terça-feira, 15 de setembro de 2015

A Queda



A Queda por Albert Camus

Um voo vertiginoso ao âmago da consciência do pequeno burguês intelectual bem pensante, bom samaritano, pleno de auto-confiança no agir profissional e no estar em sociedade, bem sucedido no trabalho e junto das mulheres, jubiloso com a sua imagem pública e com a opinião dos outros.

Este voo contudo depressa se transforma em queda desamparada quando o personagem, depois de alguns episódios em que a sua coragem e rectidão moral foram testados, se confronta com a sua verdadeira dimensão humana. Revela-se aos seus próprios olhos a hipocrisia, o falso moralismo, a indiferença com que olha os outros, o falso amor que promete às amantes, o egoísmo tremendo da sua existência. Sente então com toda a força da evidência o peso intolerável julgamento dos outros a quem sente ter de revelar a sua real natureza.

Livro do pós-guerra, editado em 1956, está escrito em estilo confessional num longo, mas vivo e sentido, monologo em que o personagem, um juiz-penitente (“lamento sem absolver, compreendo sem perdoar e sobretudo, ah sei que me adoram”), conta a sua vida, o seu tombo e o método que inventou para suportar a vida.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Laudato Si

Laudato Si pelo Papa Francisco

 

Um manifesto em defesa da Terra e dos pobres e oprimidos, descartados pela sociedade em que vivemos e um apelo a que esta seja substituída por outra melhor.

Apesar de algumas limitações importantes de análise e de não ir ao fundo das questões, este é um documento com potencial de motivar católicos, crentes de outras confissões e não crentes (ateus ou agnósticos) em torno de um projeto progressista de preservação da natureza, dos ecossistemas e da melhoria das condições de vida da maioria dos habitantes do Planeta.

Duas ideias novas rompem com a tradição católica: a primeira de que a propriedade privada se deve subordinar ao bem comum e que quando o não faz deve ser posta em causa; a segunda que a tradição judaico-cristã segundo a qual Deus deu a Terra ao ser humano para que este a domine e dela faça o que quer, está errada e deve ser substituída por uma visão em que o ser humano é apenas o cuidador de um bem de Deus, que deve ser um mero administrador diligente do mundo e que todos os seres têm uma dignidade própria.

Perspectiva-se uma grande oposição a este texto no interior da Igreja Católica, que é bem patente pelo escasso eco que teve em Portugal, país em que a hierarquia católica se caracteriza essencialmente pelo conservadorismo, principalmente dos grupos sociais mais abastados que são duramente criticados nesta exortação.

Um texto actual, polémico, bem estruturado e argumentado, que seguramente contribuirá para o debate de ideias e para o trabalho de alteração social indispensável para a continuação da vida humana no terceiro planeta do sistema solar.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Moby Dick

Moby Dick Herman Melville



Uma obra-prima da Literatura mundial, um livro espantoso, de uma profundidade oceânica, de um sopro forte e caloroso como o do subtropical alísio, que celebra o cachalote e a verdadeira baleia, rainhas dos oceanos, e nos conta a aventura trágica de um capitão baleeiro do século XIX, e da sua infeliz tripulação, em busca de uma vingança redentora.

Reflexões, sobre a vida e a sua finalidade, sobre a justiça e a sua aplicação – imperdível a passagem sobre as duas leis da pesca à baleia –, sobre a religião e os seus ensinamentos e sobre um sem número de pequenos temas, que ganham uma fundura luminosa e inesperada na pena de Melville.

Uma escrita envolvente, cheia de detalhes interessantes, análises racionais, histórias maravilhosas, lendas brumosas, estatísticas exactas, plena de humor inteligente mas também picaresco, fluida seguindo sempre uma forte e ondulante corrente que nos impele para a frente com uma maravilhamento encantador.

Como seria de esperar numa historia passada abordo de um veleiro, o Pequod, em mar alto os termos náuticos abundam (cabrestante, polé, bujarrona, ciar, amurada, verga, moitão, gurupés, mezena, turco da baleeira, enxárcia e muitos outros) dando um colorido e criando uma atmosfera que nos deposita no castelo da proa desta embarcação.

Portugal, país de mares e marinheiros, é abundantemente citado quer pela valia das suas gentes (“… os americanos fornecem liberalmente os cérebros, cabendo ao resto do mundo contribuir com os músculos. Um não pequeno número de baleeiros provém dos Açores, onde os navios de Nantucket lançam ferro frequentemente para contemplar as suas equipagens com os sólidos camponeses dessas ilhas rochosas”) e pelas suas lendas (“Aqui a verdade da vida iguala a lenda, mesmo quando se trate de uma velha história como a da serra da Estrela em Portugal, onde se diz existir perto do cume um lago em cuja superfície flutuam as carcaças de navios naufragados no oceano …”). Cabo Verde, esse país nosso irmão, é também mencionado, havendo a bordo um marinheiro de Santiago. Timor surge como refugio de outro cachalote mítico, o Tom de Timor assim chamado porque encontrava refúgio das águas circundantes deste país asiático.

terça-feira, 28 de julho de 2015

Otelo



Otelo por William Shakespeare


Uma das mais emblemáticas peças dramatúrgicas de William Shakespeare considerado, por muitos, o maior escritor inglês de todos os tempos.

Pode, quando se ama loucamente, a insidiosa maledicência, feita de subentendidos e muita insistência, mesmo na completa ausência de provas fazer lentamente desabrochar no coração humano, primeiro como dúvida mas depois como certeza inabalável, o mais terrível de todos os sentimentos: o ciúme feroz que tudo destrói?

Pode um guerreiro experimentado, um general calejado, um homem maduro, deixar-se enganar por um vil ladrão, carreirista e alcoviteiro sem nada suspeitar, sem duvidar do mentiroso e, dando-lhe ouvidos por em causa a amizade e a lealdade do seu bravo, fiel e leal Tenente que tantas provas de afeição lhe dera no passado recente?

Pode um homem ser tão mau que, movido pela ambição, pela ganância e pela inveja, sacrifique vidas inocentes para obter os seus miseráveis objectivos? Que castigo reserva a Republica veneziana para tais pessoas?

O Chipre está salvo, mas o seu salvador perdido.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

O Filho do Ar




Filho do Ar de Jean Cocteau


Neste pequeno livro reúnem os editores 3 poemas e um texto de Jean Cocteau traduzidos por Gastão Cruz para o espectáculo homónimo encenado por Carlos Fernando e apresentado ao público no Teatro da Graça.

O primeiro poema, que dá o nome ao livro, chama-se "O Filho do Ar" e nele se pode ler este magnifico verso “É vasto o mundo – e novo, nocturno, perturbante.”

Em a "Dama de Monte-Carlo" o tema é velhice, o rejuvenescimento pelo jogo (“Como nos sobe o sangue ao rosto / e brilha fúlgido o olhar”) e a queda final (“Vou esta noite lançar-me / às águas de Monte-Carlo”).

O Mentiroso é um texto sobre alguém que compulsivamente se esquiva da verdade e instintivamente, embora por vezes angustiado e contrariado, mente.