domingo, 19 de outubro de 2014


A Teia de Hélia Correia

Um pequeno texto, uma minipeça de teatro em que as personagens intermutáveis se confundem e misturam a ponto de as intervenções não serem, em larga parte do enredo, atribuídas a ninguém em particular.
A peça pode ser lida como uma alegoria ao sistema político português em que se enfrentam duas forças malévolas que fazem da perseguição mortal aos seres humanos mais fracos e desprotegidos o seu objetivo.
De um lado as aranhas que sufocam as vítimas na sua apertada teia invisível do outro os vampiros que sugam o sangue dos seus alvos. Aparentemente os vampiros são mais perigosos e poderosos.

As Melhores Histórias de Fernando Sabino

Fernando Sabino foi um escritor brasileiro da segunda metade do século XX tendo deixado uma vasta obra literária que tarda a ser conhecida do público português.
Este livro apresenta-nos um conjunto de 50 contos escolhidos pelo próprio autor. São pequenas histórias, muito curtas – algumas mesmo condensadas em duas a três páginas – retratando, com humor e com um realismo melancólico, episódios da vida quotidiana.
O amante debaixo da cama, os amigos que deixam o seu companheiro bêbado na casa da ex-mulher, o soldado que passa a general no hospício, o cavalo que morre ao ver-se ao espelho, o juiz com problemas de memória, o psicólogo discutindo com o paciente, uma caveira resistente, uma encomenda desvirtuada, variados são os temas abordados numa profusão de situações aparentemente simples e banais mas excelentemente capturadas pela pena deste contista admirável.
Não pretendendo ser moralista, otimista ou ideólogo Fernando Sabino relata com pormenor, mas retendo a essencia do momento, minúsculas cenas que poderiam passar desapercebidas mas que nas suas mãos experientes se transformam em Literatura reluzente.
O leitor de Portugal deve contar com a presença de algumas palavras e construções próprias do Português do Brasil. Nada, porém, que impeça o prazer da leitura ou barre a plena compreensão da obra.

domingo, 12 de outubro de 2014

O Amante por Marguerite Duras


Uma jovem adolescente francesa vivendo na Indochina francesa é empurrada pelas circunstâncias familiares para uma relação pedofila com um milionário chinês. O papel da família, nomeadamente da Mãe, louca e obcecada por projectos megalómanos, e do irmão mais velho, um jovem irresponsável, preguiçoso e viciado no jogo, é escalpelizado com crueza e sem sentimentalismos.

A relação que se inicia com a oferta de um cigarro numa barcaça que atravessa as agua revoltas do rio Meckong quando a jovem, de 15 anos. Nessa altura a rapariga abandona o autocarro que a levaria ao colégio interno que frequentava e entra no luxuoso automóvel com motorista daquele que viria a ser o seu amante durante mais de um ano. A pobreza, mas mais importante a falta de adequada supervisão e protecção da família colocam a jovem num risco que se veio a concretizar, ou numa interpretação mais horrenda que desejavam que se concretizasse.

Esta relação vai para sempre marcar indelevelmente a personagem e inquinar definitivamente as suas relações com a Mãe e o irmão que nada fizeram para resgatar a criança desses abusos continuados. Pelo contrário aproveitaram ao máximo as pequenas migalhas, jantares em restaurantes elegantes, pequenos presentes, que o milionário lhes estendia e incentivando-a até a tentar obter vantagens financeiras.

Um livro violento em que as memórias fluem a par com uma reflexão profunda, mas eivada de ressentimento e ódio, sobre esta relação proibida analisada pelo prisma da vítima.


Muito curioso o facto de o abusador, o amante, ser visto como um agente da sua mãe e do seu irmão mais velho para lhe fazer mal e não um verdadeiro criminoso pedófilo. O seu comportamento criminoso é praticamente apagado naquilo que pode ser interpretado como uma versão da síndrome de Estocolmo em que a vítima se solidariza com o seu agressor.