro de exaltação das virtudes do socialismo fidelista. Aliás este não é um livro de exaltação de virtudes, antes de exposição e assunção despudorada de múltiplos e variados defeitos morais e éticos.

A arte vista por Pedro Juan Gutiérrez

Não me interessa o decorativo, nem o bonito, nem o doce, nem o delicioso ... A Arte só serve para alguma coisa se for irreverente, atormentada, cheia de pesadelos e de desespero. Só uma arte irritada, indecente, violenta, grosseira, pode mostrar-nos a outra face do mundo, a que nunca vemos ou nunca queremos ver para evitar incómodos à nossa consciência.” (página 105)

Pedro Juan mostra-nos uma “outra face do mundo”, a face do esquema, do trafego, do crime, da miséria moral, da falta de escrúpulos, a face de uma fauna que gostamos de pensar que está solidamente atrás das grades e não nas ruas das nossas cidades.

Pedro Juan Gutiérrez inscreve-se num movimento literário mais amplo de que ele é apenas um autor tardio e algo periférico: o realismo sórdido, dirty realism na expressão cunhada para Charles Bukowski (1920-1994). A influência de Bukowski é bem notória, chegando a identificação ao ponto de o personagem da Trilogia ter sido casado com uma escultora, emulando a relação de Charles Bukowski com Linda King. Como Bukowski, Pedro Juan descreve uma perfusão de ligações amorosas numa linguagem gráfica que raia o pornográfico e que lhe servem de inspiração, tema ou pano de fundo dos seus contos curtos.

Assumir uma moral desviante e marginal

Pedro Juan Gutiérrez escreve na primeira pessoa. A este “eu” do narrador acresce um nome Pedro Juan – exactamente o seu. Não quer deixar espaço a qualquer distanciação do autor em relação ao personagem. Quer assumir por inteiro a atitudes, postura, a conduta que descreve.

Uma ética repelente, viciosa, desviante e marginal.

A recusa do trabalho sério e a preferência pelo marginalidade, “Ao fim de um ano de recolha de lixo, larguei esse trabalho. Era duro demais. E de madrugada. Pagavam bem, mas não valia a pena. Com um negociozito qualquer, consigo o mesmo dinheiro, e mais, num só dia.” (pagina 263), que levam directamente às actividades mais escabrosas, “Depois dediquei-me a uma coisa mais fácil e que dá mais dinheiro. Dei em gigolo. Mas com as velhas. Com as turistas.” (página 224). Naturalmente que em qualquer sociedade civilizada este tipo de escolhas propiciam visitas, mais ou menos prolongadas, à cadeia, uma experiência que lhe permitiu descobrir que “Na prisão não há amigos” (página 222).

A vida que escolhe deixa-o, naturalmente, insatisfeito “Uma pessoa está cheia de fúria e de raiva e precisa descontrair. Todos sabemos como: álcool, sexo, drogas”. (página 221). E de facto o rum, as mulheres de má vida e a marijuana são presenças permanentes na vida de Pedro Juan.

Para manter esses vícios recorre a todos os meios, sem bem que com consciência plena da miséria em que se afunda. Note-se a auto-ironia da última frase. “Uma tarde agarrei Luisa com a maior das naturalidades e disse-lhe «Ouve lá, chega de não fazer nada e passar fome. Gira para o Malecón e toca a engatar!» E foi uma boa decisão. Esta mulata tem semanas que faz trezentos dólares. Irra! Basta de miséria!” (página 202).

E como todo o marginal queixa-se dos outros para justificar a falta de dignidade própria “Mas a pobreza tem muitas caras. A sua cara mais visível é talvez a capacidade que tem de nos despojar da grandeza de espirito. Ou pelo menos da largueza de espirito. Concerte-nos em tipos ruins, miseráveis, calculistas. A única necessidade é sobreviver. E p´ro caraças com a generosidade, a solidariedade, a amabilidade e o pacifismo” (página 153). Soa bem mas não é verdade. Onde medraram as ideias de generosidade, de solidariedade e de justiça senão junto dos pobres?

Racismo

Múltiplas são as alusões racistas nesta obra. Os negros são sistematicamente apelidados de porcos, sujos, brutos e agressivos. As mulatas de ninfomaníacas. E claramente uma das formas que Pedro Juan deliberadamente usa para chocar, para se exibir chafurdando orgulhosamente na miséria moral é a descrição das suas ligações sexuais com negras e mulatas. Como se descreve-se relações com animais.

Política

Há três níveis de leituras políticas desta obra. A directa – há crime, privações materiais e miséria moral em Cuba e isso é culpa do regime.

A indirecta – o crime, a marginalidade, o vicio simplesmente existe em qualquer sociedade. E que é um dos direitos do Homem poder rebolar-se na porcaria Uma liberdade a preservar. Recorde-se que Pedro Juan, escolhe livremente este tipo de vida. Num dos contos um cubano emigrante na Alemanha volta de férias a Cuba com a mulher alemã e os filhos comuns. E o que faz? Aloja-se num bairro sujo e degradado e corre a embebedar-se de rum e a procurar mulheres da vida. Nesse sentido Cuba é a pátria de uma certa liberdade debochada que não encontra numa Alemanha mais civilizada.

E uma terceira em que o leitor suspeita que em Cuba a polícia não actua com a dureza que se impõe e que a liberdade se estende para além do que é aceitável, como no abominável caso em que um trabalhador da morgue retirava o fígado dos mortos e o vendia aos vizinhos como fígado de porco.





Para saber mais sobre Pedro Juan Gutiérrez:
http://www.pedrojuangutierrez.com/Biografia_portugues.htm

Para saber mais sobre Charles Bukowski:
http://bukowski.net/

domingo, 28 de junho de 2009

Mirandés Stória dua lhéngua i dun pobo



Banda desenhada em língua mirandesa que conta a história da região de Miranda e da sua lhéngua.

O mirandês é a menos falada língua de origem asturo-leonesa encontrando-se hoje, quando conta com menos de 15.000 pessoas que a têm como idioma materno, à beira da extinção. Durante muito tempo considerada apenas como um português mal falado só recentemente foi consagrada como língua minoritária em Portugal, um estatuto, aliás, inútil já que nada é feito para a preservar e perpetuar.

A tradução do pertués para o mirandês é de Amadeu Ferreira, o homem que mais tem lutado pela língua da sua terra natal.

Marketing Digital


Um manual de sobrevivência no mundo virtual, um mapa de nos guia aos tesouros escondidos de uma utilização eficaz e proveitosa da internet.

domingo, 21 de junho de 2009

Morreste-me

A dor que deveras sente
Fernando Pessoa



Uma dor intensa, sofrida, imensa, omnipresente, em tudo se infiltrando, tudo usando como instrumento de tortura (“Tudo o que te sobreviveu me agride”). O que um filho sente quando perde um Pai.

Um texto espontâneo, pesado e verdadeiro. Três características tornam este livro notável no panorama literário português:

· A areligiosidade – num tema como a morte, a espiritualidade e a religião infiltram-se com facilidade e com frequência. José Luís Peixoto consegue abordar o tema sem recurso a crenças ou devoções, sem invocar a vida eterna. Sem essa esperança a morte torna-se mais definitiva, mais dura, mais real.


· A veracidade - quando alguém desaparece a tendência dos escritores do País é para o panegírico, para a evocação de qualidades sempre aumentadas, exageradas e amplificadas, que transformam o defunto naquilo que não era verdadeiramente. José Luís Peixoto não segue por esse caminho, o Pai que emerge do seu livro é uma pessoa de carne e osso, presente na educação dos filhos, mas frágil e indefeso perante a doença (“... e nós a vermos o sangue alastrar-te nas calças e no casaco de pijama. Pai que nunca te vi tão vulnerável, olhar de menino assuntado perdido a pedir ajuda. Pai, meu pequeno filho.”). Não é um herói inverosímil, mas tão só um ser humano que podemos identificar.


· A dignidade – aqui não há lugar para lamúrias, nem carpideiras, não há espaço para a pieguice, nem para a auto-vitimização, do tipo “porquê eu?”, “coitado de min”, que transmigra o foco da atenção do morto para o que chora, mas à custa da dignidade deste último. Aqui existe apenas a dor e a memória. Assumidas com verticalidade.

A ausência da religiosidade, o evitar do caracterização laudatória e a dignidade na adversidade, sem queixumes nem lamentos, afastam este livro da abordagem tradicional deste tema, e consagram este livro como uma obra maior da literatura contemporânea portuguesa.

A escrita flui num ritmo de choro digno, assumido, sentido. O texto poderia ser teatralizado, no que seria um monologo comovente.

Num país em que a edição literária aposta apenas nos filhos de família, que faz passar por escritores, e em que o único Nobel português vivo foi escorraçado para o estrangeiro, José Luís Peixoto teve, naturalmente, de recorrer à edição de autor para que o seu livros chegasse aos leitores. Ainda bem que o fez.


sábado, 20 de junho de 2009

As três vidas


Uma história sem credibilidade nem imaginação, personagens sem densidade nem consistência, uma escrita pobre, cheia de repetições de palavras e de frases, uma narrativa simples e insossa eis as características principais deste livro de João Tordo, um jovem autor na corda bamba.

O título do livro é o mesmo que Gertrude Stein deu, em 1909, à sua primeira obra publicada.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Le Sphinx D´Or


Le Sphinx D´or, publicado anos antes de eu ter nascido, foi o segundo livro da série Alix. O primeiro álbum com este jovem herói, Alix L´intrepide, tinha sido lançado oito anos antes, em 1948.

É nesta aventura, que começa na Gália no cerco a Alésia e termina junto às águas do Nilo, que aparece pela primeira vez Enak, o jovem egípcio que se vai transformar no companheiro inseparável de Alix.

Para conhecer mais sobre a obra de Jacques Martin veja-se o site:
http://www.alixintrepide.org/#

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Ewald Tragy



“Pertencer a uma comunidade sem respeitar as suas
regras é uma deslealdade para consigo próprio ...” (página 50)

Dois temas distintos tratados sequencialmente. Primeiro em Praga o jovem Ewald luta por se libertar da tutela do Pai, no eterno combate da juventude para se afirmar, para mostrar às gerações precedentes o seu valor e para conduzir de forma independente a sua vida rumo à concretização dos sonhos. É um combate difícil porque a vontade vacila já que se terá de impor aos que mais ama – no caso de Ewal o seu Pai – e porque é insegura e tímida.

Depois, com a mudança de cenário, Ewald sai de casa e muda-se para Munique, o tema muda, ou antes encontra uma outra variação. A do jovem artista torturado que se debate, indeciso, entre duas concepções do mundo e da Arte. A ambas adere entusiasmado para, de seguida, ambas rejeitar. É a personalidade a libertar-se das influências, se bem que benignas, alheias e a trilhar finalmente o seu próprio caminho. É a entrada na idade adulta.

Um livro escrito quando Rainer Maria Rilke tinha pouco mais de 20 anos e que, por ser demasiado autobiográfico, o autor nunca quis publicar em vida.

“Precisamos de uma arte suprema ... Sinais que ardam sobre todas as montanhas, de país para país – uma arte que seja um apelo, uma arte de alarme” (página 52)


La cité engloutie



O último Alix, acabado de publicar ainda este ano e ainda sem tradução para português, saído das mãos de Jacques Martin o seu criador já lá vão mais de 60 anos (as primeiras aventuras surgiram na revista belga Tintin em 1948). O rigor histórico dos cenários e dos acontecimentos é uma marca bem clara desta série.

A conquista da Gália pelos romanos encontrou forte resistência dos gauleses espiritualmente dirigidos pelos seus druidas. Eis o cenário para esta magnifica aventura do jovem herói.

sábado, 30 de maio de 2009

Blackjack




Os quatro tomos da série de banda desenhada Blackjack (Blue Belle, Laura, L´as de coeur e Alfonso) de Steve Cuzor, publicados entre 1999 e 2006, reunidos num só volume.

As desventuras de quatro rapazes que crescem em Blue Belle um bairro do Brooklyn nas margens do East River em Nova Iorque durante a Grande recessão. A miséria e o crime são as constantes do dia a dia destas crianças. As ruas apinhadas, as linhas-férreas abandonadas, os becos imundos, as caves abandonadas, o banco de trás de carros, são os cenários onde se desenrola o drama.

Entre os personagens um padre que faz contrabando de álcool e acaba morto, um anão que confirma o ditado que “quem com ferro mata, com ferro morre”, um polícia que recebe dinheiro da máfia e o célebre gangster de Chicago Al Capone.

domingo, 24 de maio de 2009

O Desenho no Tapete


“ ... ela sentia em itálico e pensava em maiúsculas” (página 35)

O drama da obsessão que toma conta de uma vida, o desespero provocado por um enigma que não se consegue deslindar e que para todo o sempre se manterá irresolúvel. O desenho no tapete será sempre invisível para aqueles que mais o querem ver.

A felicidade de saber um segredo e não o revelar, de conhecer a chave do mistério e não a partilhar, a fidelidade a um amor e a uma procura. A alegria de ver o que aos outros está vedado.

Um belo livro. Estaria Henry James a dizer-nos que também ele desenhou algo oculto e maravilhoso no tapete da sua obra? Quem conhece então esse fantástico segredo?

sexta-feira, 22 de maio de 2009

O Tesouro



Um conto ingénuo e moralista de Selma Lagerlöf a primeira mulher a ganhar o Prémio Nobel da Literatura.

O tesouro guardado na arca do senhor Arne leva ao crime mas também permite apanhar os assassinos. O amor da jovem Elsalill que tem tanta força que perdoa ao assassino da sua família adoptiva quando pensa que ele se arrependeu e que se transforma em coragem ao ver que se trata apenas de uma falsa contrição do escocês. O mar que por vontade divina não degela até os bandidos estarem presos impedindo-os de levantar ferro e zarpar. A Suécia, as suas ilhas, e os caminhos do mar percorridos em carroças puxadas a cavalos.

Um pequeno livro que se lê num sopro.

domingo, 17 de maio de 2009

O matricídio e outras histórias


Será possível que um ser humano odioso, um criminoso, uma pessoa que teria passado melhor o seu curto tempo de vida na cadeia do que em liberdade, possa ser simultaneamente um escritor de algum mérito? Aparentemente é. A capacidade de escrita parece ser independente da fibra moral. Mas obviamente que o caracter do autor acaba sempre por emergir sua obra.

Géza Csáth, neurologista, aproveitava a sua condição de médico e de autoridade para satisfazer os seus apetites sexuais com as mulheres que encontrou no hospital psiquiátrico em que trabalhava, as criadas, as enfermeiras, as familiares dos doentes e mesmo as doentes eram as suas presas. Tudo apontou minuciosamente no seu Diário. Tornou-se depois viciado em morfina. Foi expulso do exercito por mau comportamento. Matou a própria mulher a tiro de revolver. A sua vida é um rol de sucessivos vícios, baixezas e violências sobre os mais fracos.

A sua obra porém é de qualidade. A sua obra deve ser recordada e lida. O autor deve ser conhecido, criticado e desprezado.

Mas mesmo na sua literatura os defeitos de Géza Csáth transparecem. Pista seduz a sua amada com dois bofetões e daí retira lições sobre a arte de conquistar o coração feminino. Dois irmãos matam a mãe, vão lavar os dentes e seguem para a escola como se nada fosse. Mesmo no seu melhor texto “O silêncio Negro” um irmão estrangula o outro.

Os seus contos foram publicados sob o título “Contos sem final feliz”. Géza Csáth também não teve um final feliz. Acabou por se suicidar. O mundo perdeu então um pulha e um escritor.


sábado, 16 de maio de 2009

Histórias Extraordinárias

"No sentindo que aqui lhe atribuo é, na realidade, um mobile sem
motivo, um motivo não motiviert."
(página 76 no conto O demónio da perversidade)



Edgar Allan Põe reflecte nestes contos sobre a natureza do Mal, a sua irresistível atracção sobre certas almas e a luta desesperada que se trava na mente humana que tenta em vão resistir à horrível tentação.

O Mal praticado sem motivação, sem explicação racional, sem ganho ou mesmo com enorme prejuízo, fascina o autor e inspira os melhores textos deste livro. Conclui que o Mal se impõe ao malfeitor como um “impulso radical, primitivo, elementar”. O que, obviamente, não diminui a responsabilidade do criminoso, nem desculpa as suas pavorosas acções. Aliás muitas das personagens de Põe vivem para sempre atormentadas pelos crimes que cometeram.

sábado, 9 de maio de 2009

Contos Vermelhos e outros escritos



Pequenos contos de Soeiro Pereira Gomes sobre a vida dura e penosa dos portugueses da sua (e nossa) época. Quadros realistas descritos com emoção e ternura. Figuras como Rosinda a mulher que a miséria e a fome empurram para a venda do filho mais velho ou o pastor que morre atropelado com o filho nos braços, surgem-nos bem vivos e em carne e osso, como se as conhecêssemos, como se fossem nossos conterrâneo menos afortunados.

Entre os 15 contos reunidos neste livro, três ou quatro tem como personagens militantes clandestinos de um partido oposto à ditadura de Salazar que, não sendo explicitamente denominado, se advinha ser o Partido Comunista Português de que Soeira Pererira Gomes era membro e dirigente. Nesses textos uma figura sobressai, o camarada Alexandre, personagem dotada de grande coragem e abnegação à causa dos mais pobres e vulneráveis. No último texto do livro o autor desvenda comovido o verdadeiro nome do camarada Alexandre que sendo um pessoa bem real acabara (Junho de 1945) de ser assassinado em Bucelas.

Excelente livro, oportunamente publicado no ano do centésimo aniversário do nascimento do autor que veio ao mundo a em Abril de 1909. A ordem escolhida pelos editores para apresentação dos contos no livro ganharia em ser outra.

domingo, 3 de maio de 2009

Um Homem muito procurado


Não foi teu irmão? Foi o teu pai
ou senão foi teu avô.
Disse o Lobo carniceiro.
E ao Cordeiro devorou.
Onde a lei não existe, ao que parece,a razão do mais forte prevalece
La Fontaine


Os famosos Lipizzaner descendentes dos cavalos de Cartago, como os cisnes, nascem pretos mas ficam brancos quando crescem e se tornam adultos.

As heranças queimam, moldam a fogo o nosso destino. Todos os protagonistas têm heranças que os atormentam, Brue, ultimo descendente de uma família de banqueiros privados, digere mal a criatividade de seu pai o inventor das refinadas contas Lipizzaner. Issa Karpov rejeita a herança do pai e recolhe-se na memória e cultura da mãe que não chegou a conhecer. Annabel a advogada rebelde quer libertar-se de uma família de sucesso. Todos expiam os pecados que não cometeram, os erros das gerações que os precederam.

A lógica perversa dos serviços secretos disposta a tudo sacrificar e a brutalidade, estupidez e a supremacia da lógica americana das prisões secretas, das deportações ilegais, da tortura.

terça-feira, 28 de abril de 2009

O Coração das Trevas


“O horror. O horror” – Estas foram as últimas palavras do eficiente colonialista Kurtz que vivia no coração da floresta numa casa rodeada de estacas encimadas com cabeças humanas decepadas. E de facto é de horror e de trevas que versa esta história de marinheiros que nos conta o escritor polaco Jósef Konrad Korzenlowski, aliás Joseph Conrad.

Kurtz profere o discurso mais sincero e exaltante sobre o Amor e o Bem mas simultaneamente dá vida ao que de mais repugnante e abjecto pode nascer na sua alma. Torna-se um Deus, adorado pelo povo primitivo da selva, capaz de exercer na plenitude e em total liberdade a sua vontade. Para que o líder seja inteiramente livre é sempre necessário que os outros sejam completamente escravos. Os súbditos de Kurtz só podiam aproximar-se dele rastejando.

Uma excelente reflexão sobre o Bem e o Mal a Liberdade e a vontade. O horror entrevisto como um abismo escuro em que a vontade impera sem limites e o pior do ser se materializa.

Inspirou um filme de culto – Apocalypse Now de Francis Ford Coppola em que a mata e o rio africanos dão lugar à densa vegetação do sudoeste asiático e ao rio Nyung .

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Economia para todos




Um bom livro para conhecer ou relembrar os mecanismos básicos da economia que aqui são explicados em termos rigorosos mas simultaneamente de forma simples e acessível.

O livro centra-se em três conceitos chave: produto, moeda e expectativas. Com estas peças base o autor constrói todo o edifício da Economia.

Para David A. Moss a equação principal da economia é a que define o PIB, o Produto Interno Bruto e que é a seguinte:

PIB = Consumo + Investimento + Gastos Públicos + Exportações – Importações

A forma como cada país gere estas componentes do Produto define em larga medida o nível de vida dos seus cidadãos. Nos EUA por exemplo o Consumo representa 70% do PIB e o investimento 16,5%.

O livro é recomendado pelo Prémio Nobel da Economia de 1987 Robert Solow. Não é uma recomendação vã.

domingo, 12 de abril de 2009

Kafka on the shore



Kafka on the shore é um estranho mundo, povoado por seres irreais e onde o certo, o concreto, o sólido se entrelaça com o sonho, com a metáfora e mesmo com o absurdo. Onde a vida exterior, quotidiana se mistura de tal forma profundamente com a reflexão interior que acabam por se confundir, perdendo-se a noção de que lado se está.

Duas história que se tocam, por um momento, para logo seguirem os seus caminhos separados. A primeira, um percurso em linha recta, de um adolescente que foge para escapar a uma maldição e para se encontrar; a segunda, em circulo, de um homem que vive apenas com um pé neste mundo.




Podem ler-se comentários interessantes sobre este livro em:










terça-feira, 7 de abril de 2009

O Cachimbo de Marcos


O Subcomandante Marcos, figura mítica da rebelião dos indígenas mexicanos de Chiapas, é o ausente sempre presente nesta história da procura de um amigo desaparecido. A pequena aldeia de La Realidad o cenário. Uma excelente banda desenhada a preto e branco do basco Javier de Isusi.

Uma nota à parte. Os escritos do Subcomandante Marcos podem nunca ter sido traduzidos para português mas foram-no para inglês. Podem ser lidos em:

http://flag.blackened.net/revolt/mexico/marcos_index.html

domingo, 5 de abril de 2009

Money

Um livro sobre a vida de uma certa classe de endinheirados modernos, vivendo com um pé em cada lado do Atlântico, consumidos pelo dinheiro, encharcados em álcool e drogas, obsedados pela pornografia, incapazes de Amar.

A moral do dinheiro, e a consequente falta de ética humana, o turbilhão de experiências, o sonambulismo alcoólico, acabam por levar o personagem principal à ruína material que, só o podemos entrever, será uma possibilidade de redenção novamente falhada quando o dinheiro vier de novo bater-lhe à porta.

Self, o personagem, mostra por vezes um bom fundo a que não sabe juntar a acção adequada, sucumbindo sempre, de forma consciente e torturada de quem sabe agir mal mas ser incapaz de se controlar, à tentação mais imediata, ao prazer mais abjecto.

A dicotomia Amor/Pornografia surge muito nítida quando Self que ama Martina tem ataque de impotência quando está com ela. Como em tudo o resto, ao ceder à tentação Self condena ao fracasso a única relação que o poderia salvar.

Mas a reflexão central do livro é sobre o dinheiro e a felicidade. A vida de Self é uma demonstração clara que o dinheiro pode proporcionar uma felicidade em termos de acesso aos bens de consumo e às pessoas a que o personagem dá importância – o seu magnifico carro, a bebida e a comida abundantes, as viagens, a pornografia, as suas sucessivas amantes - mas acabam por o destruir sob os seus próprios olhos abertos.

sábado, 28 de março de 2009

Rubaiyat


O autor destes versos, Omar Khayyam, nasceu na Pérsia ainda antes da formação de Portugal.

Os seus poemas reflectem sobre o sentido da vida, e sobre a melhor forma de preencher os anos que a cada um cabe de existência.

Á sempiterna inquietação sobre o que fazemos neste Mundo responde com sinceridade e bom humor.

Oh, amigo não te apoquentes com os enigmas da vida
Não aflijas o teu coração com os pensamentos vãos.
Goza a vida porque quando se fez este mundo
Não foste convidado para o aconselhar.

E diz-nos, sem mágoa mas com humildade, que o ciclo da vida e morte se sucede sem fim.

Quando deitarmos o último suspiro
Colocarão tijolos na campa das nossas cinzas
Das nossas cinzas moldarão tijolos
Para cobrir as campas daqueles que virão depois.

Sobre a busca do conhecimento e do saber assume uma atitude socrática:

A sabedoria não me era alheia
Poucos enigmas restaram por explicar
Lançando o olhar para a minha vida que passou
O que sei eu? Não sei nada.

Destas premissas retira lições e constrói uma interessante filosofia de amor à vida e aos seus prazeres.

A vida passa como um momento
Valoriza-a, busca nela o prazer
Da maneira como viveres a vida assim passará
Não esqueças. Ela é a tua criação.


Entre os prazeres que Omar Khayyam celebra tem lugar proeminente o vinho.

À beira-rio, junto da criatura bela como a lua, rosa e o vinho
Deliciar-me-ei enquanto estiver vivo
Bebia vinho, bebo-o e beberei.
Até ao último minuto do meu destino.

Dez Discursos Históricos


Barack Obama é um orador notável. Os seus discursos cheios de esperança vão directos à razão e ao coração dos seus ouvintes.

Esta pequena colectânea centra-se essencialmente no tempo que mediou entre o lançamento da campanha presidencial e a tomada de posse em Janeiro de 2009. Fora deste período apenas a tomada de posição contra a guerra no Iraque no já longínquo ano de 2002.

A clareza na identificação dos problemas e as respostas às preocupações das pessoas comuns surgem como temas sempre presentes.

“Todos sabemos quais são hoje os desafios: uma guerra sem fim,
uma dependencia do petroleo que ameaça o nosso futuro, escolas
onde demasiadas crianças não estão a aprender, e famílias que
lutam de ordenado a ordenado apesar de trabalharem o máximo
que podem.” (pag. 14)

Mas a esperança que sempre as suas palavras transmitem, não assenta no crença em soluções milagrosas, em chefes iluminados mas antes

“... na crença de que o nosso destino não será escrito para nós, mas por nós, por todos aqueles homens e mulheres que não se contentam com o mundo tal como é, mas que têm a coragem de transformar o mundo naquilo que devia ser.” (pág. 25).

“... homens e mulheres comuns, verticais e desassombrados, desafiaram aquilo que sabiam estar errado e contribuíram para o aperfeiçoamento da nossa união."

Palavras que são um desafio à nossa consciência, um apelo à participação. Em tempos cantávamos “Vemos, ouvimos e lemos. Não podemos ignorar”. Barack Obama vem lembrar estas verdades esquecidas.



sexta-feira, 27 de março de 2009

O Parque de Mansfield




O Parque de Mansfield é um livro muito interessante quer pelo que revela de uma época, finais do século XVIII princípios do século XIX, com a sua minúcia e precisão descritiva dos costumes e utensílios da vida quotidiana e um autentico manual educativo, formativo para as raparigas de sociedade na Inglaterra do seu tempo. Se a segunda característica lhe assegurou sucesso em vida, a primeira transforma-o num clássico de leitura obrigatória.

O livro desenrola-se por quadros, ricamente descritos, que nos dão uma imagem colorida em tons de aguarela, feminina e singela, quase infantil, dos cenários e que servem para a partir de situações quase insignificantes, saltar um muro, receber um presente, escolher o lugar numa carruagem, ler em voz alta e outras reflectir sobre o caracter e os princípios morais dos intervenientes e deles extrair lições sobre a conduta correcta, a incorrecta e a leviana.

Não deixa de ser repulsivo a forma crua como o casamento é encarado como um contracto económico destinado acima de tudo a providenciar ao casal um conforto material. A afeição e o ajuste de temperamentos surgem como elementos também relevantes mas claramente secundários na escolha dos cônjuges. Mesmo na sua época havia muita gente já que assim não pensava.

As pessoas são sem dúvida descritas pelo seu caracter, pelas suas maneiras, pela sua apresentação física, mas estas, em geral, reflectem uma outra informação, mais relevante, que sobre elas sempre é dada – o valor do seu rendimento anual em libras.

Sintomática é a dicotomia cidade – campo presente na narrativa, em que o mundo rural surge como sinónimo de quietude e virtude e a cidade como repositório do perigo e do vício.

Por não ter encontrado imagem da capa do livro da colecção dos Clássicos da Europa-America que li opto por colocar a imagem de um retracto da autora.

quarta-feira, 18 de março de 2009


A vida de sacrifício, esforço e audácia de uma Mãe para dar um futuro melhor aos seus filhos e a amargura e a revolta que a invadem quando os seus projectos se desmoronam como a barragem que ergueu contra o Pacífico. Um diamante acalenta uma nova e derradeira esperança, que se desfaz com a bem intencionada mas de novo desastrosa utilização dos proventos da sua venda. A emancipação dos filhos dita uma morte prematura.

Uma história triste e dura passada na Indochina francesa dos tempos coloniais.