sábado, 15 de julho de 2017

Fumo

Fumo de Ivan Turgenev

Fumo, em russo Dym é um retrato realista e impiedoso sobre a sociedade russa novecentista espelhada no microcosmos reunido na cidade alemã de Baden para gozo de férias.

Por um lado a aristocracia ignorante e manipuladora vivendo no luxo e afastada no povo que despreza, por outro a classe terra tenente dos latifundiários absentistas, odiando a aristocracia, passando o tempo em discussões e conspirações fúteis, pondo as suas esperanças numa revolução populista liderada pelos camponeses pobres.

O autor adota uma terceira posição simultaneamente oposta à aristocracia conservadora, ou ao populismo idealista dos latifundiários, defendendo uma aproximação à Europa, a uma postura a um tempo prática e científica que permita um desenvolvimento industrial e científico da Rússia. No entanto esta posição é impregnada do pessimismo de quem sente que tem razão mas que sabe que não será escutado.

A história centra-se no descaminho que sofre um jovem estudante tomado de ilusórios amores por uma Princesa cada com um General.

Ivan Turgenev (1818-1883) foi um escritor russo da segunda metade do século XIX e, geralmente, considerado um dos percursores da moderna literatura russa e um dos expoentes do realismo que liderou com o seu contemporâneo francês Gustave Flaubert. Manteve uma amizade duradoira com Lev Tolstoi.

Viajou extensamente pela Europa, viveu em vários países e morreu perto de Paris.

domingo, 9 de julho de 2017

A Lenda Negra da Índia Portuguesa


A Lenda Negra da Índia Portuguesa por George Davison Winius

George Davison Winius é um historiador e académico norte-americano, especializado na história da expansão europeia na Ásia do séculos XVI e XVII tendo escrito especialmente sobre a transição do breve predomínio português para o longo domínio holandês obtido e mantido pela Companhia das Índia Orientais.

Na Lenda Negra da Índia Portuguesa Winius analisa o fenómeno da corrupção generalizada entre as mais altas elites portuguesas de Goa que, segundo vários autores da época e contemporâneos, estaria na base do declínio português.

Neste livro, apoiado nas obras de Diogo do Couto e de Francisco Rodrigues da Silveira, Wilnus elenca as diversas práticas a que recorriam os vice-reis e o seus mais chegados colaboradores para enriquecer à custa do erário real. Os relatos destes dois portugueses são corroborados pelas crónicas de diversos viajantes europeus que passaram pela Goa do século XVI e que deixaram livros de memórias.

Uma das formas mais comuns de roubo era o dos soldos velhos, i.e. o não abatimento da folha de remunerações de soldados mortos ou dispensados, embolsando os responsáveis esse dinheiro. Outra forma comum era a da venda ao Estado, por valores exorbitantes, de bens. É dado um exemplo de um vice-rei que vendeu alguns dos seus cavalos à cavalaria por um preço tal que chegaria para equipar um batalhão.

O desvio sistemático de dinheiro esteve na base da falta de investimento militar que levou à secundarização de Portugal no comércio das especiarias entre a Ásia e a Europa e no comércio intra-asiático em favor da Holanda e da Inglaterra.

Em contrapartida com as fortunas amassadas pelos vice-reis e seus acólitos, os soldados que embarcavam de Portugal para a Índia, apesar da origem nobre de todos eles, defrontavam-se com uma situação de penúria tal, era comum terem de dormir nas soleiras das portas e de mendigarem a alimentação, que muitos desertavam imediatamente.

Interessante ainda o facto de, devido ao desvio do dinheiro pelas elites, terem os soldados de garantir o seu próprio equipamento o que se traduzia por armas de qualidade inferior e excessiva diversidade o que nas batalhas contra as tropas disciplinadas e equilibradamente equipadas dos holandeses se traduzia em manifesta inferioridade.

Um livro interessante que nos mostra que a corrupção dos governantes portugueses não é um fenómeno de hoje e que as suas consequências se traduzem sempre por perdas de soberania e declínio económico da generalidade da população.

“Rouba mas faz” frase demagógica de tons populistas pode ter para certos alguma atratividade mas é sem dúvida um logro como nos mostra com clareza a História da Índia portuguesa que em escassas décadas passou de um Império comercial e alcance mundial para uma presença menor no cômputo do comércio asiático.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

A arma da casa



A arma da casa

O drama de um casal sul-africano branco cujo único filho, já adulto e independente, comete um assassinato, é preso, confessa e vai a julgamento já no período pós-apartheid.

Apesar de profissionais bem-sucedidos os pais do jovem adulto ficam desorientados, incapazes de num primeiro momento enfrentar a realidade e de lutar pelo filho, antes se deixando enredar num processo de identificação e atribuição de culpas, para só mais tarde se darem conta que a pena de morte ainda constituía uma probabilidade bem real.

O livro, numa cadência lenta, aborda múltiplos temas, desde a religião, o pai é católico e mãe há muito deixou de ser crente, ao racismo na sociedade, a culpa do virar da cara e nada fazer durante o regime da descriminação, passando pela homossexualidade, pelo suicídio, pelas difíceis relações entre Duncan e a namorada, pela amizade e pela imperfeita correspondência entre os meandros judiciais e a Justiça. Tudo escalpelizado, analisado em detalhe, visto por diferentes ângulos e perspectivas, para no final não se chegar a nenhuma conclusão definitiva.

Duncan é culpado ou vitima das circunstâncias? Que Justiça pode um morto esperar? Perante uma sociedade cruelmente injusta é legítimo olhar para o lado e prosseguir a vida como se nada fosse? Que deveres contraí quem salva a vida de outrem e que obrigações pesam sobre os ombros de quem é salvo? Ajudar quem não quer ser ajudado é ajudar? É possível mudar alguém? Nos tribunais a forma sobrepõem-se ao conteúdo ou é apenas uma maneira de o realçar?

Nadine Gordimer, uma das escritoras sul-africanas mais ativas na luta contra o segregacionismo, recebeu o Prémio Nobel em 1991 o mesmo ano em que o odioso regime do apartheid caiu e o ANC a que pertencia, e que durante décadas foi classificado pelas potências ocidentais como movimento terrorista, subiu ao poder. Foi amiga próxima de Nelson Mandela.

A Arma da Casa, publicado em 1998, carrega já a carga da responsabilidade que se abate sobre os escritores laureados. 

Gordimer continuou a escrever até 2005. Morreu na sua cidade natal, Joanesburgo, em 2014.