Foi o Preto
O racismo profundo, entranhado na sociedade portuguesa, aprendido nos bancos da escola do antigamente, reforçado no serviço militar em África, passado às gerações mais novas pela família, pelos manuais escolares, pelas aulas que normalizam a escravização de pessoas, pela apresentação nos meios de comunicação social do outro como atrasado e inferior, expressa-se diária e vingativamente de múltiplas formas de violência e discriminação. O insulto soez, a vil segregação habitacional, o ilegal bloqueio ao acesso à educação, à saúde, estão presentes no quotidiano dos portugueses Negros.
A acusação mentirosa sempre na língua dos racistas e dos xenófobos, atribui a outros as suas próprias ações criminosas – “Foi o Preto” repetem e enchem as prisões do nosso país de Negros, uma anomalia sem explicação, ou antes com elucidação óbvia, em país de maioria “branca”.
Este é um comovente romance realista sobre o sofrimento de uma família Negra causado por uma denúncia impostora movida apenas pelo racismo mais rasteiro e entranhado, mas também por todo um sistema judiciário kafkiano que insiste em levar a julgamento quem sabe ser inocente apenas para o manter preso por mais tempo.
Ângelo Delgado (n.1981) é um talentoso jornalista e escritor português.


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